Cassian parou em frente a porta, seu tamanho sempre o lembrava do quão pequeno ele era para aquele mundo. Bater na porta não era uma opção, era senso comum por aquelas partes que as criaturas do quadrante eram seres traiçoeiros que imitavam maneirismos a fim de enganar e se alimentar. Gritar ou chamar atenção muito menos. Ele não queria chamar nenhuma criatura para cima de si. Era um milagre ele ter ido tão longe sem ver uma alma sequer, ele não iria mudar isso agora que estava tão perto de um lugar seguro. A única opção plausível era esperar até alguém checar as câmeras ou alguém sair pela porta da frente.
Felizmente ele havia chegado após o horário do almoço, então havia alguém no posto de segurança, abrindo a porta o suficiente para que ele, e apenas ele, entrasse no pátio principal. Por dentro era como um outro mundo, cheio de quadros, pinturas nas paredes e mobília dispersa pelos cantos. Um caos organizado, como dizia Catherine, apesar dos protestos de Chester - não que ele tivesse algum poder sobre ela, já que era fora de sua área de atuação como código, de vez em quando reclamando para o código responsável pela Divisão de Vigilância. Para Cassian a visão era aconchegante, demonstrava o quão unidos o pessoal de patrulha era, passando a maior parte de seu tempo juntos quando não estavam em rondas. E o mais chocante de tudo: por escolha. Sim, Cassian gostava de grande parte de seus colegas de trabalho, mas ele nunca negaria um tempo sozinho se pudesse ter. A correria do dia o drenava, e ele podia jurar que haviam pessoas que ficavam olhando pra ele o dia inteiro, sem malícia ou segundas intenções, apenas olhando de forma estranha.
“Se você não distribuir seu peso corretamente eu juro que eu mesma vou quebrar a sua espinha!”, mesmo longe da arena, era impossível não ouvir a voz da tão falada líder da subdivisão de patrulha. Sua voz era como um trovão em uma sala vazia, justificando o porquê de tantas estruturas na sua divisão terem paredes grossas e com isolamento de som. Em teoria, ter a voz estrondosa não era nada convidativo, e muito menos prático para alguém com sua profissão. Mas em prática, Catherine tinha conseguido achar um jeito de se fazer o mais amigável possível, tornando sua voz apenas um detalhe que, com o tempo conhecendo ela, apenas adicionava em seu caráter.
Seguindo os trovões imaginários que seguiam o som da arcanjo falando, não foi difícil encontrá-la mesmo com a arena cheia. Diferente das outras subdivisões que usavam campos de treinamento convencionais, Catherine era apaixonada pela estética circense, achando muito mais prático para seus treinamentos em comparação com outros modelos. Quando recebeu a desaprovação de Uriel, ela mesma construiu a arena, trazendo os materiais e trabalhando por dias para aperfeiçoar toda a estrutura. Onde ela aprendeu todas as habilidades necessárias para isso? Cassian não fazia ideia, mas era interessante saber que aquele era um dos, se não O lugar com maior cuidado e carinho posto no Paraíso inteiro.
Catherine era uma moça de aparência peculiar. Era uma das arcanjos menos humanas que ele já havia encontrado. Seu rosto a fazia parecer com uma boneca, a íris de seus olhos imitando botões de diferentes cores, alternando de forma periodicamente. Suas articulações eram destacadas, como uma marionete, e em suas costas havia uma longa cauda de raposa cinza. Seu cabelo era artificialmente tingido todos os meses de diferentes cores, mas sua preferida era o azul marinho, que por coincidência também estava no brasão da divisão. Ela gostava de usar roupas esportivas, apenas usando seu uniforme oficial se fosse um assunto político ou uma missão - o que se tornou raro nos últimos anos - mas nunca faltando com seus acessórios. Naquele dia ela escolheu colocar uma presilha de peixe dourado. Seu hobbie era colecionar acessórios de cabelo, tendo uma afinidade com a moda humana e suas estranhezas. Seu escritório estava com as gavetas cheias de presilhas, tiaras, piranhas de cabelo, laços, entre outros tipos de bugigangas que ela poderia colocar em seu cabelo. Pela natureza de seu trabalho, ela não podia usar roupas que fossem chamativas ou que ficassem no caminho, até mesmo para os treinamentos, então seu foco se voltou para o cabelo, algo que ela facilmente poderia retirar e guardar em momentos de emergência.
Não era à toa que todo mundo sabia quem Catherine era. Sua presença era marcante desde o momento que pisava nos lugares. Extravagante, radiante, cheia de energia e carinho com tudo e todos. Uma verdadeira líder aos olhos de Cassian.
O rapaz se sentou na escada que levava a arena, observando o amontoado de pessoas nas suas diversas atividades, desde simples alongamentos para duelos com armas de arremesso, como facas e dardos. Catherine estava junto de um grupo de soldados que estavam em meio uma rotina de resistência, os acompanhando como igual para incentivá-los, demonstrando as técnicas certas e ajustando suas falhas. Apesar de sua baixa estatura quando colocada ao lado da maioria de seus aprendizes, ela ainda conseguia ter um ar materno perto deles.
