Ele recostou na cadeira, os dedos tamborilando distraidamente na mesa, como se colocar as palavras em ordem fosse um esforço quase tão cansativo quanto os problemas que enfrentava.
— Infra é uma cidade abandonada, esquecida pelo mundo. Para o reino dos elfos, é como se nem existisse. — Ele riu, mas sem humor. — Sabe o que isso significa? Que mesmo se esse buraco desaparecesse amanhã, o impacto seria… zero.
Salazar fez uma pausa, observando Jake como se esperasse ver uma reação que não veio. O elfo permaneceu imóvel, seus olhos fixos, impassíveis.
— Os impostos daqui — continuou Salazar —, mesmo quando pagos, não chegam nem perto do que as outras cidades enviam. Para eles, Infra não vale o esforço. Nem pra consertar, nem pra controlar.
Ele inclinou o corpo para frente, os olhos cansados mas ainda carregados de intensidade.
— E é por isso que fazem vista grossa pra tudo. Assassinatos, roubos, coisas que você acharia que nem poderiam ser toleradas. Aqui, tudo passa batido.
Salazar esfregou as têmporas, a frustração claramente acumulada, como uma ferida que nunca cicatrizava.
— E mesmo assim, sou o homem mais bem-sucedido desse lugar. — Ele soltou uma risada amarga, seus ombros tensos, como se carregassem um peso invisível. — E sabe o que isso me dá? Nada além de problemas. Cada dia é uma nova merda pra lidar.
Ele fez um gesto vago com a mão, indicando o escritório desorganizado ao seu redor, o reflexo perfeito de sua mente desgastada.
— É isso que significa ser o “rei” de Infra. Sentar no trono de um lugar que nem vale o esforço de existir.
— Depois de tudo isso, Jake… me diga de uma vez. O que você realmente quer? — Salazar perguntou, os olhos semicerrados, avaliando cada expressão do elfo à sua frente.
Jake não hesitou. Sua voz saiu firme, carregada com uma calma calculada.
— Quero a sua ajuda para encontrar um homem. Em troca, vou ajudá-lo a se estabelecer em uma das cidades principais do reino dos elfos. Além disso, é claro, pagarei uma quantia generosa pelo seu trabalho.
O cenho de Salazar se franziu, mas ele manteve o silêncio, esperando por mais. E Jake, com a precisão de alguém que sabia exatamente como conduzir uma negociação, continuou:
— Não existe motivo algum para eu querer proteger ou torcer pela prosperidade daquele reino de merda. Pra ser sincero? Por mim, todo aquele lugar pode pegar fogo.
Salazar viu algo no olhar do elfo. Uma raiva crua, quase palpável. Mas não era uma raiva descontrolada. Era algo mais afiado, direcionado — para o reino dos elfos? Para alguém específico? Talvez para ambos.
Jake aproveitou o silêncio para pressionar ainda mais:
— Posso ajudá-lo a expandir seus negócios para além dessa cidade esquecida. Sou herdeiro de uma família nobre no reino dos elfos. — A última palavra foi dita com um desprezo velado, mas sua oferta permanecia tentadora. — Tenho o poder e os recursos para ocultar qualquer vestígio de crime, para garantir que seus negócios se estabeleçam onde quiser. Posso até mesmo facilitar a divulgação de… digamos, atividades menos lícitas.
Por dentro, Salazar estava chocado, mas não deixou transparecer. Seu rosto continuava impassível, embora seus pensamentos fervilhavam. “Esse garoto não está jogando. Ele fez a lição de casa”, pensou. Jake não só entendia o jogo, como também sabia exatamente quais peças mover para colocar Salazar em xeque.
— Um discurso bem ensaiado, garoto — disse Salazar finalmente, sua voz carregada de desdém, mas também de curiosidade.
Jake sorriu levemente, não como alguém tentando convencer, mas como quem já sabia o resultado da conversa.
— Não há impedimentos do meu lado, Salazar. O que você quiser, pode ser discutido. Mas, para isso, preciso que me ajude a encontrar essa pessoa.
Salazar apertou os lábios, seus olhos cravados nos de Jake, buscando qualquer sinal de hesitação. Não encontrou. O garoto estava jogando duro e, pior, estava disposto a colocar tudo na mesa.
— Muito bem, elfo. — Ele se inclinou para frente, seus olhos estreitando com uma pitada de desafio. — Mas me diga… por que eu confiaria em alguém que parece tão ansioso para trair o próprio reino?
Jake sustentou o olhar, impassível, seu sorriso se tornando uma lâmina afiada.
— Porque minha lealdade nunca pertenceu a eles. — A resposta veio como um golpe, direta, desprovida de hesitação. — E porque, Salazar, no momento, nossos interesses se alinham perfeitamente.
Salazar não respondeu de imediato. Ele estava testando Jake, sim, mas algo lhe dizia que o verdadeiro teste ainda estava por vir.
— E como, exatamente, você pretende impedir que as informações vazem? — Salazar questionou, cruzando os braços enquanto analisava Jake com um olhar cético. — Não é como se fosse fácil esconder jogos de azar em uma cidade principal do reino dos elfos. Mais cedo ou mais tarde, algo iria escapar.
