Como se o vácuo do espaço tivesse invadido a nave, um silencio absoluto se apossou da sala de reuniões.
Os olhos de Baku estavam sem foco e toda cor de sua pele desaparecera. O jovem sentiu que entrar na tripulação fora um pacto e que finalmente, após alguns meses felizes, o demônio viera buscar sua alma e arrastá-la para o inferno.
Anos de experiência não deram uma reação melhor para Lucy e Aurelia, ambas estavam quietas e com semblantes nublados. Porém havia mínimas diferenças em seus desesperos. No fundo dos olhos de Lucy podia-se enxergar concordância com o capitão, enquanto o holograma parecia apenas lamentar a decisão.
— Bom, é o que eu gostaria de dizer — o capitão quebrou o silêncio. — Mas antes, precisamos de um plano. E um dos bons.
— Não podemos fazer isso, Markus.
Markus não ficou surpreso com a resposta de Lucy, e sabia que ela não dizia isso por ela. Lucy não era covarde, também não era uma subordinada rebelde, mas ela sempre colocava a segurança de seus companheiros acima de tudo, mesmo que isso significasse ir contra o capitão as vezes.
Baku continuava pálido como papel.
— Lucy, o que você planeja para o futuro? — Markus não a olhou diretamente, ele temia as palavras que se seguiriam.
— Meus planos continuam os mesmos, Markus — havia firmeza em sua voz. — Eu viverei até meu último dia no Cosmos. —As palavras não surpreenderam Markus, mas isso não as impediu de entristecê-lo. Baku pareceu ter voltado um pouco em si, seu horror agora tinha dado lugar à confusão. Sua mente girava com as palavras de Lucy, “por que ela quer continuar no Cosmos?”
— Eu desisti, Lucy. Meu avô encontrou sua insignificância na primeira expedição, meu pai viveu sua vida por uma missão que eu herdei... — a voz de Markus falhou antes dele continuar. — E eu falhei em cumpri-la. Agora eu estou há anos fingindo que ainda alcançarei algo, enquanto todos já desistiriam. Eu quero apenas fazer esse último grande trabalho e fugir para o Buraco.
— Então é isso? Um trabalho de tudo ou nada — Lucy não tratava Markus com tanta cordialidade quanto Baku, mas essa foi a primeira vez que ela realmente tratou o capitão de forma desrespeitosa. O rosto da fiel companheira se afogou em um oceano de emoções, nenhuma amigável. Seu nariz se franziu, seu tom era de desgosto e reprovação, enquanto seus olhos revelavam descrença. — Você não está nem aí para a tripulação, está? Você planeja sacrificar todos eles.
— Não — Markus agora olhava no fundo dos olhos de sua companheira. — Eu planejo salvá-los de ter um futuro como o meu. — Todas as emoções dispersaram de Lucy, sobrando apenas um triste silencio. Entre todos, ela é quem mais compreendia Markus. A maioria dos humanos levavam suas vidas no Buraco e se esqueciam da existência do distante Cosmos, mas Markus e Lucy sentiam-se esmagados por ele. Sentiam-se impotentes e sem valor a todo momento.
Lucy agora olhava para baixo em silêncio, o capitão continuava a encará-la.
— Isso é verdade, Markus? — A voz de Lucy estava sem força. — Você me promete?
— Sim — Markus não desviou o olhar ou pestanejou.
Lucy respirou fundo e deu força novamente à sua voz.
— Então eu te seguirei — Lucy olhou nos olhos do capitão e colocou sua mão em seu coração como forma de demonstrar respeito. — Afinal, eu te devo mais do que só uma vida. — Markus sorriu em resposta.
— Não se sinta pressionada, eu também lhe devo mais do que uma vida — os dois companheiros brindaram suas canecas de café.
Baku olhava para seus veteranos um pouco confuso tentando entender a situação, mas logo arrumou sua postura, estufou o peito, ergueu o queixo e disse quase gritando:
— Eu também lhe seguirei, capitão! Para sempre! — Markus segurou a risada, não querendo menosprezar o gesto de lealdade do garoto, mas Lucy não teve a mesma delicadeza e caiu na gargalhada.
A porta da sala se abriu, e um rosto um tanto deselegante apareceu. Era um homem com um grande cabelo castanhos lambido até o fim de pescoço. Seu rosto iniciava-se com grandes entradas que deixavam sua testa um palmo maior, e seguia-se com olhos castanho vizinhos de fortes olheiras, um nariz pontudo convexo, e uma barba rala malcuidada. Porém, assim como Markus, o homem possuía um corpo que destoava do seu rosto desleixado, com músculos bem treinados de um soldado de elite.
— E é nessa parte que eu apresento o plano — disse o recém-chegado.
— Bom dia, Sr. Paul — cumprimentou Aurelia. — O senhor ouviu a conversa?
— Como não? — respondeu enquanto servia seu café e se juntava a mesa. — Primeiramente, eu gostaria de dizer que estou com você nessa, Markus. Uma última missão e depois fugir para o Buraco enquanto os deuses se mordem, e eu tenho um plano.
Paul era provavelmente o mais inteligente na Nave. Ele e Markus se conheceram há quase duas décadas, quando ambos eram cadetes e, quando a segunda expedição humana no Cosmos falhou, Markus fez questão de trazê-lo como engenheiro da Avis. Apesar de ser tão “íntimo” do Cosmos, ele não possuía o esgotamento de Markus e Lucy, pois para Paul bastava se envolver com tecnologias para sua vida ser satisfatória.
— Mas para esse plano dar certo precisaríamos pedir uma exceção — Lucy falava pensativa após ouvir o plano de Paul. — Apenas um da tripulação poderá receber o contrato. Conseguiremos isso?
— Entrarei em contato pedindo essa exceção — se prontificou Aurelia.
A comunicação com os clientes era feita com a tecnologia do rádio dimensional, que enviava sinais de onda por uma dimensão específica que a tripulação usava para comunicação e a divulgava apenas para potenciais contratantes.
— Isso deve demorar um pou... — Paul foi interrompido por Aurelia durante sua fala.
— Aceitaram. — A rapidez da resposta e a flexibilidade das condições fez com que os mais experientes suassem frio. Estavam desesperados para alguém fazer o serviço. Quão fundo é o buraco que estavam se colocando?
— Então Baku deve receber o contrato — antes de ouvir qualquer protesto, Markus continuou. - Isso significa que ele será o menos envolvido no plano e estará em segurança — todos acenaram em concordância.
—Avise-os que aceitamos o serviço e que iremos ao Cosmos receber o contrato em três dias terrestres — ordenou Paul para o holograma. — Se estão tão desesperados por alguém, não vão se incomodar com mais essa condição. Usaremos esses dias para nos preparar.
— Bom, então vamos para Marte! — Disse Markus.
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“Buraco” é uma parte do Universo onde não existe magia. A civilização humana vive nesse espaço, também é onde a Terra e toda Via Láctea está, enquanto nenhum ser magico consegue ficar vivo mais do que alguns minutos nele :p

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