𝚂𝚎 𝚘 𝚒𝚗𝚏𝚎𝚛𝚗𝚘 𝚏𝚘𝚜𝚜𝚎 𝚊𝚕𝚐𝚘, 𝚜𝚎𝚛𝚒𝚊 𝚞𝚖𝚊 𝚏𝚒𝚕𝚊 𝚒𝚖𝚎𝚗𝚜𝚊.
A senha em sua mão tinha o número 997, e Red olhava há duas horas o painel com o número 996. A fila sequer se movia, muito menos andava. O número 996 estava travado numa tela imensa, assombrando todos ao redor, principalmente Red.
Ele escutava ao longe o som de teclas, martelinhos e portas batendo, enquanto carrinhos com documentos circulavam sem parar. Atrás de um grande balcão, havia cinco espíritos de terno e gravata que mal olhavam para as pessoas enquanto perguntavam o nome e entregavam uma nova ficha aos recém mortos.
Era pedir muito não ter burocracia do outro lado também? Talvez fosse. Red tinha certeza de que havia salgado a santa ceia antes de morrer.
No momento em que o número virou, Red gritou como se tivesse colocado os pés no palco de seu próprio show. Enfim, conseguiria conversar com alguém, entender por que diabos estava ali.
A atendente sequer olhou para ele; continuava a virar as páginas de um grande caderno sobre o balcão de mármore branco empoeirado.
— Red.
— Não está na lista. Próximo.
— Espera, espera...
A mulher, por fim ergueu os olhos tortos e sem vida para Red:
— Sebastião Montenegro.
Ele disse entre os dentes, e não teve tempo nem de respirar quando a resposta veio:
— Não está na lista — e, com um grito, completou: — Próximo.
— Ei! — Red retrucou, mas já estava sendo empurrado para fora da fila. — Como assim não tá na lista? Eu tô morto, não tô?
— Pro fim da fila, moleque — algum fantasma aborrecido disse, enquanto Red era colocado para fora sem conseguir ao menos argumentar com a atendente. — Na fila, só quem tem um acorde da alma.
— O que diabos é um acorde da alma?
Mas nem teve tempo de entender quando foi interrompido de novo:
— Às vezes tu acha teu nome perdido no caminho.
Todos começaram a rir e Red soltou um muxoxo de desgosto.
Fantasmas com certeza tinham um péssimo senso de humor.
— A fila tá cada vez maior — alguém disse, e Red parou a alguns passos do fantasma que falava alto.
— Morreu mesmo, viu — cochichou um dos fantasmas para outro de cara comprida e olhar caído — Bateu as botas e ainda deixou um bocado de dívida pra trás.
— Xiu! — repreendeu o fantasma à frente, e o outro se encolheu. — Tu sabe que não se pode falar em dívida desse lado, senão...
Os três fizeram o sinal da cruz, e Red quase — quase — começou a rir, se não fosse pela informação que tinha escutado:
— Diz que os sete portões do além tão fechados. Ninguém entra e ninguém sai — o lamento foi profundo — Logo agora que ia prosear com a família. Finado tá aí.
O fantasma de cara comprida deu palmadinhas no ombro do outro:
— Logo vem a procissão das almas e um mousik novo ficará encarregado de levar o povo embora.
— O que diabos é um mousik? — Foi a vez de Red interromper.
Os fantasmas ao redor pareceram gato escaldado, como se tivessem visto o capeta pessoalmente. Não que agora fosse difícil. Red achava que era exatamente isso que se reservava aos mortos: céu, purgatório ou inferno.
— Espia, menino. A gente não fala as coisas em vão por aqui, não. É novo?
— Digamos que sim? — Red não sabia dizer, já que seu nome não constava na maldita lista. E, pelo visto, agora não tinha o bendito "acorde das almas".
— Vem cá, então. Já pegou tua carta de recomendação lá no balcão?
Red negou com a cabeça. Não fazia ideia do porquê precisaria de uma carta de recomendação.
— Terço? — continuou o fantasma. — Currículo? Função?
— Emprego? Aqui? — Red ficou boquiaberto. Onde é que tinha ido parar o tal do descanso eterno?
— É, é. Tem que trabalhar desse lado também, moleque. Ocupar a mente e o espírito, igual quando a gente era vivo.
