Cassian odiava como Catherine conseguia o ler tão bem. Ele se sentia exposto e vulnerável, colocado contra a parede. Mas ela estava certa no final, aquilo não era saudável. Se nem em vida aquele comportamento o fazia bem, quem dirá em morte. Percebendo que o sangue já havia subido demais para a cabeça e estava começando a deixá-lo tonto, o rapaz se ajeitou no sofá e colocou a cabeça em cima do braço mais próximo da mesa, ainda de costas para a garota.
“O que eu quero dizer é que eu me preocupo com você. Sei que fazem só dois anos que você tá por aqui, mas nesses dois anos eu vi você ter tantas oportunidades e mesmo assim você as rejeitou. Não foi nem ignorou ou não percebeu, mas sim rejeitou elas”, ela acariciava sua cauda, a abraçando entre pernas, seu olhar um pouco mais ansioso que o normal, “Não veja isso como eu te dando uma bronca, tá? Eu só tô cuidando de você do meu jeitinho”
Em resposta ela apenas recebeu um aceno de cabeça. Estava tudo bem, ela sabia que Cassian não era uma pessoa que gostava de falar sobre seus sentimentos. Ele poderia ter uma mente curiosa e estar sempre pronto para questionar tudo, no entanto ele estava longe de ser alguém comunicativo. Naquele momento ela apenas ia deixar aquilo passar e mudar de assunto. Evitar causar mais desconforto entre os dois. “Mas me conta, quem é essa pessoa?”
“Hm?”, como se só tivesse voltado ao mundo real agora, Cassian levantou a cabeça para olhar melhor Catherine.
“A pessoa que você conheceu na sua divisão”
“Ah, verdade, já tinha me esquecido disso”, o rapaz mudou sua posição no sofá, agora olhando para a raposa, ela tinha uma expressão curiosa, com um sorriso ingênuo que poderia enganar qualquer um. “Ele é do RH, conheci ele quando fui fazer uma entrega. Ele é meio estranho, não esperava ninguém com uma personalidade que nem a dele dentro daquele inferno de lugar, mas é uma surpresa bem-vinda eu acho”
“Você acha? Por que acha?”, ela balançava a cauda conforme o rapaz falava, alegre por ter esses pequenos momentos com ele.
“Eu gostei dele, sério. Acho que seria uma companhia legal de se manter. Sabe, aquele tipo de amizade de baixa manutenção que você não precisa ficar o tempo todo relembrando o outro que existe”
“O oposto do Chester?”, a garota jogou a cabeça levemente para o lado em curiosidade.
“O oposto do Chester”
Os dois riram juntos, lembrando o quão cuidadoso o coelho era com seus colegas de trabalho. Lysandre era intenso? Com toda certeza. Contudo, sua intensidade era diferente quando comparado ao Chedter. Era muito mais relacionado com seus hábitos e trejeitos do que com a velocidade que ele fazia as coisas, como se a energia se armazenasse em sua mente, periodicamente sendo liberada, em oposição ao Chester, que colocava tudo pra fora de uma vez só, com inseguranças e preocupações, criando a babá constante que ele se tornou.
Catherine tinha o costume de deixar o rapaz se perder nos próprios pensamentos e observar como sua mente chegava em conclusões. Era curioso o jeito como ele raciocinava, muitas vezes chegando em respostas completamente fora da curva. Se ela pudesse, ela responderia todas as perguntas que ele tinha, mas aquilo estava longe de seu poder - além de que ela sabia que algumas das perguntas poderiam trazer problemas para ele.
De todas as pessoas, Catherine era o mais próximo que Cassian tinha de uma irmã naquele lugar. Ela compreendia seu hábitos e trejeitos e não questionava, apenas quando necessário. Ela cuidava dele como família, se importava com seus interesses, engajava nos seus assuntos, compartilhava os próprios, não criava uma barreira entre os dois por conta do trabalho. Ela o fazia sentir em casa.
Eles não precisavam falar para entender que era um momento de carinho. Na realidade, muitas vezes eles nem mesmo trocavam uma palavra, apenas sentavam um ao lado do outro apreciando o tempo juntos. Ainda existia a saudade de sua família, mas ter ciência de que ele tinha uma família ali o trazia conforto.
