Prólogo
O ano era 3045. A humanidade alcança a tecnologia para viagens espaciais intergalácticas. Começa a expansão sapiens pelo Universo.
Porém aquilo que antes se encontrava apenas nas férteis imaginações de autores fantasiosos foi encontrado por todo o Universo. A magia existia. Existia por todo lado e era uma parede intransponível para os humanos.
A ciência que os homens tanto se orgulhavam era apenas uma medíocre forma que estas formigas encontraram para substituir aquilo que era inerente a todos os seres extraterrestres. Uma forma de tentar controlar forças que eram servas absolutas da magia.
A imagem de seres que só poderiam ser descritos como deuses fez com que os humanos reconhecessem e se escondessem no poço da sua insignificância.
O horizonte que trazia o fantasioso para a realidade ficou conhecido como Cosmos e tornou-se o maior tabu da história humana.
O ano era 3047 e a jornada sapiens acabava. A humanidade era novamente exilada para a Terra.
...................
Em um planeta não nomeado um homem sentava-se ao chão e assistia ao pôr do sol acompanhado de uma misteriosa esfera.
— Então, acho que somos uma família agora — dizia o homem para a esfera.
Capítulo 1
Estamos destinados a morte
Markus iluminava mais uma vez seu quarto com um isqueiro, “quantos já foram?” se perguntava. Seus cigarros eram os únicos que lhe faziam companhia nas noites em que não visitava o reino de Morfeu. Sentia todos seus pensamentos e temores voarem juntos à fumaça.
O estranho homem sentado à cama possuía cabelos negros quase invisíveis na escuridão, exceto por alguns fios grisalhos ganhos pelo estresse, e seus olhos acompanhavam essa pretidão. A barba a fazer terminava de lhe dar um visual desleixado, porém seu corpo destoava completamente dessa primeira má impressão. O homem possuía um corpo que se espera encontrar em soldados de elite, mas isso não era um prêmio conquistado por sua dedicação e disciplina em uma rotina de treinos, pelo menos não atualmente, na realidade isso era resultado de diversos aprimoramentos biológicos ao qual foi submetido quando fazia parte da “expedição”.
Quando o alarme tocou as seis o homem apenas suspirou e levantou-se.
Com o homem em pé, era fácil perceber como seu quarto era pequeno. Entre sua cabeça e o teto não havia mais de três palmos. Uma cama para um e uma cômoda, eram todos os moveis que cabiam no local com paredes de aço.
Ele não fez questão de demorar no quarto e logo saiu para se encontrar em um pequeno corredor, este abrigava duas portas em cada lado, três eram de quartos idênticos e a última era um banheiro compartilhado. Markus alucinou sentindo as paredes encolher e o esmagando em meio àquele aço. Quando seus batimentos começaram a acelerar, e sua respiração a falhar, ele começou a questionar a própria sanidade.
Havia meses em que não recebia nenhum serviço que acelerasse o seu coração, e nas duas últimas semanas nem mesmo os serviços monótonos chegavam. Nos primeiros dias desocupados ele se reunia com seus subalternos para jogar conversa fora, mas Markus começou a achar essas conversas desinteressantes coincidentemente quando o álcool acabou. Agora sua rotina nesses dias preguiçosos se resumia em ficar em seu quarto afogando seus pulmões em fumaças e seu cérebro em desespero.
Então ao dar alguns poucos passos e abrir a porta da sala de reuniões ele prometeu para si mesmo: “Está decidido! Se hoje não recebermos ao menos uma proposta eu explodo essa nave de merda!”
— Capitão, bom-dia! — Gritou um jovem esguio de cabelos castanhos e grandes olhos redondos de cor âmbar que se encontrava na sala. Sua saudação foi prontamente acompanhada de uma continência.
— HAHAHAHAHAHAHAHAHA — a gargalhada completamente descontrolada veio de uma bonita mulher que se encontrava na sala com o jovem. Essa tinha sua pele negra acompanhada de algumas fracas linhas de expressão que relatavam ser mais velha do que as pessoas geralmente palpitariam, e no topo de sua cabeça morava um cabelo black-power de cor preta. Diferentemente do garoto ela não fez qualquer saudação respeitosa à Markus. — Esse moleque acha que tá no exército! Isso nunca perde a graça.
O jovem e a mulher sentavam-se à mesa, a qual não era possível dizer se era fixa ao chão ou uma estrutura estendida da nave, na esquerda da sala opostamente à uma pequena cozinha. Ambos tomavam café.
— Bom dia, Baku. E para vocês também, Lucy e Aurelia.
— Bom dia, senhor — respondeu Aurelia, o holograma do busto de uma jovem de pele pálida que se encontrava no centro da mesa, com a qual Lucy brincava mudando a cor de seu cabelo para branco com mechas azuis. — Essas novas cores me agradam muito, obrigada srta. Lucy.
— Então, sobre o que conversavam? — Pergunto Markus de forma entrosa enquanto sentava-se.
— Capitão, o senhor acredita em destino? — Perguntou Baku, mas ao perceber a cara de confusão de Markus sentiu-se enrubescer e continuou — estávamos conversando sobre isso...
— O sr. Bakumt estava dizendo que sair de Xenos e entrar na tripulação da Avis devia ser o destino dele — disse Aurelia com um sorriso gentil que confortava Baku sobre sua pergunta.
“Então esse seria o meu destino? A desgraça? É, faz sentido” os pensamentos ecoavam em Markus, “o comandante da segunda expedição subsistindo com serviços dos próprios inimigos, talvez seja destino mesmo”. Ao perceber que o silencio já estava ficando estranho, decidiu falar.
