Red havia contado quantas vezes do caminho da fila de fantasmas até ali, o jumento embaixo de si havia zurrado em seus ouvidos. Essa era a décima oitava. Dezoito vezes, o espírito do animal berrou tão alto quanto uma plateia no momento em que ele entrava no palco.
Se alguém dissesse à Red que depois de morto ele estaria no lombo dum jumento, ele teria rido até a barriga doer. Mas ali estava, montado no espírito do jumento indo em direção ao festival de Roseiral das Almas.
— Reia! — Disse um condutor fantasma e o jumento e Red pararam com um solavanco. — O festival é esse aí, seu moço. Mas precisa de acordes para jogar.
Red nem mesmo conseguiu perguntar o que diabos eram acordes ao fantasma quando desmontou do jumentinho. A assombração tratou logo de seguir caminho, deixando Red e a música do festival para trás.
De dois em dois passos, ele entrou em um portão ladeado por cravos e se estivesse vivo teria sentido o perfume de defunto no ar. Havia dois urubus guardando o portão, seus olhos como bolinhas de gude seguiram Red de cima a baixo e ele evitou um suspiro alto.
Mesmo que estivesse acostumado com a fama, ainda era estranho ser perseguido com o olhar do outro lado. Ninguém conhecia seu nome ali, mas era como se todos percebessem sua presença anormal.
"Você não tem um acorde das almas".
A informação voltou em seus pensamentos e Red queria entender o que era o tal de acorde das almas e o que faria quando o encontrasse, isso é, se o encontrasse.
No momento que cruzou o portão, Red sentiu seu espírito oscilar e as luzes do ambiente o cegarem por um momento. A sensação era tátil, como se ele já estivesse estado ali, só não se lembrava. Aliás, mal conseguia lembrar de seu próprio nome.
Barraquinhas de comida estavam dispostas em duas fileiras de frente para a outra e fantasmas se movimentavam para lá e para cá atendendo outras assombrações. Parecia um mundo à parte que fazia uma ponte com a dos vivos. Todas as barraquinhas tinham cartolinas brancas com os preços de cada produto que vendiam e todas pediam acordes.
Um maldito acorde da alma.
Era como se o mundo tivesse rindo dele, sozinho no palco enquanto os outros ouviam uma melodia que ele desconhecia.
Red resolveu arriscar, já estava morto não é? Não tinha mais nada a perder.
Se aproximou de uma barraca de tiro ao alvo e o preço eram três acordes.
— Três acordes para jogar, rapaz.
Red se debruçou no balcão com um sorriso que usava para convencer a plateia sobre a sua inocência.
— Você já deve ter ouvido falar de mim. Red, da Rebel'Hearts.
O fantasma continuou sentado e ignorou as palavras de Red. Ele tentou outra vez:
— Todos os fantasmas me conhecem e...
Foi interrompido:
— Cê pode ser uma estrela, um ídolo ou qualquer porcaria, rapaz. Não dou a mínima pra isso! Se não tiver acordes, não joga!
O fantasma gordo cuspiu as palavras sobre o rosto de Red fazendo o cambalear para trás.
— Mas aqui no meu balcão para jogar, você precisa de acordes, tá entendido? — soletrou o fantasma devagar como se Red fosse burro — A.C.O.R.D.E.S
— Que diabos é então esse descanso eterno que tanto falam?
— Pro diabo o descanso eterno. Saia da minha barraca! — Gritou o fantasma e Red ergueu as mãos em rendição, a cabeça baixa deixando a barraca com armas translúcidas para trás.
A verdade era que nunca tinha aproveitado qualquer festival de uma cidade do interior. Toda vez que tocava em um cafundó do Judas, Red sequer pensava no que poderia aproveitar. Ele só pensava em ir embora, tocar na cidade grande e esquecer que teve que passar por aquele lugar onde Deus enterrou a arca de Noé.
Cal sempre disse que Red era soberbo, que deveria aproveitar as oportunidades que apareciam, e ali estava ele, tentando de todo modo se divertir.
Mortos se divertiam, não é?
