O carro cruza voando violentamente pelo ar em pleno dia, sua sombra deslizando pelo chão como um predador à espreita. Gabrielle mal tem tempo de reagir antes de ver o veículo girando descontrolado em sua direção, lançado com uma força surreal.
— Aaaah, é agora que eu morro mesmo! — o grito de Gabrielle ecoa pela rua, seus olhos arregalados, o medo a paralisando no lugar.
Farid, sem perder tempo, a puxa pelo braço, girando para encarar o carro que se aproxima. A luz do sol reflete em seus olhos, enquanto sua expressão se torna de puro desdém.
— Sempre tão violentos... — resmunga ele, como se já estivesse entediado com a situação.
Com um movimento rápido e certeiro, o Djinn desfere um soco contra o veículo no momento exato em que ele está prestes a atingi-los. O carro amassa com um som estridente, sendo arremessado de volta para o alto, até colidir com o muro do colégio próximo a eles, espalhando pedaços de metal retorcido pelo chão.
Gabrielle, ainda sem fôlego, caída no chão, tenta absorver o que acabou de acontecer. Ela pisca repetidamente, o choque estampado em seu rosto.
— O que... foi isso?! — ela balbucia, a voz trêmula enquanto encara Farid. Farid se vira para ela com um sorriso calmo, como se aquilo fosse apenas mais um inconveniente.
— Eu avisei que deveríamos ter saído logo. Coisas assim sempre acontecem com você! — Ele passa os olhos pela rua arborizada, procurando uma forma de escapar, sempre com os seus sentidos em alerta.
Do telhado da casa próxima ao colégio, uma sombra colossal se ergue, sua forma escura contrastando com o céu azul. Um rugido estrondoso é ouvido, fazendo as janelas ao redor vibrarem.
É o Breu que arremessou o carro contra Farid e Gabrielle. Sua pela é sombria como petróleo, com nuances de cinza, que brilham parcialmente pela sombra formada pelas copas das árvores.
Farid estreita os olhos, visivelmente irritado.
— Droga... vamos ter que encontrar outra saída. — Ele segura a mão de Gabrielle com firmeza, já traçando o próximo movimento.
Antes que Farid pudesse traçar a melhor estratégia de fuga, uma segunda sombra grotesca surge no topo do alto muro do colégio, próximo à parte destruída pelo carro, como uma figura distorcida contra o céu claro.
— F-Farid...! — Gabrielle exclama, sua voz cheia de susto enquanto sente seu corpo ser repentinamente suspenso no ar. Ela sente a respiração fria da morte em seu pescoço.
Gabrielle é erguida a quase três metros de altura, seu coração acelerado e os olhos arregalados enquanto ela tenta processar o que está acontecendo. Seu corpo se contorce instintivamente na tentativa de escapar, mas o aperto que a segura é implacável.
A criatura que a capturou é imensa, sua pele sombria como pixe, com nuances de roxo índigo que brilham à luz do dia. Seus olhos, da mesma cor, estão fixos em Gabrielle, como se saboreassem sua surpresa e vulnerabilidade.
Farid se vira rapidamente, percebendo a perigosa situação em que eles se encontra: cercado por dois Breus maiores e aparentemente mais poderosos que Guilherme. Além disso, um desses Breus capturou Gabrielle.
Farid sabe que ele não conseguirá resgatar Gabrielle enquanto não deter o Breu cinza, que lança um olhar ameaçador sobre o Djinn, parecendo pronto a atacar. Seus olhos brilham com uma intensidade sinistra, mesmo sob a luz do sol, e suas garras afiadas refletem a claridade do dia.
— O que você quer comigo, monstro nojento? — pergunta Gabrielle, com a voz ríspida, enquanto luta para encontrar uma forma de sair daquela situação sozinha.
Gabrielle, com o coração acelerado, olha em direção a Farid. Mesmo com medo, Gabrielle ainda se mostra corajosa.
Farid range os dentes, seus olhos estreitando enquanto ele processa a situação. A energia ao seu redor começa a vibrar, carregada de determinação. Ele sabe que precisa agir rapidamente.
