Jack saiu da sala sem dizer mais nada, deixando Salazar sozinho, imerso em pensamentos. Por mais alguns minutos, ele permaneceu ali, refletindo sobre os planos discutidos.
Tudo havia sido acordado: Jake iria começar a plantar as sementes de seus negócios na cidade natal e, em troca, Salazar ajudaria a encontrar a pessoa que o garoto buscava. A troca parecia simples, mas o peso da situação estava longe de ser leve.
Quando Jack revelou o nome de quem procurava, Salazar quase não acreditou. Tiko. Um elfo negro. O assassino dos pais de Jack e, surpreendentemente, seu irmão adotivo.
Salazar ficou em silêncio por um momento, tentando absorver a história. O relato do garoto era insano, até um pouco surreal. Mas, ao mesmo tempo, ele sabia que Jack não parecia o tipo de pessoa que contaria algo tão extraordinário sem ser verdade.
A história era tão chocante que deixou Salazar boquiaberto, mesmo que ele se forçasse a manter a compostura.
Tiko, o elfo negro, não era um simples criminoso. Ele era uma sombra do passado de Jack, uma parte fundamental de sua tragédia.
Os pais de Jack haviam encontrado Tiko, um bebê abandonado à beira de um rio durante uma viagem. O que parecia ser um ato de compaixão virou o começo de algo monstruoso. Eles o adotaram, o criaram como se fosse seu, e Tiko cresceu junto a Jack, mas algo naquele garoto estava quebrado, corrompido de dentro para fora.
Salazar pensava sobre isso enquanto se lembrava do que Jack lhe disse. Os dois, Jack e Tiko, cresceram juntos, mas nunca se tornaram exatamente amigos. No fim, a relação deles culminou em um ato de horror. Tiko assassinou seus pais adotivos.
Jack chegou em casa e encontrou a cena macabra: o sangue espalhado pelo chão, os corpos de seus pais caídos, e Tiko em pé, coberto pelo sangue, olhando o irmão.
Naquele momento, Tiko escapou. E, desde então, ele havia se tornado um fugitivo procurado em todo o reino dos elfos. Mesmo com todos os recursos de Jack, sua busca por Tiko nunca teve sucesso. O irmão adotivo parecia ter desaparecido da face do reino.
Foi então que Jack teve a ideia: a cidade dos elfos negros. Um lugar perfeito para um criminoso se esconder, longe das leis e das perseguições.
Salazar ficou refletindo sobre isso, imerso em pensamentos sombrios. A cidade dos elfos, um local onde a lei era mais uma formalidade do que uma realidade, parecia o refúgio ideal para um homem como Tiko.
E se ele tivesse a sorte de se esconder ali… Isso era o tipo de desperdício de potencial que Salazar não conseguia compreender.
Que porra… Salazar pensou, sentindo um peso no peito.
Para um elfo negro, nascer em Infra já era quase uma sentença. Com as regras impostas pelos humanos, que restringem os elfos a viverem dentro do território do reino dos elfos, os elfos negros estavam limitados a um único espaço.
E, embora não fosse proibido para eles viver nas cidades dos elfos, o custo da vida era tão alto que era praticamente impossível para qualquer um sobreviver ali.
Era um destino cruel. E ainda mais cruel para Tiko, um elfo negro que jogaria tudo fora por causa de sua própria loucura.
Como alguém que nasceu na lama poderia sequer sonhar em viver nos lugares onde apenas os ricos e poderosos habitavam? Para um elfo negro, alcançar esses altos níveis de vida era impossível.
Não bastava ser forte ou inteligente, era preciso ter dinheiro, e isso era algo que eles, condenados ao seu destino em Infra, não tinham.
E o preconceito, ah, esse estava sempre presente. Eles, considerados uma raça inferior pelos outros elfos, eram forçados a viver nas favelas que chamavam de cidade.
Isso fazia Salazar se irritar profundamente. A história de Jack, de Tiko, o elfo negro que matara sua família adotiva, só reforçava sua raiva. Ele tinha tudo: uma oportunidade, uma vida boa pela frente, mas ao jogar tudo para o alto, ele se perdeu em sua própria escuridão.
Tanta sorte desperdiçada… Salazar pensava, irritado. Que porra…
Ele resmungou baixinho, tentando se acalmar. Estava sozinho em sua sala e tinha tempo para refletir, mas a situação ainda o incomodava. Sua mente não parava de voltar àquela história.
