Ele desperta no meio de uma cidade estranhamente quieta. O silêncio é quase palpável, como se o próprio tempo tivesse esquecido de avançar. Poeira se acumula nas calçadas, e as ruas vazias se estendem diante dele.
Começa a caminhar, sem destino. Os lugares ao redor parecem vagamente familiares, mas as memórias escapam no instante em que tenta tocá-las. Ele sabe que há algo que deveria lembrar, algo importante, mas a mente está em branco, fragmentada.
Em uma praça esquecida, encontra uma velha igreja. Algo o impulsiona a entrar. A porta range ao se abrir, revelando o silêncio profundo do lugar. O interior é escuro, exceto pela luz que atravessa as janelas empoeiradas, projetando sombras suaves no chão. Ao avançar pelo corredor, seus passos não produzem eco; ele se sente como um visitante em um sonho.
No altar, encontra um livro antigo, as páginas gastas pelo tempo. Ao tocá-lo, sente uma onda de nostalgia, uma lembrança vaga de algo perdido. As palavras no livro são difíceis de ler, quase apagadas, mas a sensação de perda o toca profundamente, como se o conteúdo fosse algo que ele já conhecera, mas esqueceu.
Ele sente, então, algo novo, algo denso e inominado: a tristeza de um vazio. Um eco daquilo que ele foi, uma melancolia indefinida. O livro parece representar tudo o que ele perdeu, mas, ao mesmo tempo, tudo o que ele já não é capaz de entender. Ao sair da igreja, percebe, por um instante, que seu reflexo nas janelas empoeiradas é pálido, quase invisível. Tenta ignorar, mas a estranheza persiste.
De volta às ruas, ele continua vagando, cada vez mais leve, como se algo estivesse lentamente se desprendendo dele. As esquinas, os edifícios, tudo ao redor se torna mais borrado, uma pintura que desbota. Ele tenta se lembrar do que veio fazer aqui, mas a resposta nunca se forma. Ele tenta lembrar de um rosto, de uma voz, mas a imagem vem distorcida, e a voz é apenas um sussurro perdido.
Aos poucos, as lembranças vão se apagando, dissolvendo-se no mesmo silêncio que envolve a cidade. Ele para por um instante, fitando o horizonte indefinido, onde o céu parece se confundir com a terra. Em um momento, observa o chão sob seus pés e percebe que não há sombra projetada. Ele fica parado por um tempo, encarando o vazio ali, como se finalmente compreendesse algo que não pode expressar em palavras. As memórias, o vazio crescente, a ausência de uma sombra — tudo parece apontar para uma verdade que ele hesita em aceitar.
Uma última lembrança persiste. Ele se lembra de um pesadelo recorrente — um quarto frio, um teto baixo, e a sensação de estar preso. Sempre havia uma luz distante, fora de alcance. Agora, sente o mesmo peso e impotência, mas caminha em direção àquela luz, buscando algo que talvez nunca chegue.
À medida que sua mente se esvazia, ele começa a se sentir leve, como se estivesse sendo erguido pelo próprio vento. Olha para o céu escuro, e lá, uma luz fraca brilha. Ele aceita o fim, sem dor, sem lembrança, apenas a paz silenciosa de quem finalmente se rendeu ao esquecimento.
Coletânea de one-shots que escrevo de vez em quando.
One-shot é um termo utilizado para histórias que contenham somente um capítulo não fazendo parte de uma série.
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