— Isso acaba agora... — Farid murmura, seus olhos brilhando com uma determinação feroz enquanto se prepara para enfrentar os dois Breus.
Gabrielle sentiu a pressão aumentar ao redor de seu corpo enquanto a cauda escura e grotesca do Breu a mantinha suspensa. O medo rastejava por sua espinha, mas ela não iria ceder tão facilmente. Com um chute determinado, ela atinge a criatura com toda a força que consegue reunir.
— Me solta, seu monstro nojento! — ela grita, a voz tremendo de raiva e coragem.
Mesmo presa, Gabrielle continua a se debater, tentando se libertar. O Breu de pele índigo caminha através do muro até o teto do colégio, com Gabrielle enrolada na cauda. Ao alcançar o telhado, ele solta um rugido aterrorizante, um som tão alto e profundo que reverbera pela rua. O som é tão estridente que estilhaça as janelas ao redor, e todos os presentes se encolhem, levando as mãos aos ouvidos para bloquear a dor penetrante.
Gabrielle fica tonta e nauseada com o som agudo, prestes a desmaiar, por ter sido afetada pelo som ressoante, Gabrielle resiste.
Farid percebe que Gabrielle está prestes a perder os sentidos, por conta som agudo emitido pelo rugido do Breu — Loura, aguente firme, estou a caminho! — Farid grita desesperado, seus olhos arregalados de preocupação enquanto vê Gabrielle sendo erguida ainda mais alto pela criatura monstruosa.
Mas antes que ele pudesse agir, o Breu de pele cinza aproveita a distração e, com uma força devastadora, arremessa um segundo carro diretamente em Farid. O impacto é brutal — o carro atinge Farid com um estrondo ensurdecedor, esmagando-o contra o chão.
— Aaaah! — O grito de dor de Farid ecoa, enquanto o automóvel o pressiona com todo o peso.
Guilherme, ainda próximo à mangueira, se contorce em agonia, seu corpo estava sofrendo com as marcas da transformação em Breu.
O Breu índigo ergue Gabrielle ainda mais alto, sua cauda enrolada ao redor de seu corpo como uma serpente mortal. Seus olhos sombrios a encaram fixamente, como se estivesse estudando cada movimento dela. Com um aperto súbito e esmagador, ele comprime seu corpo, fazendo Gabrielle soltar um grito de dor.
— Aaaah, me solta seu Breu horroroso! — Exclama, Gabrielle.
Subitamente, algo incomum acontece. Ao redor de Gabrielle, uma nuvem dourada começa a se formar, emanando de seu corpo como um brilho misterioso. Pequenos pontos brilhantes flutuam no ar ao redor dela, iluminando o espaço em um espetáculo hipnotizante.
Os olhos do Breu se arregalam, sua expressão carregada de surpresa e fascínio pela luz que agora envolve a garota, são as Areias do Desejo.
Gabrielle sentia a pressão aumentar ao redor de seu corpo, sua respiração ficando cada vez mais superficial à medida que o Breu apertava sua cauda contra ela. Sua visão estava começando a embaçar, e o medo se misturava ao cansaço.
"Droga... eu não queria acabar dessa forma…" — pensou, lutando para manter os olhos abertos. "Mas... eu não... tenho forças… estou ficando sem ar…" — continua.
Ela olhou para o Breu, que a encarava com olhos semi-cerrados, preparando-se para o golpe final. Lágrimas começaram a brotar nos cantos de seus olhos. De repente a imagem da empregada de cabelos Chanel invadiu a mente de Gabrielle, e uma onda de tristeza e arrependimento invadiu seu peito.
— Me desculpe… — murmurou, suas palavras quase inaudíveis. — Eu sou fraca... não consegui cumprir minha promessa...
De repente, algo pareceu atingir o Breu índigo. Um sapato o alvejou em cheio na cabeça, que quase não sentiu ter sido atingido.
— Solta a minha amiga, seu monstro nojento imbecil! — gritou Daniella, sua voz carregada de fúria.