Como alguém como Tiko poderia ter se arriscado tanto, jogando fora uma vida tão valiosa? A raiva se misturava à tristeza, mas ele se forçou a afastar esses pensamentos.
Foi então que a porta se abriu, interrompendo seus devaneios.
— Chien, como foi o trabalho? — Salazar perguntou de forma casual, tentando voltar ao foco das coisas mais urgentes.
Chien, o elfo negro que entrou e fechou a porta atrás de si, exalava uma mistura de sangue e suor. Era evidente que o trabalho havia sido bem-feito. Chien era o braço direito de Salazar, o homem a quem ele recorria para resolver os assuntos mais sujos, os negócios que precisavam ser feitos em Infra.
— Nada muito gratificante — respondeu Chien com a calma de quem estava acostumado com a situação. — Depois que espanquei a mulher do cara na frente dele e arranquei alguns dentes da boca dela, ele começou a se desculpar como um bebê. Não acho que ele vai repetir a falta do pagamento no próximo mês, Salazar.
— Certo, ainda bem — respondeu Salazar, já voltando à questão que o consumia. — Vou precisar de você para um novo trabalho… na verdade, dois. Quero que contrate uma pessoa para mim.
— Contratar? Aconteceu alguma coisa? — Chien perguntou, demonstrando uma leve curiosidade.
— Bem… senta que lá vem história. — Salazar acenou, convidando-o a se sentar.
Chien se acomodou, e Salazar, sem se alongar demais, fez um resumo de tudo o que acontecera mais cedo. Não entrou em muitos detalhes, mas deixou claro o suficiente para que Chien entendesse a situação.
— Pelo que você disse, quer que eu encontre esse cara chamado Tiko? — Chien perguntou, alinhando a informação.
— Mais ou menos, — Salazar corrigiu, balançando a cabeça. — Quero que investigue a cidade. Procure por qualquer cara novo que tenha aparecido do nada em algum canto. Se ele é procurado, obviamente não vai usar o próprio nome por aqui. Tenho uma ideia de como ele se parece, então vou te passar algumas características. Você vai procurar do seu jeito.
Chien assentiu, entendendo o que era preciso fazer. Salazar, por sua vez, se recostou na cadeira, já imaginando as possibilidades e o caminho a seguir. Sabia que se Tiko estivesse ali, ele não duraria muito tempo. E ele faria questão de que não durasse.
— Certo, certo. Vou passar a mensagem para alguns dos meus homens e também para alguns contatos que tenho por aqui. Seja quem for esse cara, se ele estiver por aqui, vamos encontrá-lo.
Salazar assentiu, mas não era só isso que queria pedir a Chien.
— Também preciso de algo mais. Além de vasculharmos a cidade, vamos fazer uma vistoria nas cidades dos elfos, do lado de fora.
— O quê? Sério? — Chien levantou uma sobrancelha, surpreso.
— Sim, temos que fazer isso. O lance é que eu não quero que nenhum dos meus homens fique perambulando por aí, então vamos contratar o Denzel.
Denzel, o assassino das sombras. Um elfo negro, mestre em assassinatos, furtividade e coleta de informações. Era dito que ele aparecia nos piores momentos para eliminar alguém, um dos únicos elfos negros com acesso aos elfos de fora, porque ele matava tanto elfos negros quanto elfos por uma boa quantia.
— Vamos contratar um assassino para rastrear o cara? — Chien questionou, um pouco cético.
— Jack me disse que usou todos os meios para encontrar Tiko, mas duvido muito que realmente tenha feito isso. Ao contrário de nós, que já estamos imersos nesse mundo sujo, Jack entrou agora, ele ainda vê as coisas de uma maneira diferente, por mais inteligente que seja.
Isso fazia sentido. Desde que Jack entrou nesse mundo, ele era como um novato, mal começando a entender as regras.
— Denzel vai com Jack até a cidade dos elfos e vai procurar o alvo por lá. Assim, podemos procurar em duas frentes ao mesmo tempo. Além disso…
Salazar fez uma pausa, e Chien completou:
— Vamos contratar o Denzel para ficar de olho no elfo chamado Jack, certo?
— Exatamente. Por mais que eu tenha gostado do garoto, não é como se eu confiasse totalmente nele. É bom ter alguém vigiando o Jack, só por precaução.
— Faz sentido. Tudo bem, vou atrás de Denzel ainda hoje.

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