É hora de reencontrar o mesmo grupo de antes. Quando percebo que vou almoçar com pessoas diferentes, finalmente me dou conta do que estou prestes a fazer.
“... Eu vou almoçar em grupo?!!!”
Só agora parecia que eu havia ligado os pontos. Estava agindo no automático desde cedo, sem sequer notar minhas próprias ações. Será que vão achar estranho meu jeito de comer? E se alguém falar comigo enquanto eu estiver de boca cheia? Será que vou conseguir acompanhar a conversa?
Minha fobia social estava me lembrando, em alto e bom som, que interações sociais não vinham com manual de instruções.
“Talvez eu possa dizer que me atrasei na sala dos professores... Ou fingir que não os encontrei... Se eu achar um canto isolado talvez passem direto por mim…”
Enquanto planejava uma rota de fuga, meus pés já me levavam ao refeitório. Eu geralmente trago minha própria refeição, mas gosto de passar por lá, caso tenha algo interessante no cardápio. Como meu pai costuma dizer: “Comida demais, nunca é de menos.”
Na fila, uma voz familiar me chama:
– Valentine! Também veio dar uma olhada na comida?
Olho para trás e vejo Naoki. O mesmo Naoki que iniciou toda essa reviravolta social na minha vida.
– E-eu só... só vim ver se tinha algo interessante... – murmurei, sendo pega de surpresa.
Ótimo. Eu estava justamente ensaiando como evitar esse grupo e dou de cara com o líder dele.
– Você costuma comer aqui com frequência? – ele puxava conversa como se fosse a coisa mais natural do mundo.
– Só quando fazem algo melhor do que o que eu trago. – O que, sinceramente, é quase sempre. Minha comida só é decente quando meu pai a prepara. Eu? Melhor não comentar.
– Entendi. – ele volta o olhar para o balcão. A comida de hoje não era nenhuma obra de arte, mas também não parecia ruim.
– Tenho inveja de você. Sou um desastre na cozinha. Sempre acabo comendo aqui.
– Haha, não se preocupe – soltei uma risadinha involuntária e tentei abafá-la com a mão. – Eu também não sou o melhor exemplo. Cozinho só pra treinar mesmo. Nada se compara ao que meu pai faz.
– Então ele é o chefe da família? Isso é diferente.
– Ele era cozinheiro quando morávamos na Escócia. Mas o negócio não deu certo, e ele voltou a trabalhar com metalurgia.
– Problemas com o gerenciamento?
– Na verdade, ele tentou abrir o restaurante aqui, mas não teve muitos clientes igual no nosso país. Ele ainda tenta algumas coisas, mas bem de vez em quando.
– Boa sorte pra ele – disse Naoki, mostrando um joinha animado.
– Obrigada.
Terminado a conversa, pego minha marmita. E por ter esbarrado justo nele, já não havia mais como recuar. Acabo seguindo Naoki até o grupo. Bem... pelo menos agora eu me sentia um pouco mais confortável com eles. Eram pessoas boas. Talvez até fosse divertido ouvir a conversa mais de perto.
Ao me aproximar com Naoki, percebo que o clima no grupo estava... estranho. Todos olhavam para o celular de Tanizaki com uma concentração quase cerimonial. Aquilo definitivamente não era comum.
O silêncio foi quebrado:
– Naoki... finalmente saiu. – Kunikida falava como se algo sagrado tivesse acabado de acontecer.
Naoki entendeu de imediato e seu semblante ficou tão sério quanto o do amigo.
– Você tá falando...
Todos assentiram lentamente. A tensão era palpável.
– Finalmente... – Yokodera fez uma pausa dramática. – Saiu Bhesda: The Seven Kingdoms na Faucet!!!
Faucet? Tipo... torneira?
De repente, toda aquela seriedade se dissolveu em gritos e comemorações. Parecia que tinham acabado de ganhar na loteria, ou descobrir um novo planeta. Era quase um mini festival de euforia particular.
– Eu não acredito! Então é real! FINALMENTE é real! A gente vai poder jogar, cara! – Tanizaki vibrava como uma criança em loja de brinquedos. Um tanto... intenso.
