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Não me Esqueças

5. Rheum rhabarbarum, expostos na mesa(1)

5. Rheum rhabarbarum, expostos na mesa(1)

Apr 07, 2025

   A parte favorita de ir com sua mãe para a igreja era ver os vitrais.

   Eram obras de arte que refletiam a luz como se fossem um presente de Deus. Ele não prestava atenção nos cultos - não tinha interesse nenhum no que os pastores e padres falavam - mas adorava ficar horas olhando para a imagem angelical que ficava acima do altar. Enamorado pela figura, o garoto havia decorado cada pedaço de vidro colorido que reluzia no primeiro sermão da manhã. Sua pele parecia ser feita de porcelana, os olhos claros que, dependendo do ângulo, pareciam mudar de cor, feitos com vidro iridescente. Seu cabelo era longo e fluía com graciosidade envolta de seu corpo, partindo de um profundo preto para tons pastéis que incluíam as cores do arco-íris. Suas vestes eram brancas, como dos demais anjos tradicionais, mas possuíam faixas vermelhas e azuis que eram seguradas por o que Cassian imaginava ser um broche no formato de uma estrela, cravejado com pedras preciosas. Sua pose era acolhedora, chamando para um doce abraço, seu sorriso tão gentil quanto sua aura. Desde a primeira vez que o viu, o pequeno rapaz já sabia que aquele seria o seu objeto de encanto por anos seguintes.

   Ao atingir a adolescência, sua mãe já não tinha mais condições físicas para ir em todos os cultos, passando a escutá-los pelo rádio no lugar, deixando seu filho livre para escolher se retornaria para o templo, mesmo que fosse para observar o vitral. Ela não compreendia o que o ser de luz causava em seu filho, mas achava ótimo que ele tivesse algo para crer, algo que o colocasse no caminho certo.

   Cassian dedicou seu tempo livre para estudar tudo que poderia sobre a figura enigmática e caridosa, o significado de seu nome, seus horários de prece, a cor da vela, o incenso, detalhes que apenas aqueles mais devotos saberiam. Sua dedicação era excepcional, até mesmo para os mais religiosos. Claro que havia um incômodo interno com a situação. Por que ele tinha essa conexão tão forte com o ser angelical?

   Seu pai dizia que ‘a espiritualidade é um dom que se nasce com’, e que ‘ele tinha algo especial com esse dom’. Sua mãe dizia que Deus havia o presenteado com um anjo da guarda, e que ele estava apenas sentindo sua presença. Em ambos os casos, aquilo não era o suficiente para explicar o sentimento. Anjo da guarda ou não, ele possuía uma obsessão por ele.

   Quando chegou no Paraíso, o choque de ter uma segunda chance foi o suficiente para que ele pudesse se esquecer momentaneamente dessa lembrança e viver uma vida completamente normal para os padrões locais. Ele fazia seu trabalho decentemente, tinha poucas reclamações - isso é, que não envolvessem seu comportamento - e sua rotina era tão simples quanto a de um trabalhador qualquer. Poderia não ser satisfatório, mas também não era como se pudesse reclamar da simplicidade.

   Simplicidade essa que não durou muito. Ou menos do que esperava.

   Seu coração pulou uma batida quando viu o anjo de azul entrar pela porta na manhã passada, sentindo as memórias de sua infância voltarem em uma onda de emoções. Havia euforia, tristeza, saudade, ansiedade, sensações que o preenchiam de curiosidade e anseio, tudo apenas com um simples olhar. Cadimeus não se parecia nem um pouco com o anjo dos vitrais que ele se lembrava, mas o desejo era o mesmo. De alcançá-lo, tocá-lo, admirá-lo, louvar sua presença. Talvez fosse por sua presença ser diferente dos demais anjos, ou por sua aparência excepcional, o anjo era um imã para os pensamentos do rapaz. E assim como ele se apaixonou por sua presença, o mesmo havia acontecido com Lysandre, confirmando que suas existências não eram apenas coincidências na vida dele.

   Nem Cadimeus, nem Lysandre, tinham relação nenhuma com o anjo que tanto admirou em vida. Cadimeus, à primeira vista, era recluso e tímido, sempre cauteloso com suas palavras e ações, uma estrela reprimida por seu próprio ambiente. Lysandre era ardente e livre, não se importando com opiniões alheias, mas tão perdido quanto uma rosa no deserto. Nada disso era semelhante ao que ele estudou com tanta paixão durante a vida. Contudo, essas mesmas peculiaridades deixava tudo mais claro para Cassian. Assim como seu anjo representava  esperança, liberdade e criatividade, ele conseguia sentir isso vindo daquele par de anjos. O afeto no olhar, a gentileza nos gestos, o cuidado com suas ações, os gritos silenciosos por liberdade, tudo aquilo que, aos olhos de Cassian, os tornavam algo único.

   O trem parou com um solavanco, acordando o rapaz no processo. Ele ainda estava um pouco adormecido enquanto saía do vagão, acenando para o motorista novamente.

   Seu redor estava um cenário branco e castanho, a neve branca o cegava quando colocada em contraste com os pinheiros, que se estendiam até o céu nublado por nuvens escuras. A Divisão de Vigilância era conhecida por sua conexão com o inverno. Tradicionalistas acreditavam que essa era a melhor forma de construir um bom soldado, a explicação lógica era apenas uma formalidade para manter a divisão em um ambiente controlado, com o menor número de mudanças de cenário possível para evitar eventualidades dentro da própria divisão.