O Breu se virou lentamente para Daniella, os olhos estreitados em um olhar rancoroso. A criatura começou a acumular uma energia vibrante, índigo com tons escarlates, que pulsava dentro de sua boca. A energia crescia em intensidade, e então, com um rugido, ele a disparou em direção à garota. Daniella congelou ao ver a onda de luz mortal vindo em sua direção. Seu corpo se encolheu instintivamente.
— Socorro... — sussurrou ela, a voz quase desaparecendo no ar.
Gabrielle, com grande esforço, se contorceu para olhar para sua amiga.
— Dani… corre!! — gritou, com a voz fraca, sentindo o desespero crescer.
Mas antes que a energia pudesse atingir Daniella, uma figura se moveu em um borrão. Em um salto sobre-humano, alguém se lançou no caminho, bloqueando o ataque. Daniela vê uma figura alta pousar de forma firme, com os pés arrastando-se pelo chão e criando sulcos profundos no concreto, enquanto a força do impacto reverberava.
— Obri…gada… — Daniella começou a falar, mas suas palavras ficaram presas na garganta.
Ao olhar para o seu salvador, Daniella viu a verdadeira aparência dele: dentes pontiagudos e olhos vermelhos brilhavam sob a luz do dia. Seus cabelos, longos e ligeiramente bagunçados, balançavam ao vento. Ele era uma visão feroz, uma mistura de humano, e algo muito mais assustador.
Apesar do medo que a envolvia, Daniella finalmente conseguiu encontrar sua voz novamente, ainda que mais baixa.
— Está…tudo bem?… — murmurou, dando um passo cauteloso para trás, mas ainda sem desviar o olhar.
Um densa fumaça negra escapava pelos lábios de Guilherme, envolvendo-o em uma aura assustadora. Era impossível dizer se ele estava consciente de si mesmo ou não, ou quais eram suas verdadeiras intenções. Seu nariz se agitava ininterruptamente, como o de um predador à procura de sua presa.
Com um gesto lento e sinistro, Guilherme lambeu os lábios e esboçou um sorriso predatório. Sem aviso, ele soltou Daniella no chão, seus olhos se fixando diretamente em Gabrielle e nas cintilantes Areias do Desejo que flutuavam no ar.
Ele ergueu as mãos, e um som nauseante preencheu o ambiente. Seus dedos estavam sendo perfurados de dentro para fora, unhas sendo destruídas para dar lugar a um mineral pontiagudo e escuro, que crescia rapidamente, transformando-se em garras afiadas.
Um rugido bestial explodiu da garganta de Guilherme, enquanto ele saltava na direção de Gabrielle, garras prontas para atacar.
— Opa, na minha Mestra não, Garotão! — uma voz ecoou como um trovão.
Farid, que estava oculto atrás do carro arremessado, surgiu em um borrão de movimento. Em um instante, ele estava sobre Guilherme, pisando com força em seu rosto, desviando sua trajetória e lançando-o contra o prédio do colégio com um estrondo ensurdecedor. Pedaços de concreto e vidro voaram, enquanto Guilherme era empurrado para dentro da estrutura, destruindo todo o piso do 2º andar.
Farid mantinha o pé firmemente pressionado contra o rosto de Guilherme, que se contorcia, imobilizado.
— Xiiiu, fique aí quietinho — disse Farid com um sorriso calmo.
Ele se abaixou e, a mão esquerda pairando sobre o rosto de Guilherme, enquanto o mantinha pressionado contra o piso do 2º andar. Um brilho dourado começou a emanar da mão de Farid, Areias do Desejo rodopiando em torno de seus dedos, envolvendo-os em um véu de luz cintilante.
Guilherme finalmente parou de se debater, seus olhos se fechando lentamente, enquanto ele caía em um sono profundo e tranquilo, voltando à sua aparência humana.
— Proooonto… a gente conversa depois… Gui... — murmurou Farid, sua voz suave como uma brisa noturna, enquanto ele se afastava, deixando Guilherme entregue à paz momentânea do sono.
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