“Agora quero todo mundo fazendo agachamento! Se for pra ser um soldado meia boca que pelo menos seja um soldado meia boca bonito!”, a arcanjo se levantou de onde estava, um sorriso animado em seu rosto contradizendo qualquer conotação negativa que sua fala poderia ter. Ela tinha um pequeno ritmo em seus passos, como uma raposa pulando ao andar, adicionando mais um elemento positivo a sua persona. Seu olhar rapidamente parou em Cassian, destacado como um girassol no meio de um campo de grama baixa, praticamente correndo em sua direção. Já fazia tempo que tinha recebido uma visita do rapaz e começava a se perguntar se ele estava bem. Ela até poderia usar seu corvis para se comunicar com ele, mas ela havia perdido a coisa velha em algum lugar do quadrante e tinha preguiça demais de passar por toda a burocracia de registrar um novo. Com a mesma energia de um labrador vendo seu dono pela primeira vez em meses, Catherine não poupou forças para abraçar Cassian, o apertando até que ele pedisse por piedade.
“Onde você tava esse tempo inteiro! Eu fiquei preocupada…”
“Trabalhando. Diferente de você, que só brinca por aqui”, Cassian deu um peteleco na testa da arcanjo, que continuava manhosa mesmo com as broncas, “Eu ouvi algumas coisas vindas do Chester sobre seu comportamento ultimamente e devo dizer que estou decepcionado com a quantidade de advertências que você recebeu esse mês só por invasão de propriedade”
“Não é invasão se estamos na mesma divisão”
“Você sabe que não é disso que eu tô falando, Catty”, derrotado pela força da arcanjo, Cassian se deitou no chão, se rendendo com as mãos para cima. Quando queria algo, Catherine poderia ser pior que uma muralha. Uriel tinha uma visão positiva quanto aquilo, significava que ela tinha seu compasso moral forte e seria a última a querer o trair caso uma nova guerra santa acontecesse. Ou pelo menos é o que ele acreditava.
Os dois passaram alguns minutos no chão, atualizando um ao outro sobre os últimos acontecimentos em suas divisões, aproveitando para reclamar de seus trabalhos. Catherine amava ser instrutora - o contato, a energia e a didática, tudo aquilo parecia ter sido feito para ela - mas precisava admitir que tinham alunos que testavam os limites dela, fosse intencionalmente ou não.
Catherine foi a primeira a levantar, livrando o rapaz de seu aprisionamento momentâneo. Sempre cheia de energia, ela precisou de apenas um pulo para ficar de pé, enquanto Cassian teve de pedir apoio para a arcanjo para conseguir recuperar o equilíbrio. Depois de anos trabalhando no administrativo, seus joelhos e costas não eram mais os mesmos - justificando seu ódio mortal por escadarias.
“Algo divertido nesses últimos meses, ou a mesmice de sempre?”, a arcanjo acariciava a própria cauda - um hábito de conforto, pelo o que Cassian havia observado - levando o rapaz até seu escritório.
“Eu conheci umas pessoas interessantes”, Cassian a acompanhava de perto, tentando organizar os pensamentos. Ele ainda estava um pouco conflitado em relação a Lysandre, e não tinha informação suficiente de Cadimeus para formar uma opinião concreta. “Uma delas trabalha na mesma divisão que eu, mas em um setor diferente. Tivemos uma conversa bem estranha hoje, mas eu acho que foi um bom começo. Ele faz um café gostoso, talvez eu volte lá mais vezes”
“Você está se dando bem com alguém da sua divisão que não é da central? O mundo deve estar acabando mesmo”, Catherine sempre tinha de empurrar a porta com força para que ela abrisse, um problema que ela poderia ter resolvido a muito tempo, mas tinha vergonha de admitir que uma das dobradiças estava enferrujada porque ela tentou transformar o escritório numa piscina com plástico e muita fita adesiva. Para esse experimento, Cassian nem mesmo perguntou o que aconteceu depois, pois já imaginava a bagunça.
“Ei! Eu não sou tão ruim assim! O pessoal de lá que é extremamente esnobe e é difícil se relacionar com eles, você sabe disso mais do que eu”, o rapaz se jogou no sofá que ficava ao canto, deitando de cabeça para baixo para aliviar um pouco da dor de cabeça que sentia com o frio.
“Assim, eu não julgo sua inabilidade de se comunicar como uma pessoa normal. Maioria dos anjos aqui são assim. Eu julgo sua inabilidade de fingir ser uma pessoa normal, já que você não é um anjo daqui”, a raposa se sentou atrás da mesa desorganizada, uma pequena plaqueta de metal com seu nome o único objeto que parecia ter um propósito em meio aos papéis jogados e tranqueiras que ela trazia de fora. “Eu sei que você tem um senso de justiça gigantesco, Cassian, foi o que tornou a gente amigo em primeiro lugar. Porém, você também está sempre com a guarda alta e isso tá afetando a sua vida pessoal. Não deveria ser surpreendente você conseguir fazer novas amizades na própria divisão”

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