– Licença... alguém pode me explicar o que exatamente está acontecendo? – perguntei, tentando não parecer tão perdida quanto estava.
– Ah, é verdade... Você é mais do mundo dos livros – disse Naoki, tentando explicar com calma.
– Valentine, você já se imaginou dentro das histórias que lê? Como uma heroína, uma guerreira renomada enfrentando dragões, invadindo masmorras, derrotando vilões cruéis?
– Bem... Acho que todo leitor já pensou nisso, não é? – dei um sorriso tímido.
– Alguns anos atrás, lançaram um novo tipo de aparelho de realidade virtual – começou ele, animado – algo bem mais avançado que os VRs comuns. Primeiro foi usado pra coisas chatas tipo... simulação de veículos, estudo de cirurgia, etc. Aquelas paradas chatas que ninguém liga, sabe?
Ele falava como se essas coisas não fossem super importantes e úteis para nossa sociedade… Mas
acho que devo ser a única que se importa com esse tipo de coisa aqui.
Espera, eu estou num curso de medicina, por que eles falam como se isso não tivesse relevância?!
– Depois de muito estudo, essa tecnologia foi levada pros games. Mas os primeiros eram só experiências, simuladores... Nada realmente jogável. Até que a VStudio entrou em cena.
– VStudio?
– É uma das maiores empresas de jogos hoje em dia – explicou Kunikida. – Tem parceria com praticamente todo mundo e já levou três Game of the Year seguidos.
– Eu ainda acho que aquele último foi comprado! Remake competir com lançamento é uma puta palhaçada! – resmungou Yokodera.
– Deveria ter categoria separada só pra Remakes, seria mais justo pra toda indústria – concordou Kishibe.
– Mas foco, pessoal! Vocês vão confundir ela. – retomou Naoki – Como eu ia dizendo… A VStudio tinha anunciado um novo jogo que revolucionaria a indústria e tentaria fazer um MMORpg usando o aparelho de realidade virtual. A gente ficou mega empolgado com esse anúncio e aguardamos por anos! Chegamos até tentar entrar na beta fechada, mas só um número muito específico de pessoas conseguiu.
O jogo tinha saído tem dois anos, mas só pessoal que tinha o próprio console oficial da VStudio conseguia jogar, e ele não é ala muito acessível.
– O motivo que tamo comemorando é porque ele finalmente saiu pra todas as plataformas e está disponível pra todo mundo poder jogar! – Gritou Daiki. E agora tudo fazia um pouco mais de sentido.
– E com expansão nova! – completou Tanizaki. – Vai abrir um novo reino chamado de Daemon e promete ser o mais difícil.
– E o que é essa expansão? Tipo... um DLC? – Ao menos alguma coisa dessa universo eu sabia.
– Isso mesmo – explicou Kishibe. – O jogo se chama “Seven Kingdoms”, mas no lançamento só tinham três mapas. Foram prometendo os outros aos poucos, como expansões anuais.
– Eu vou comprar hoje mesmo! – disse Kenji, já olhando preços no celular.
– Bora passar juntos em Akihabara? Vai que tem um VR mais barato por lá – sugeriu Daiki.
– JÁ SEI! – exclamou Naoki, socando a mão com entusiasmo. – Que tal irmos todos juntos depois da aula pra Akihabara comprar os nossos?
– Ótima ideia – disse Kishibe.
– TÔ DENTRO! – gritaram Kenji e Daiki ao mesmo tempo.
– Você vem com a gente, Valentine? – Naoki virou pra mim.
Me tornei um fantasma na hora. Ou uma estátua. Ou uma gelatina trêmula.
– O-o quê? E-eu? M-ma... m-ma...
– Vem com a gente! Tenho certeza de que vai gostar! Você não costuma sair muito, né? É a chance perfeita! – disse ele, sorrindo.
O pânico subia. Mas... algo em mim hesitou. E se, por algum motivo inexplicável... eu realmente fosse?
Aonde é que eu fui me meter?

Comments (0)
See all