Como de costume, Cassian ficou até o pôr do sol. Ele não gostava de pegar o trem no terceiro período pois ficava muito cheio, então o jeito era correr para pegar os últimos trens do segundo, que normalmente eram mais desertos. Para Catherine, era desnecessário que ele fosse embora. A presença dele era, além de prazerosa, uma ótima desculpa para ela procrastinar o trabalho dela. Se ele quisesse, ela poderia arranjar um espaço para ele morar, e proporcionaria alguma forma mais prática de transporte até a divisão dele. Seria uma ótima forma de ter o rapaz por perto por mais tempo e irritar o Adinah demonstrando mais uma vez o quão melhor ela era como líder, até mesmo para os subordinados dele. Contudo, mesmo com as ofertas e insistências, Cassian gostava de onde ele vivia atualmente e não se via se mudando tão cedo. Ambos caminharam sem muita pressa até a porta da frente, aproveitando cada segundo da despedida.
“Me mantém atualizada? De verdade dessa vez”, a raposa deu um soquinho no ombro do rapaz em um tom preocupado.
“Eu vou, eu vou. Qualquer coisa você também pode me ligar”
“Não quero te atrapalhar no trabalho, sei que você leva ele a sério, diferente de muita gente”, os dois riram baixo e se abraçaram por alguns segundos antes da porta se abrir e o carteiro enfrentar o cenário nevado novamente.
O sol no horizonte mal podia ser visto, coberto pelos pinheiros escuros, apenas alguns raios chegando até a clareira. O céu estava levemente rosado, ainda um tanto nublado, não o suficiente para ficar escuro, mas o suficiente para a temperatura despencar. Aqueles eram sinais de que uma nevasca estava para chegar, esses que Cassian aprendeu com visitas infortunas. Ele não queria admitir, mas estava se sentindo um tanto tonto desde que saiu da própria divisão, provavelmente por ter se recusado a comer algo substancial antes de sair para as entregas e estar de estomago vazio, porém ele nunca admitiria isso na cara do Chester, a não ser que ele quisesse levar uma bronca que durariam dias, se não semanas. O frio também não ajudava, acentuado a fome que até então ele estava conseguindo ignorar. Não era uma coisa nova, ele frequentemente esquecia de comer e precisava de outras pessoas para relembrá-lo de necessidades básicas que ele ainda tinha.
Chegando perto da estação de trem, a neblina que havia se formado estava tão densa que não era mais possível distinguir se ainda havia sol ou não. Felizmente, Cassian já havia decorado o caminho e conseguiu encontrar o banco para esperar pelo próximo trem, que poderia aparecer a qualquer momento. Diferentemente dos trens de sentido horário que tinham horários precisos para chegar até seus pontos, os de sentido anti-horário eram muito mais flexíveis, o que tornava voltar para casa uma dor de cabeça, ainda mais no frio. Se encostando em uma viga, o rapaz decidiu que iria cochilar até o trem chegar, vendo os primeiros flocos de neve caindo na sua frente, mentalmente reclamando das decisões de vida ruins que ele fez para chegar onde estava, com fome, frio e provavelmente prestes a desmaiar. Ele fechou os olhos, deixando sua imaginação preencher o vazio que o silencio proporcionava, rapidamente caindo no sono.
Contudo, quando achou que tinha finalmente pego um momento para dormir, ele sentiu algo pesado sendo colocado nas suas costas e o envolvendo, adicionando mais uma camada de isolamento. Demorou para que ele percebesse que a nevasca já havia chegado, obstruindo qualquer possibilidade de visão, indicando que seu cochilo demorou mais do que ele imaginava. Atrás dele ele conseguia ouvir o som de duas pessoas em uma discussão, uma das vozes levemente robótica, porém ambas familiares, apesar da nevasca abafar o som ao ponto dele não conseguir distinguir o que estava sendo dito. Ele queria muito ver quem estava lá, mas seu corpo se recusava a se mexer com o clima, apenas tremendo no lugar. No entanto, esforço não foi necessário, já que segundos depois ele foi pego no colo, reconhecendo a figura apesar estar usando um capacete escuro de motociclismo.
Havia poucas pessoas que ele havia visto no céu inteiro que usavam preto como principal cor de suas roupas e ainda levavam consigo a insígnia da Divisão de Comunicação, ainda menos combinando vermelho na mistura, voltando para apenas uma pessoa. Inconscientemente, o rapaz abriu um sorriso, sua mente tão alterada que sentia como se ainda estivesse num sonho, sendo salvo por um querubim, assim como nas histórias que sua mãe criava durante sua infância antes de colocá-lo para dormir. O anjo falou algo para Cassian, seu tom calmo e assertivo, mas o entregador já estava adormecendo novamente, segurando no calor que o seu salvador proporcionava.

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