Em menos de quinze minutos, Cassian já estava no pé da escadaria que ficava na frente da central, lembrando amargamente que muitos anjos tinham asas ou alguma característica que os auxiliava com essas escolhas terríveis de arquitetura, enquanto ele e outros escolhidos como anjos honorários precisavam ser torturados com escadas gigantescas e edifícios ridiculamente difíceis de navegar. Com um suspiro, Cassian subiu a escada com o corpo pesado, se arrependendo de ter saído da cama.
Sua persistência diária era o maior testemunho de sua lealdade aos seus colegas, pois não existia tortura psicológica maior do que os lances que pareciam ser inacabáveis. Chegando ao topo, ele pode ver uma figura familiar, amarrando seu cabelo longo e escuro em um rabo de cavalo alto, facilmente reconhecível pelos seus suéteres de cores fortes que ela mesmo costurava e bordava. A cor escolhida do dia havia sido um vermelho vibrante e fechado, o qual ela gostava de chamar de “castanho avermelhado” - um nome que Cassian reconhecia pelas tintas de cabelo que sua mãe usava e não como tom de tecido - e pequenos bordados de girassóis, combinando com o broche amarelo que ela colocava em seu peito. Essa era Vera. Um nome que Cassian achava apropriado até demais para sua personalidade. Ela já estava em seus 50 quando chegou no Paraíso décadas atrás, tendo tido a oportunidade de ensinar muitos daqueles que chegaram depois dela e, com o tempo, aprender com eles também. Mãe de 5 filhos, tendo o privilégio de ver cada um deles crescer com estabilidade o suficiente para se tornarem independentes, apesar das condições não ideais - para não dizer cruéis - que cresceram. Essa jornada fez com que ela se tornasse uma mulher paciente e carinhosa, dificilmente se estressando por algo.
Vera apenas percebeu que Cassian estava lá quando seu reflexo apareceu na porta de vidro do prédio, tão imersa em seus pensamentos que ela nem mesmo ouviu os passos pesados de lamento do rapaz. Com um grande sorriso, e um abraço maior ainda, a mulher deu um grande bom dia para Cassian, sua estatura alta e físico forte fazendo a experiência ser mais parecida com um abraço de um urso. Às vezes ele sentia falta da sua mãe.
Precisando lutar um pouco para sair do aperto da mulher, Cassian quase bateu contra a porta ao dar alguns passos para trás, ainda não acostumado com a força que ela tinha, principalmente com o rosto gentil que possuía. Ele puxou o chaveiro que deixava no bolso de seu casaco e abriu a porta da frente, iniciando a rotina matinal da central. Felizmente, aquele era o dia em que a equipe inteira estaria presente, para assim as entregas não interferissem no fluxo de recebimentos, significando muito menos trabalho para ele e muito mais tempo para aproveitar a caminhada que vinha junto das entregas. Chester iria aparecer depois das oito para assumir os afazeres de Cassian, o que dava ao rapaz cerca de uma hora e meia para organizar o que ele estava designado e sair. Não que ele precisasse sair tão cedo, pois o serviço de entrega se iniciava oficialmente só às oito, mas ele a curiosidade era grande demais para esperar.
Curiosidade. A palavra de repente grudou na sua mente. Sua mãe sempre disse que a curiosidade levava as pessoas a lugares que nem o demônio iria com um exército, e que um dia isso iria matar ele. Ele acreditava nela, e não duvidava momento algum que aquele era o motivo de sua morte. Com toda certeza não era saudável pensar demais nisso, mas também era um tanto inevitável. Os outros anjos honorários pareciam ter uma noção básica de seus últimos momentos, mesmo que não soubessem de detalhes - alguns até mesmo tiveram acesso a suas fichas e viram as causas de suas mortes - mas para Cassian era um mistério. Ele não se lembrava de seus últimos momentos, não tinha um pensamento intuitivo sobre o que poderia ter acontecido, e ele sabia que nunca teria acesso a sua ficha enquanto ainda tivesse conflitos com seu líder de divisão.
“Cassi? Você está bem?”, virando seu rosto com surpresa, Cassian demorou para entender a pergunta, respondendo com um 'ahn?' após um tempo consideravelmente preocupante. Vera segurava uma caixa com materiais de papelaria, colocando embaixo da mesa da recepção antes de se aproximar do rapaz, colocando a mão em sua testa para ver a temperatura. “Você tem certeza que está bem para trabalhar hoje?”
“Está tudo bem, eu só acabei viajando um pouco” com um sorriso fraco, Cassian se afastou da mulher, ciente de que ele havia se perdido em pensamentos mais uma vez. Ele sabia que Vera apenas se preocupava com ele, e ela entenderia o sentimento melhor do que ninguém, no entanto, ele também sentia essa necessidade urgente de evitar aquele assunto o máximo possível.
Impotente, Vera pôde apenas observar o rapaz pegar uma das bolsas de entrega que ficavam ao lado do quadro principal, entulhar as encomendas correspondentes com a rota dele dentro da bolsa e torcer que ele não tivesse algum episódio na rua. Antes de sair, a mulher pegou um envelope azul marinho com marcas douradas, parando na frente do rapaz.
“Sei que você provavelmente não vai voltar para a central hoje, e que provavelmente vai visitar a Catty no caminho, então se puder entregar essa carta para ela, eu ficaria muito grata”, seu sorriso era melancólico, expressava saudade. Cassian se lembrava de ter ouvido sobre a Vera ter sido remanejada de outra divisão por seus relacionamentos interpessoais estarem interferindo na performance de seu trabalho, mas isso tinha sido muito antes dele chegar no Paraíso. Ele sabia do relacionamento complexo que ela e Catty tinham, não havia como recusar um pedido tão pessoal sabendo das circunstâncias. Guardando com cuidado a carta dentro de sua bolsa, o rapaz deu um último abraço em Vera antes de abrir a porta.
Céu é algo que muitos desejam. Não importa a crença, o conceito de paz eterna para a alma é sempre tentador. Infelizmente, Cassian aprendeu da pior maneira que esse conceito era exclusivo do imaginário.
Ele não podia dizer o que era pior, trabalhar incansavelmente no pretexto de que, se não o fizesse, sua alma seria condenada, ou o completo penhasco de intrigas e história antiga que ele acabou caindo ao meter seu nariz onde não era chamado.
De qualquer forma, seu papel era claro, mesmo que significasse se jogar aos animais famintos que habitavam nesse hospício celestial na esperança de trazer a humanidade neles. Não havia volta, tendo cavado sua própria cova enquanto imaginava finalmente encontrar a paz que procurava.
“Não há maior dor do que a de nos recordarmos dos dias felizes quando estamos na miséria.„
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