Espinhos. Essa era a primeira coisa que passava na cabeça de Cassian quando ele pensava em roseiras. Sua mãe gostava de cultivar flores durante seu tempo livre e apenas as suculentas sobreviviam, já que ninguém tinha tempo para lembrar de regar as coitadas. Mas ele lembrava de quando era bem pequeno e sua mãe trouxe uma roseira inteira para casa, avisando que, apesar de bonitas, ele devia tomar cuidado com os espinhos da roseira. “As rosas só são bonitas desse jeito porque os espinhos as protegem. Uma roseira sem espinhos é uma roseira sem proteção. As pessoas são iguais, elas criam espinhos para se protegerem do mal do mundo”. Ele tinha muito amor por esses momentos que passou com sua mãe, como ela tentava da sua própria forma ensinar ele e seus irmãos de maneira que entendessem mesmo tão jovens. Sim, ele descobriu mais tarde que a analogia da roseira era extremamente cliché, mas para ele o importante não era isso, e sim o laço que criou com sua mãe naquele momento.
Cassian parou em frente de um grande portão aberto, uma névoa cobrindo o que tinha do outro lado. O portão era vazado e feito de metal, os padrões desenhados lembrando a imagem de rosas, anjos estereotipados e uma enorme cruz em cada lado, adornada com jóias. Antigamente, ele se sentiria honrado por ver uma estrutura tão massiva e detalhada, se perguntando se não era realmente uma obra de Deus, mas a essa altura do campeonato, aquilo se passava mais como pretensioso do que realmente simbolismo genuíno - algo muito característico do líder da divisão - o que significava que ele provavelmente encontraria mais gente exatamente igual ao dito cujo, que por sua vez significava uma enorme dor de cabeça. Se fosse sortudo o suficiente, ele conseguiria passar por aquele inferno no céu sem ser percebido, entregaria o que precisava e iria embora, assim como Chester falou. Se não fosse, ele deveria evitar conflitos ao máximo.
Cansado apenas de olhar para o portão, reluzindo conforme o sol ficava contra o metal, Cassian deu um passo à frente, sentindo um arrependimento indescritível ao ver o que tinha do outro lado. Se antes ele sentia seus olhos arderem com o portão, agora ele estava completamente cegado com o cenário repleto de branco e dourado. Ele lembrava quando era criança e assistia documentários sobre a Grécia antiga, vendo as estruturas brancas por toda parte e, na sua imaginação infantil da época, pensava que quando os deuses ainda estavam vivos a Grécia deveria ser reluzente por causa da graça dos deuses. Aquilo não era muito diferente dessa ideia em questão de aparência. Todos os prédios eram brancos com adornos em dourado, a única coisa os diferenciando sendo a imagem estampada na porta da frente, apresentando diferentes números com rosas em volta. Chegava a ser ridículo o quão sem graça tudo parecia ser, como se fosse o apartamento de uma mulher branca rica.
Contra sua vontade, Cassian se aproximou de uma grande tela, onde havia o mapa da área. Apontando a câmera de seu corvis para um símbolo ao canto, o mapa se abriu na interface flutuante, indicando onde ele estava. Inserindo o endereço na carta, a rota mais rápida logo foi apresentada. Como esperado, ele teria que subir mais alguns lances de escada até chegar no prédio principal. Respirando fundo para não jogar tudo no ar e dar meia volta, Cassian enfrentou o caminho árduo que o esperava.
Como ainda era cedo, não havia muitos anjos que estavam pelas ruas, portanto foi fácil para o rapaz evitar interações com aqueles que não estavam dentro dos prédios. Ele nunca entendeu o porquê de existir tantos anjos nessa área, já que ela era mais focada em administração, mas ao considerar o comentário de Chester sobre o nepotismo se tornou fácil de imaginar como menos da metade dos anjos que se encontravam aqui realmente eram aptos ao trabalho - se trabalhavam para começo de conversa.
