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Não me Esqueças

3. Um canteiro de Rosa laguna(2)

3. Um canteiro de Rosa laguna(2)

Aug 09, 2024

   Sentindo que sua arrogância havia o colocado em uma situação infeliz, o rapaz deu alguns passos para trás enquanto os anjos se aproximavam, rezando mentalmente que alguma força misteriosa o salvasse, afinal ele não queria descobrir como era morrer pela segunda vez. 

   No primeiro passo que os anjos fizeram em direção ao entregador, Cassian tentou correr para longe, conseguindo chegar até a última fileira de cadeiras antes de sua bolsa enganchar em uma delas e ele cair no chão. Se ele fosse morrer, não seria sem tentar brigar antes. Rastejando até conseguir equilíbrio o suficiente para levantar, Cassian correu para perto da máquina de vendas, onde ele tinha visto os produtos da equipe de limpeza deixados, tirando dentre eles um cabo de vassoura de alumínio. Poderia não ser uma arma tão efetiva, mas se ele ganhasse tempo até conseguir fugir - ou alguém aparecer para parar essa loucura - já era o suficiente.

   Porém, ele parou assim que pegou o cabo, percebendo que o som dos passos havia cessado. Uma criatura daquele porte não deveria demorar tanto para alcançá-lo, e pelo comportamento agressivo não parecia que um simples cabo de vassoura os ameaçaria. Virando lentamente, ele sentiu seu coração acelerar. Parado à sua frente estava uma pessoa com um sobretudo preto, nas costas um símbolo bordado, por algum motivo familiar. Um losango vermelho, com uma cruz bizantina no centro. Em sua mão carregava um chicote, seu cabo preto com uma pedra vermelha na ponta traseira, enquanto sua corrente era de ouro e escamada. No entanto, não havia nenhum objeto em sua ponta, e sim pequenos fios alaranjados, o que o lembrava dos chicotes usados para performances que ele via em toda feira rural que acontecia na sua cidade natal. Ele não conseguia ver o rosto da pessoa, já que se recusava a se mexer enquanto os anjos ainda olhavam em sua direção tão intensamente. Com um tom de desdém, o anjo de preto começou a falar. 

   “O que vocês estão olhando? Perderam a porra da dignidade na minha cara?” Cassian não conseguiu conter o dano psicológico que ele sentiu quando ouviu essa frase, surpreso por ter sido usado de forma tão natural. Ele conhecia pessoas que não tinham os melhores modos, mas era quase como um consenso que certos tipos de comportamento eram mal vistos no Paraíso - xingar tão deliberadamente sendo um deles.

   Os anjos torceram seus narizes, mudando seu foco para o anjo de preto. No entanto, na tentativa de avançar, seu oponente soltou a corrente do chicote no chão, as pontas reluzindo em vermelho, sendo ativadas enquanto o chicote dançava pelo ar, cobrindo a corrente em eletricidade. Um dos anjos - o que havia se mantido em silêncio até então - completamente apavorado, tentou forçar o corpo a fugir, mas já era tarde demais, seu corpo preso pelo chicote em uma velocidade extraordinária, como também queimando com a eletricidade. Apenas quando os anjos estavam desnorteados demais para lutar de volta, a figura os soltou, puxando novamente o chicote e segurando com as próprias mãos a corrente ainda energizada.

   “Da próxima vez é guilhotina, vocês sabem disso.”, sua voz era um tanto rouca ao falar, como se sua garganta estivesse permanentemente danificada, quase metálica, surgindo o pensamento de que se prata enferrujada pudesse falar, ela soaria da mesma forma.

   “Com licença…” Cassian tentou chamar sua atenção, mas as palavras pareciam estar entaladas na sua garganta, sendo tão baixas que ele não tinha certeza se o anjo havia escutado. Para sua surpresa, mais uma vez, ele se virou para trás, um sorriso inocente estampando seu rosto.

   Era como ver um espelho. Tudo que Cadimeus não era, aquele anjo parecia ser. Seus olhos eram verdes como esmeraldas, mas possuíam um vermelho mórbido em sua volta. Seu cabelo era escuro - não tão longo quanto o do arcanjo - e suas pontas eram atingidas em azul acinzentado. Sua expressão era gentil e acolhedora, com um sentimento de nervosismo por trás. Em seu rosto, havia marcações azuis, em destaque as em volta de seus lábios, parecendo com as patas de um aracnídeo. Não era estranho encontrar anjos usando cores mais escuras - Chester mesmo usava tons de cinza escuros e preto em seu uniforme - no entanto era incomum encontrar esses tons dentro do local que estavam, fazendo com que aquele anjo se destacasse entre os demais. Como se ele não estivesse no lugar certo, pensou Cassian.

   “...Senhor Lysandre?”