   De acordo com os livros de história, A subdivisão de patrulha agia como uma muralha de controle para as outras subdivisões, cercando o quadrante e monitorando a atividade interna. Diferente de Adinah que gostava de separar tudo em setores, Uriel, o líder da Divisão de Vigilância, tinha seu sistema de subdivisões, com seus respectivos líderes. Catherine era líder da subdivisão de patrulha, responsável por vigiar os muros do Paraíso, com uma personalidade mais ativa e difícil de acompanhar - não que isso incomodasse Cassian. Orin, líder da subdivisão militar, era mais tímido, dificilmente abrindo a boca para algo que não fosse instruções ou comentários de incentivo para seus próprios soldados, servindo de modelo para o que deveria ser um líder de verdade. Por fim havia Yaretel, líder da subdivisão de defesa, paranóico e impetuoso, mas sempre humorístico em relação aos outros líderes - ele era o único o qual Cassian não conseguia se dar bem, supérfluo ao máximo, usando de sua posição na hierarquia angélica geral como uma prova de sua capacidade de liderar, como se sua subdivisão não fosse apenas uma desculpa para Uriel não deixá-lo de lado.

   Para Cassian, a parte mais divertida era identificar os soldados pelos uniformes. Era seu jogo de adivinhação pessoal. Malhas de ferro e bastante couro? Patrulha. Armaduras pomposas e pesadas? Definitivamente defesa. Casacos azuis saídos diretamente de um alfaiate com um emblema no peito? Militares. Ele não havia errado até então, e alguns soldados até apreciavam a distinção, se juntando à brincadeira tentando descobrir seu posto dentro da central. Infelizmente a Divisão de Comunicação não era tão interessante assim - ou melhor, seu líder não se importava com os cargos menores o suficiente para fazer algo minimamente recompensador.

   O carteiro parou como no meio da neve, já meio caminho até o prédio que procurava. Ele novamente estava pensando em Cadimeus. Sim, era verdade que os arcanjos junto dele claramente eram militares, mas ele não se encaixava exatamente como um. Seu casaco era mais escuro que os demais, com bordados vermelhos e duas faixas longas que imitavam uma capa, do lado de fora em um tom grafite, enquanto por dentro um vívido amarelo, parecido com o de seu olho. Não só isso, como ele também usava partes de uma armadura que claramente era do pessoal da defesa, principalmente o capacete - apesar de apresentar algumas alterações que o faziam parecer mais com o dono. Por fim, ele usava uma luva de malha de ferro por debaixo do equipamento pesado, assim como suas botas, material que, mesmo que não exclusivo apenas a eles, o pessoal de patrulha usava em todos os seus uniformes. Ver aquele amálgamo de características se organizar numa presença tão genuína e bela, não era à toa que o arcanjo havia deixado uma impressão tão grande nele apesar de tão pouquíssimo tempo.

   O vento frio acertou o rosto de Cassian novamente, o obrigando a voltar para a realidade. Pela temperatura que estava naquele dia, era provável que nevasse mais tarde, o alertando a ser rápido. As condições climáticas daquele quadrante eram famosas por serem cruéis.

   Cassian seguiu um caminho de pedras escondido em meio aos pinheiros, já acostumado com o trajeto. Houve diversas vezes onde ele se perdeu naquelas florestas antes de decorar as pedras que eram realmente pedras e quais eram animais disfarçados.

   A sua frente, as árvores se tornavam dispersas, abrindo caminho para uma clareira, um enorme prédio retangular não muito distante. Ele era pintado de branco com as janelas fumê Nas palavras de sua mãe, parecia uma caixa de fósforo do que um prédio em si. Ele já havia questionado anteriormente a arquitetura da Divisão de Vigilância, mas ninguém soube explicar o porquê de ser assim. Todas as estruturas possuíam essa estética minimalista e clara, quase dando um 360 quando comparada com as escolhas da Divisão de Comunicação, tornando um espectro muito peculiar.

   Aquele prédio em específico era destinado a treinamentos, incrivelmente um dos mais interessantes visualmente. A porta tinha a moldura escura, para não ser tão difícil de encontrar, e no seu centro havia um escudo com três pontas e dois pares de asas azuis atrás, simbolizando a subdivisão de patrulha. Catherine o contou uma vez que Uriel escolheu a dedo qual seria a hierarquia entre as subdivisões, procurando evitar o maior número de fatalidades, usando como referência a própria hierarquia dos anjos. Para os outros líderes, aquela era uma escolha natural, já que Catherine realmente possuía um perfil mais mediador entre os três. Para a arcanjo, no entanto, aquilo apenas a trazia mais insegurança. Se Catherine representava as asas de um querubim, e ambos Orin e Yeratel tinham um único par de asas em seus emblemas, quem que portava o emblema de três pares? O próprio Uriel não poderia ser, ele usava um emblema específico como líder que não apresentava asas e sim espadas cruzadas. Era um sentimento de incerteza e medo que Catherine odiava.

Erosgrammia
Anteros Grammia

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