— Sim, eu acredito que você está destinado a me servir uma xicara de café e a Aurelia está destinada a me passar os relatórios — Markus se arrependeu de sua estupidez antes de mesmo de terminar de cuspir suas palavras, o rosto tristonho de Baku e a encarada de Lucy foram avisos redundantes de que ele deveria se desculpar.
— Desculpe, Baku. Você está aqui pelos esforços de outra pessoa, e é nisso que eu acredito. Nosso presente e futuro são resultados de ações nossas e de tudo aquilo que nos cerca. Destino não existe. Mas ainda bem que essas ações te trouxeram a nós — quando a tripulação sorriu, Markus soube que dissera as palavras certas. — Mas é sério, pode me servir uma xicara de café?
“O único destino real é a morte” pensou Markus.
— Bom, sobre os relatórios. Há uma hora fomos contactados para realizar um serviço — Markus engasgou-se com o café ao ouvir a notícia de Aurelia, enquanto Lucy e Baku abriram um sorriso que iluminavam seus rostos inteiros. — Agora irei passar os principais detalhes.
— Espera — interrompeu Markus entre tosses. — Não está faltando alguém?
— O Sr. Paul ainda está dormindo, eu posso passar os detalhes para ele mais tarde — respondeu Aurelia sobre o engenheiro da Alvis, o capitão acenou positivamente com a cabeça. — Continuando, a proposta foi feita anonimamente — Markus e Lucy estalaram com a língua. — Se trata do roubo de uma capsula de armazenamento dos Normandis, em Sina. O pagamento será feito integralmente quando o serviço for concluído. Nos ofereceram trinta orbes espaciais.
— Sabemos o que essa capsula está guardando? — Perguntou Lucy.
— Não, essas são as únicas informações temos. Sinto muito. — Aurelia ficou cabisbaixa e Lucy a consolou com um sorriso empático e afagando seu novo cabelo, algo que só era possível há poucas décadas com os chamados “hologramas materiais” que utilizava-se de uma tecnologia para a luz se comportar como matéria. — Disseram que irão nos passar mais informações caso aceitarmos o contrato.
— Anônimos e uma capsula misteriosa... — Markus também começava a ficar cabisbaixo. — Bom, eu já estava cansado mesmo dessa nave... e dessa vida — Apesar de sua piada Markus encontrou apenas confusão em Baku e os rostos sombrios dos membros mais veteranos. Então limpou a garganta e continuou. — O que sabemos sobre os Normandis?
— São uma espécie de pesquisadores — começou Aurelia, — são pacifistas, e existem boatos que estão fazendo acordos com “ratos”.
— Ratos são humanos que traficam outros humanos para os deuses, são chamados de homo-traficantes também — explicou Lucy quando um ponto de interrogação se tornava quase visível acima da cabeça de Baku.
— Espera aí... Esses “normandis” são deuses?! — Baku gritou tão repentinamente que Lucy e Markus pularam da cadeira, Aurelia riu da reação do garoto. — Como assim? Por que estamos falando com eles?
— Acalme-se Sr. Baku — Aurelia falava gentilmente. — Durante o tempo que esteve conosco fizemos negócios apenas com outros humanos, mas nossos maiores clientes são algumas espécies de deuses.
— Somos chamados de “serviçais” — Lucy complementava a explicação de Aurelia. — Há bastante tripulações que fazem esses serviços, na verdade.
— Uau... — Baku falava com grandes pausas. — Eu nunca ouvi falar disso em Xenus.
— Eu fico surpresa é de você já ter ouvido falar dos deuses naquele planetinha isolado — Markus riu baixinho sobre o comentário de Lucy.
— E se é algo comum, por que vocês estão tão estranhos quanto a essa missão? — Baku perguntou, mas todos desviaram o olhar e ficaram em silêncio. — Gente?
— Serviços com deuses são assegurados por uma magia que eles colocam na tripulação — Markus finalmente tomou coragem para responder o rapaz. — A magia garante que ambas as partes cumpram com o prometido senão consequências são aplicadas — o tom de Markus tornou-se sombrio, — eles são bem radicais quanto a isso. A punição é a vida de toda a tripulação, Baku. — o novato abriu a boca, mas rapidamente a fechou novamente, mantendo um silencio palpável na sala por alguns segundos que pareceram uma eternidade. — Mas essa magia pode ser aplicada à distância então não existem razões para que saibamos quem é o nosso contratante, e alguns deles preferem assim. Esses são os serviços anônimos. O problema é que geralmente quem faz esses pedidos são cretinos que estão travando uma guerra silenciosa e querem nos colocar no meio. Basicamente podemos estar entrando em uma guerra entre deuses.
Rapidamente o rosto do novato tornou-se tão sombrio quanto o do resto da tripulação.
— E por que aceitaríamos algo tão estupido? — perguntou, sua voz tremulando.
— O pagamento é gigante! — Lucy gargalhou. — Aurelia, quanto está valendo cada orbe espacial na Terra? — Um orbe espacial era um objeto que permitia seu dono acessar uma dimensão espacial privada. Apesar desses itens precisarem de magia para serem usados, algo que a humanidade não possuía, eles ainda eram extremamente valorizados na Terra por estudiosos e colecionadores.
— A média do valor de um orbe é de 90 mil áureos. — Todos ficaram boquiabertos.
— Esta decido. Vamos fazer essa missão! — Markus anunciou.
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A sensação de tocar em uma “luz corpórea” usada em hologramas materiais é como tocar em um algodão quentinho :p

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