   “E quem seria você?”, o anjo acenou a cabeça enquanto falava, afirmando sua identidade. Pela forma que a resposta foi dada junto da interrogação, Cassian demorou alguns segundos até entender o que foi perguntado.

   “Tem uma carta endereçada ao senhor. Fui instruído para vir pessoalmente te entregá-la”, essa era uma meia verdade. Sim, havia no campo de observações que era preferível que alguém fosse pessoalmente até o prédio principal no lugar de deixar na caixa de correio da área das roseiras, mas em momento algum foi pedido que fosse entregue para o destinatário em si. 

   “Oh. Me acompanhe então”, a energia em volta da corrente se dissipou, o estalo da corrente fechando colocando o coração do rapaz na garganta. Não havia como ele esconder, ele estava completamente apavorado com a ideia de dar um único passo em falso e cair num destino pior do que se ele tivesse deixado os recepcionistas o devorar como ração. Não ajudava quando a decisão terrível das Irmãs de manter o coração - por pura estética, dito de passagem - tornava interações como essa ainda mais desconfortáveis. O anjo, no entanto, apenas sorriu e acenou para que o seguisse, caminhando com uma certa graça até o elevador.

   Na esperança de se acalmar um pouco, Cassian começou a observar o ambiente com mais clareza, novamente se deparando com o egocentrismo de Adinah. Haviam pelo menos três quadros que ele conseguia encontrar apenas olhando por cima, todos eles o retratando como um salvador, vestido de branco e outros anjos ao seu redor, louvando sua presença, um ênfase tão grande na sua pureza que se tornava ridículo. A situação não parecia melhorar conforme ele chegava mais perto do elevador, pequenos retratos dele espalhados pelo corredor, tão fantasiosos que por um segundo Cassian havia se esquecido que ele nunca havia visto Adinah sem máscara - e muito provavelmente ninguém viu - tornando aqueles retratos mais uma possibilidade do que uma atualidade.

   A porta do elevador se abriu silenciosamente, revelando o interior em vermelho, dourado e um pouco de branco. Nas paredes haviam pequenos cristais costurados no tecido aveludado, formando ramos de rosas e corações. Lysandre esperou o rapaz entrar primeiro, colocando em sua mão um pequeno lenço assim que passou pela porta. Cassian segurou o lenço confuso, esperando algum tipo de explicação do anjo de preto, mas recebendo em troca a explicação do próprio elevador.

   Ao fechar as portas, o cheiro era insuportável, lembrando o limpador concentrado que sua mãe usava. O lenço, apesar de ajudar a amenizar o cheiro, não foi o suficiente para evitar a tontura, precisando se apoiar em uma das paredes enquanto lutava com a sensação esmagadora do cheiro, idêntico ao cheiro artificial de orquídeas negras que sua mãe sempre comprava.

   Lysandre também parecia incomodado com o cheiro, perdendo um pouco de sua compostura para colocar uma das mãos no rosto, enquanto a outra se apoiava na porta. Independente de quem tivesse sido a ideia, ou ela era muito mal executada, ou ela existia justamente para mandar os funcionários para a emergência. Felizmente, o elevador era tão rápido quanto intolerável, em poucos segundos chegando no andar desejado. O anjo de preto não demorou um segundo sequer para sair, precisando se apoiar na parede enquanto parecia recobrar seu equilíbrio. A cena era cômica, apesar de trágica, evocando no rapaz uma certa empatia.

   “O senhor está bem…?”, Cassian se aproximou com cuidado, ainda um pouco tonto pelo cheiro, que parecia inexistente ao pisar no corredor afora.

   “Sim… Eu acho…”, Lysandre respirou fundo algumas vezes, virando o rosto para Cassian com um sorriso estranhamente reconfortante, “Normalmente eu não uso o elevador por esse motivo, mas eu não ia fazer você subir do jeito perigoso ou obrigá-lo a subir aquele monte de escadas”

   Seu rosto parecia ser um pouco mais jovial que o de Cadimeus, fosse pela sua facilidade em demonstrar o seu sorriso, ou pela estética quase oposta. Ainda sim, mesmo nunca tendo visto ele antes, o sentimento de familiaridade era presente, assim como quando conheceu o anjo de azul. Mais estranho ainda era o déjà vu ao ver o corredor que estava. As paredes eram infestadas de plantas de diferentes tipos, colocadas em pequenos vasos suspensos, escondendo qual era a cor original por trás delas. No chão, um tapete preto e longo se estendia até a porta do outro lado, com bordados em vermelho que se estendiam pelas bordas e, no centro, um olho na mesma cor. A porta era o mais condizente com o resto do prédio, sendo branca com o número “1212” gravado em dourado, um losango vermelho abaixo, muito parecido com o que se encontrava nas costas do casaco do anjo.
Erosgrammia
Anteros Grammia

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