Jake ergueu uma sobrancelha, o mesmo sorriso afiado de antes aparecendo em seus lábios.
— Nobres manchados serão os clientes.
— Nobres manchados? — Salazar repetiu, confuso, inclinando-se levemente à frente.
— Nobres que acumulam uma longa lista de crimes escondidos. — A explicação de Jake veio com um tom quase casual, como se estivesse apenas descrevendo o clima. — Assassinatos, traições, pecados que deixariam até você surpreso, Salazar. Eles ocultam suas sujeiras com ajuda de outros nobres, tecendo uma rede de segredos e favores que mantém tudo bem enterrado.
Salazar piscou lentamente, tentando processar aquilo.
— E ninguém descobre?
— Não, porque isso é parte do jogo. Existe uma divisão territorial que os nobres criaram entre si, uma espécie de pacto não verbalizado, mas amplamente compreendido. — Jake continuou, a voz firme e clara. — Somente a família real e os nobres que participam desse conluio sabem de tudo. Eles se protegem mutuamente porque, no fim das contas, uma queda pode arrastar todos os outros juntos.
— Mas que porra… — Salazar murmurou, surpreso.
A revelação sacudiu suas crenças sobre as cidades principais do reino. Por mais que já tivesse imaginado que crime existia em qualquer lugar, a profundidade daquela corrupção era chocante. Salazar sabia que mesmo em lugares considerados “perfeitos”, desejos sombrios encontravam formas de prosperar.
Mas ele nunca pensara que a podridão estivesse tão profundamente entranhada nos alicerces do poder.
— Então você vai usar os próprios pecados dos nobres para manter tudo em segredo.
— Exatamente. — Jake sorriu, o olhar carregado de confiança. — O que um criminoso teme mais do que a justiça? Que seus aliados descubram suas fraquezas.
Salazar riu baixo, balançando a cabeça. Era uma lógica perversa, mas funcionava. E Jake, ele percebeu, sabia muito bem o jogo que estava jogando.
— Então, se sabe de tudo isso, significa que faz parte desse conluio? Ou seus pais faziam parte? — Salazar questionou, franzindo o cenho enquanto tentava montar o quebra-cabeça.
Jake balançou a cabeça lentamente, o semblante sério.
— Não. Meus pais nunca fizeram parte desse grupo. — Sua voz era firme, mas carregava um peso evidente. — Eles eram pessoas boas. Nobres que se recusavam a sujar as mãos com esse tipo de podridão. Mas, depois que foram assassinados, eu precisei me afundar nessas águas turvas.
Havia uma raiva controlada em sua fala, um fervor perigoso que Salazar reconhecia de imediato. Jake continuou:
— Eu queria encontrar quem tirou a vida deles. E, para isso, mergulhei de cabeça no lado mais sujo do reino. Um lugar onde malícia e crimes se entrelaçam, uma rede invisível que se estende por toda parte. Com a ajuda de alguns amigos nobres dos meus pais, consegui descobrir segredos. Fiz o resto sozinho.
Ele se inclinou um pouco para a frente, com um brilho predatório nos olhos.
— Tenho uma lista. Mais de vinte nomes. Nobres com os dedos cheios de sangue e a consciência enterrada em ouro. Eles serão nossos clientes. Vou usar os crimes deles como garantia de silêncio. Tenho provas o suficiente para derrubá-los, se for necessário.
Salazar ficou em silêncio, analisando cada palavra. Era um plano meticuloso, cruelmente eficaz. Se algum desses nobres resolvesse abrir a boca, Jake os arrastaria com ele para o fundo.
Mas enquanto pensava mais profundamente, Salazar percebeu o verdadeiro alcance daquele esquema. Isso era mais do que apenas chantagem. Era um golpe direto no coração do reino. Ele estreitou os olhos.
— Se você fizer isso, vai estar atacando o próprio sistema. — murmurou, mais para si mesmo do que para Jake.
Jake deu de ombros, o olhar afiado como lâmina.
— O sistema já está podre.
Salazar sabia que ele estava certo. Ainda assim, havia algo muito maior em jogo. Não era difícil imaginar que a família real estivesse ciente dos crimes cometidos pelos nobres. Intervir significaria desestabilizar a base de poder que mantinha o reino em pé. Cada dedo apontado para um nobre culpado puxaria outro, e mais outro, até que toda a estrutura ruísse.
E se isso chegasse ao povo? Se eles descobrissem o quão fundo a corrupção estava entranhada em suas cidades ditas perfeitas?
Uma guerra civil parecia inevitável.
Puta que pariu…
Salazar esfregou a testa, sentindo um leve calafrio.
O garoto estava disposto a jogar o reino inteiro no caos por causa de uma única coisa: vingança.
Por um instante, só um instante, Salazar enxergou algo familiar em Jake. Não o garoto nobre que falava com arrogância e autoconfiança. Mas alguém como ele.
Duas raças diferentes.
Mas duas pessoas que fariam qualquer coisa para alcançar seus objetivos.

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