Os poucos anjos que ele encontrava na rua eram de certa forma estranhos. Eles eram a imagem do anjo católico estereotipado, com cabelos dourados e cacheados, rostos delicados e roupas brancas. Tinham alguns que fugiam um pouco do padrão, com cabelos castanhos e um pouco de cor em suas vestes, mas todos tinham o mesmo rosto dito como angelical. Depois de ter se acostumado com os anjos não convencionais, ver algo tão comum para um humano se tornava na realidade assustador.
Cassian chegou na frente do prédio principal com um gosto amargo na boca. Era idêntico à uma capela, na frente um vitral representando o líder da divisão - Adinah - rodeado de outros anjos, parecidos com cupidos romanos, e rosas vermelhas. Ele não escondia nem um pouco o seu egocentrismo, muito menos seus gostos pessoais. Felizmente a porta da frente não era tão pesada, apesar de ser feita de madeira bruta e ouro, e por dentro não era tão diferente de um escritório. O térreo estava quase vazio, tendo apenas um balcão, uma máquina de vendas, e algumas fileiras de cadeiras, tornando o ambiente estranhamente solitário.
Atrás do balcão havia três anjos, usando vestes corporativas. Cada um deles estava virado para um computador, mas não pareciam estar realmente focados em seu trabalho, conversando baixo entre si. Cassian se aproximou lentamente, batendo de leve a ponta do dedo no balcão para chamar atenção, mas não alto o suficiente para perturbar o silêncio do lugar. O anjo atendente do centro olhou para cima, seu rosto desinteressado, e apenas apontou para uma pilastra, onde uma tela presa dizia “tire sua senha aqui”. O rapaz levantou as suas mãos e as balançou enquanto falava um pouco mais baixo que o normal.
“Eu estou aqui apenas para fazer uma entrega…”, o atendente não demonstrou emoção alguma, apenas voltou a olhar para o computador a sua frente e começou a digitar, seu tom apenas reforçando o sentimento.
“Nesse caso, você tem a sala no endereço ou a quem ela está endereçada?”
“Sala 1212, andar F. O remetente é o senhor Lysandre”, o som do teclado de repente parou, o olhar do anjo alternando entre pena e desgosto. Cassian deu um passo para trás, assustado com a reação.
“Se eu fosse você, eu daria meia volta e nunca mais voltava para esse lugar”, seu tom não era mais monótono e sim frio. Não apenas ele, mas seus colegas também olhavam para o rapaz com o mesmo olhar de desaprovação.
“Se você não quiser se tornar o almoço de alguém por aqui, é melhor você sair imediatamente deste lugar.”, o anjo mais a esquerda disse, sendo particularmente ácido na sua forma de falar.
Cassian apenas levantou a sobrancelha, esperando uma justificativa pelo comportamento repentino. Ele sabia que os anjos daqui eram estranhos, mas ele também não contava com gente fora da casinha já pela manhã. Vendo que as palavras não foram efetivas, os três anjos se levantaram, conectados de seu abdômen para baixo por um emaranhado de caules. Eles se movimentavam como uma espécie de centauro, os caules se modificando sua forma até se assemelhar com a de um animal quadrúpede.
Oh, não era que ele viraria almoço de alguém qualquer, mas sim almoço deles.
Céu é algo que muitos desejam. Não importa a crença, o conceito de paz eterna para a alma é sempre tentador. Infelizmente, Cassian aprendeu da pior maneira que esse conceito era exclusivo do imaginário.
Ele não podia dizer o que era pior, trabalhar incansavelmente no pretexto de que, se não o fizesse, sua alma seria condenada, ou o completo penhasco de intrigas e história antiga que ele acabou caindo ao meter seu nariz onde não era chamado.
De qualquer forma, seu papel era claro, mesmo que significasse se jogar aos animais famintos que habitavam nesse hospício celestial na esperança de trazer a humanidade neles. Não havia volta, tendo cavado sua própria cova enquanto imaginava finalmente encontrar a paz que procurava.
“Não há maior dor do que a de nos recordarmos dos dias felizes quando estamos na miséria.„
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