Primeiro, tenho que contar uma coisa: semana passada recebi uma notícia que mexeu comigo. Meu pai decidiu que vamos passar o mês de janeiro na praia.
Eu não sei o que esperar disso tudo. Praia sempre significou diversão e relaxamento, mas com meu pai controlando tudo e minha mãe tentando manter a paz, nunca sei como as coisas vão se desenrolar.
Não que isso impeça que eu goste de praia: sempre gostei de caminhar na areia, lutar contra as ondas do mar, e tomar sorvete de laranja. Tá bom, na verdade é sorvete de morango. Sempre que como algo de laranja ou da cor laranja, por algum motivo, eu me sinto um canibal.
Mas a praia também me lembra quando eu me divertia com meu tio, que morava perto da praia... Então digamos que não gosto de praia.
Parece que as férias não serão tão simples assim.
Mas não é isso que quero falar, e sim do Pior.Natal.De.Todos!
Bom, há três dias atrás foi Natal e, como sempre, foi um desastre. A manhã começou com discussões sem sentido entre meus pais, como se estivessem competindo para ver quem consegue arruinar o espírito festivo mais rápido.
É isso que você esperava, pelo menos, mas não é. As discussões eram sobre a mãe não cumprir uma ordem do pai, ele dando um tapa nela, mais briga... se é assim, por que tentamos fingir que tudo está bem?
O dia foi uma completa porcaria. Uns parentes vieram em casa, ganhei roupa deles, e ganhei um boné do Papai Noel. Sim, eu acredito no Papai Noel, você cala sua boca!¹
Minha mãe me deu um livro. E adivinha o que meu pai me deu? Se você acha que tem algo haver com o fato dele ser extremamente racista com o próprio filho (eu), você acertou: era uma banana.
"Mas Lorenzo, o que uma banana tem haver com isso?"
Simples: Banana é alimento de macaco, e com quem você acha que pessoas negras, como eu, são comparadas?
O almoço foi um festival de tensão mal disfarçada. Sentado à mesa, vi meus pais tentando não discutir sobre qualquer coisa. Isso até minha avó materna perceber que o arroz estava meio apimentado.
Meus pais pediram licença e foram pra sala, e parecia tudo bem. Só que daí a minha tia falou:
"Lorenzo, você viu a minha filha Verônica?"
E foi por isso, e pelo fato que meus pais foram pra sala, que me lembrei:
EU DEIXEI MINHA PRIMA DE 5 ANOS NA SALA!
Fui correndo pra sala, onde me deparei com Verônica correndo em minha direção e chorando. Atrás dela, o meu pai...
Estava batendo na minha mãe com uma cinta...
--- Momento de lembrança ---
Am— Filho, querido, que surpresa! —mA
Vin— Cale-se! Você sabe que ele viria de qualquer jeito. —niV
Am— Ele não viria se você não fosse tão violento. —mA
Vin— Você não quer levar outra surra, não é?! —niV
Am— Ora... —mA
Vin— ME OBEDECE, P*RR*! —niV
*O pai de Lorenzo bate em Amélia*
*Alguns gritos, que não eram ouvidos por outros membros da família sem contar Lorenzo e Verônica, já que a sala era a prova de som.*
Vin— ISSO QUE DÁ NÃO ME OBEDECER! —niV
Am— Amor, para! —mA
Vim— EU JÁ DISSE PRA CALAR A BOCA! —niV
L— PAI, PARA! —L
*O pai encara Lorenzo com raiva*
*Lorenzo estava abraçando Verônica*
L— Esqueceu que a Verônica é autista e pequena?! —L
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Bom, basicamente, eu tive que presenciar meu pai batendo em minha mãe. O problema é que ninguém pode fazer nada, já que a sala, por algum motivo, é a prova de som. A não ser que eles se fazem de surdos!
Só que, depois de um transe, eu me lembrei de um problema. O problema é que a Verônica é pequena, e mesmo se não fosse, ela é autista.
Então, eu tive que falar isso pro meu pai. E isso só pra levar um tapa.
À tarde, escapar para o meu quarto foi a única maneira de manter minha sanidade intacta. O Natal deveria ser sobre amor e família, mas para mim, parece ser apenas uma lembrança dolorosa de como as coisas poderiam ter sido.
Eu nunca gostei do Natal. Ver as pessoas comemorando alegremente me irrita, pois o mesmo não ocorre aqui em casa. Eu já estou cansado de saber quantas vezes o Natal poderia ser legal se não fosse meu pai.
A única parte um pouco legal, eu nem achei tão bom assim: a Rosalina me mandou uma mensagem, me desejando um feliz natal. Eu só respondi "para você também", e sai do aplicativo.
Eu só quero saber o que o próximo natal trará. Vou aproveitar e escrever uma mensagem para meu eu do futuro:
Oi, eu do futuro, você está bem? As coisas melhoraram, ou continua os velhos problemas de sempre? Você conseguiu se livrar do seu pai?
Mas é claro que não. Você sabe que nada funciona. Você tentou ligar pra polícia, pedir ajuda a Deus, ligar pra alguma instituição que luta contra a violência a mulher, mas nada adiantou.
Eu só queria que as coisas tivessem melhorado mais cedo...
Agora, no silêncio do meu quarto, me pergunto o que o próximo ano trará. As férias já acabaram, e sinto um peso em meu peito que não consigo sacudir. Talvez o tempo na praia mude alguma coisa, ou talvez seja apenas mais um cenário para os mesmos velhos problemas.
No dia 11/10/2024, o que era para ser um dia normal acabou sendo o dia de um acidente grave: um ônibus que levava alguns estudantes para a escola Marcela Badalotti foi atingido por um caminhão desgovernado, causando a morte de sete jovens que estavam dentro, incluindo Lorenzo Lima.
Dois meses depois, a mãe dele, Amélia, retirava as últimas lembranças dele de sua casa, quando se deparou com um "caderno". Curiosa, ela resolveu ler o diário.
Ela só não esperava o que iria ler...
¡Avisos!
Esse diário foi levemente baseada no livro "Os papéis de Lucas", que é baseado numa história real.
Apesar de ser uma história de ficção, foi e é baseada em fatos reais.
Esse é um universo alternativo de um projeto que vou postar futuramente.
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