Ah, não. Red preferia não se ocupar com mais nada. Se o capitalismo tivesse chegado até ali, ele teria uma conversinha particular com Deus, quando o encontrasse. Se é que o encontraria.
— Sabe — disse Red entre os dentes, erguendo a placa com o número nas mãos — Sem nome na lista. Depois de enfrentar essa fila...
Alguém soltou um assovio e espiou atrás de Red, mas ele não conseguiu entender. Era translúcido igual a todos ali. Será que tinha virado assombração do jeito errado? Era só o que faltava.
O grupo de fantasmas ficou em silêncio, como se estivessem no próprio enterro. O de cara comprida colocou o braço sobre os ombros de Red, fazendo-o se perguntar como diabos um espírito conseguia tocar o outro.
— Escuta, garoto. Um mousik é igual a um ceifeiro. Vai depender da tua religião. A gente chama por aqui de Pé de Enxada.
Um ceifeiro? Como em Supernatural? Como os Winchester?!
Cal ficaria maluco com essa informação.
Red olhou ao redor e franziu o cenho, como se aquilo tudo fosse uma pegadinha e as câmeras de um reality show fossem surgir a qualquer momento. Claro, tirando o fato de que ele era intangível. Devia ser um novo recurso de Hollywood em Roseiral das Almas.
— Um mousik conduz a alma pra um dos sete aléns. Cada pessoa vai pra um cantão depois de morrer. Ninguém sabe muito bem como é do lado de lá. Tem gente que prefere ficar por aqui mesmo.
— Esse lugar deve ser para os amantes do minimalismo, então.
O fantasma não entendeu o que Red estava falando. Ele apenas deu de ombros e fez uma nova pergunta:
— E onde é que eu arranjo um mousik pra me enviar pro lado de lá? E talvez um acorde das almas?
— Ih! — foi outro fantasma que falou, com deboche na voz — O último bateu as botas há pouco tempo. Por isso os portões do além tão fechados. Só um mousik pode abrir de volta.
— E não tem outro, sei lá, que possa abrir?
O fantasma soltou um suspiro cansado, como se Red não tivesse entendido.
— Diz que os que escolheram fazer esse trabalho estão desaparecendo. Mas... o que tu quis dizer com não ter um acorde das almas...
E então uma voz suave o interrompeu. Todos ao redor ficaram em um silêncio sepulcral quando o homem se aproximou:
— Existe agora apenas um em Roseiral das Almas.
Os três fantasmas fizeram o sinal da cruz e abriram espaço para que o homem avançasse entre eles.
Vestia um terno branco, luxuoso, diferente de tudo que havia naquela fila de espera. Era como se as cores refletissem em sua roupa, no rosto charmoso e nos cabelos pretos que caíam sobre os ombros. O homem estendeu um cartão para Red com um sorriso cheio de dentes.
Red pegou o cartão que ele oferecia. Seu nome estava escrito naquele papel nobre em um relevo dourado, como os olhos que agora o cercavam, curiosos:
Ciprian Sete Peles.
Era brincadeira, não era?
Ciprian arreganhou os dentes como se abrisse uma grande coroa de presas e arqueou a sobrancelha para Red, depois para o cartão — como se perguntasse se ele já tinha terminado.
Red ainda não acreditava que o diabo, em pessoa, estivesse ali.
— Posso te ajudar a ir embora, rapaz. A conseguir um acorde das almas.
Ciprian não parecia ser muito mais velho que Red, mas sua voz tinha uma nota profunda, como se preenchesse todo o ambiente.
— E como vai fazer isso com as portas do além fechadas? — Red debochou.
Ciprian apenas negou com a cabeça, como se não desse a mínima e não tivesse tempo para os deboches de Red. Então se aproximou e sussurrou ao pé do ouvido dele — e, de alguma forma incrível, Red sentiu o hálito quente sobre sua orelha, sobre seu espírito, como se ainda estivesse vivo:
— Na festa da Videira, você vai encontrar o que procura.
A informação deixou a boca de Red seca. O cartão parecia quente em suas mãos, e as sensações, aos poucos, voltavam ao seu espírito, deixando-o sedento por aquilo.
Como se por um momento ele realmente estivesse vivo.
— Quando achar, me procure no endereço pontilhado.
A voz de Ciprian flutuou... e ele desapareceu assim como surgiu.
No verso do cartão havia um endereço em letras vermelhas:
Terceira encruzilhada à esquerda.

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