— E então? Está atrás do meu irmão? É fã dele, por acaso? — A voz carregava um desdém frio, como se cada palavra fosse uma flecha mirando o coração da vergonha.
— O quê?! Hahaha! Fã? Eu? — Breck soltou uma risada artificial, forçada como um truque mal ensaiado. O som ecoou estranho pelo pátio, enquanto ele apontava para Richard, o dedo acusador mais teatral do que sincero. — Dele? Por favor…
Pousou a mão sobre o ombro de Richard, como se tentasse reivindicar algum tipo de domínio, Breck parecia acreditar que o teatro barato bastaria. Mas antes que pudesse prolongar a encenação, uma voz feminina irrompeu, gelada como o aço de uma lâmina.
— Tire as mãos do senhor Richard!
O comando foi como um trovão abafado que varreu o pátio. Um murmúrio começou a se espalhar entre os presentes, uma onda crescente de indignação e fervor.
De trás das colunas e sombras, jovens elfas começaram a surgir. Seus rostos estavam corados de uma mistura de raiva e devoção, mas seus olhos queimavam com a intensidade de quem acabara de declarar guerra.
— T-tire as mãos do senhor Richard! — uma delas repetiu, a voz trêmula, mas determinada.
— Quem você pensa que é?!
— Ridículo!
— Esse cabelo… Parece uma garota!
— Um fracassado completo.
— Ele bem que podia morrer, né?
— Meu marido não merece isso!
— Richard, eu te amo!
As palavras se entrelaçavam em um coro feroz, uma mistura de insultos e declarações de amor. O olhar fulminante das jovens parecia incinerar Breck onde ele estava, cada comentário como uma pedra atirada em sua fachada de confiança.
Ele permaneceu ali, estático, as gotas de suor começando a brotar em sua testa, enquanto o calor das vozes crescia ao seu redor.
O pátio, que antes parecia um espaço aberto e seguro, agora se fechava em torno dele como uma armadilha. A terra parecia rejeitar sua presença, e os olhares que o cercavam o transformavam em um invasor sem saída.
Por um momento, ele ousou olhar para Richard, mas o sorriso tranquilo do jovem — como se tudo estivesse sob controle — só tornava a situação mais insuportável. Breck, que tantas vezes confiara em sua presença intimidadora, viu-se reduzido ao papel de espectador de sua própria derrota.
E as elfas… Ah, tão delicadas e belas, com palavras tão afiadas quanto espadas.
Breck sentia as pernas tremerem. A fúria e o desprezo ao seu redor eram um peso esmagador, uma força invisível que o deixava à beira do colapso.
Ele levou as mãos ao rosto, tentando esconder o calor das lágrimas que ameaçavam escorrer. Uma traição silenciosa em meio à tormenta, como se até seu corpo se recusasse a obedecer.
Mas então, algo aconteceu.
Uma mão repousou em seu ombro, e o tumulto cessou. Não gradualmente, mas de forma abrupta, como se o próprio mundo tivesse decidido segurar a respiração.
O silêncio era tão denso que Breck quase podia ouvi-lo, como um eco fantasmagórico pairando no ar.
Ele ergueu o olhar, hesitante, e encontrou os olhos de Richard. Aqueles olhos calmos, brilhando com um entendimento insondável, como se vissem algo além do caos ao redor.
Havia um sorriso em seu rosto, amigável, quase cúmplice. Um sorriso que dizia mais do que palavras poderiam explicar.
Richard se virou lentamente, encarando o grupo de garotas que agora o olhava com um fervor quase religioso. O silêncio que antes era tenso transformou-se em reverência, e seus rostos, antes contorcidos pela indignação, agora pareciam iluminados pela expectativa.
Ele falou, sua voz firme, mas carregada de uma ternura que fazia até o vento parecer se inclinar para escutá-lo.
— Meninas, por favor, não tratem o senhor Breck dessa maneira. — As palavras foram medidas, mas poderosas. — Ele é um grande amigo, um homem de valor e honra, respeitado em todo o reino. Um soldado leal, um companheiro confiável, e alguém destinado a grandes feitos no futuro.
A declaração de Richard pairou no ar como uma proclamação divina. Era impossível ignorar, impossível não ser tocado. O pátio, que há pouco era um campo de batalha de vozes e olhares, transformou-se em um oceano de adoração.
— Kyaaaaa! Richard é tão humilde!
— Um verdadeiro cavaleiro!
— Ele até tem compaixão por esse ridículo com cabelo de menina.
— Richard é a própria benevolência encarnada!
— Se o Richard confia nele, então ele deve ser confiável!
— Richard, eu quero ter seus filhos!
As vozes se entrelaçaram em um coro de exaltação. Algumas garotas choravam, lágrimas escorrendo enquanto murmuravam o nome de Richard como se fosse um mantra sagrado. Outras apenas olhavam, estáticas, absorvendo cada palavra como se fossem pérolas caindo de um cofre celestial.
Breck, no centro do turbilhão, sentiu a humilhação cravar raízes profundas em sua mente. O sorriso de Richard permanecia ali, como uma lâmina gentil, cortando sem pressa. Era o sorriso de um estrategista que vencera mais uma batalha sem erguer uma arma.
Era um sorriso que dizia: “Missão cumprida.”
O quê? Ele está sorrindo pra mim?! Esse maldito…!
Breck percebeu, naquele momento, que o dia já estava perdido. Quantas vezes já tinha enfrentado Richard Ravens, o eterno rival que sempre surgia para transformar suas derrotas em um espetáculo de humilhação?
Ele sabia, como sempre soubera, que não importava quantas vezes caísse; Richard estaria lá para garantir que sua queda fosse uma comédia a ser relembrada.
Breck deu um passo para trás, afastando-se enquanto o caos ao seu redor só aumentava. Ele virou as costas para Richard, que o observava com um olhar de dúvida, como se ainda não entendesse o que acabava de acontecer.
— Breck? — Richard chamou em um tom baixo, quase cético.
Breck, com os olhos fixos no chão, soltou um grito de raiva e frustração, seu corpo tremendo de emoção.
— Eu juro… juro que vou te derrotar!
Com essas palavras, ele virou-se abruptamente e disparou em direção à saída, correndo como se quisesse deixar para trás toda a humilhação de sua derrota.
Mia observava, divertida, o homem patético fugir, e não conseguiu conter uma risada silenciosa, um sorriso de puro desdém curvando seus lábios.
— Patético. — Murmurou ela, como se estivesse se referindo a um inseto insignificante, mais uma vitória em seu império de controle.

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