Cada vez que tentava se divertir era impedido pelos malditos acordes. Que diabos era o dinheiro para os mortos? Será que a mitologia estava certa? Até mesmo Caronte cobrava para atravessar o rio do submundo, quem dirá para acertar uma maldita bola na caçapa daquela barraca, não é mesmo?
— Inferno! — Gritou e viu um fantasma ao seu redor emitir um "xiu" de aviso enquanto outros se retesaram.
— Não convoque o diabo, rapaz! Você não sabe quando ele...
Red riu e interrompeu o homem:
— Ué, tem coisa pior do que estar morto?
Mas o fantasma de cabeça comprida o ignorou. Red continuou a caminhar entre as barracas que dividiam o espaço entre os fantasmas e os vivos e ele podia ver claramente onde existia uma linha invisível que separava o mundo dos mortos do festival que os vivos participavam.
Há três meses atrás Red estava do outro lado, com um espetinho de frango na boca enquanto mastigava um salsichão na outra mão. Havia se engasgado no processo, mas não havia morrido por isso. Aliás, por que ele havia morrido? Não conseguia lembrar. Alguns mortos tinham dito que era a brancura pós morte. Alguns lembravam de quem eram, outros não. Depois tudo voltava ao normal quando reencarnavam.
E ainda tinha isso. Reencarnar? Red mal tinha aproveitado aquela vida, quem dirá começar outra. Imagina, voltar ao ensino médio? Ele preferia o inferno.
Cruzou a linha entre os festivais e lá estava ele, novamente entre os vivos. Passava como uma assombração, gritando coisas nos ouvidos dos vivos que se arrepiavam e esfregavam os braços. Alguns pareciam enxergar a sua aura ao redor, e outros faziam o sinal da cruz. Era sua única diversão, cutucar os vivos, mesmo que não pudesse realmente tocá-los.
Red uivava como um fantasma de filmes de terror. Mas quando alguém atravessava seu espírito, ele praguejava. Era como receber uma carga elétrica, ou quase isso. Mas ele sentia a energia do corpo vivo passar por ele e sair como se não tivesse onde ficar. Red quase implorou uma vez a aquela energia que era somente dos vivos, quase implorou para que ele pudesse tê-la, mas foi inútil.
Ele estava morto.
Mortinho da Silva.
Nem uma santa vela o faria voltar a vida.
E ninguém o enxergava.
Aquilo, era o pior de tudo.
Não ser enxergado pelos vivos. Não ter seu nome gritado por pessoas que o amavam, que se importavam com ele. Seus fãs. Ali ele era só mais um fantasma e um que sequer tinha o maldito acorde para sobreviver. E aquilo pesava em seu coração.
Se ele não pudesse ser mais o Red, quem poderia ser?
Uma eletricidade cerceou ao seu redor, aquela canção que tinha ouvido no limbo, que abriu as portas dentro de seu coração, voltou a ressoar.
Estava ali, zumbindo em seus ouvidos, em seus ossos — ele tinha ossos? melhor, em seu espírito.
Red seguiu a luz, ou quase isso. Seguiu a canção que tomava seu coração. Deu de costas com um garoto quase da sua altura, os cabelos brancos feito uma vela de sete dias.
No momento que ele virou, Red sabia que ele o tinha visto. Que o tinha enxergado. O sorriso se desenhou em seus lábios, os passos apressados para acompanhar o garoto estranho.
— Quer um autógrafo?
Foi a coisa mais idiota que poderia ter dito, mas não resistiu. Então tentou novamente:
— Como é a sensação de ver seu primeiro fantasma?
Outra merda a se falar, mas não conseguia resistir a cara de paisagem no rosto do garoto.
Red se inclinou para mais próximo do garoto e sibilou como um fantasma idiota de filme de terror, tentando assombra-lo. Até por fim colocar a mão sobre o ombro dele, pensando que o toque atravessaria o corpo do garoto. Mas, estava completamente errado.
No momento em que tocou o ombro do garoto-assombração, sentiu exatamente a temperatura quente de um corpo vivo, o toque do tecido da camisa em suas mãos, como se de repente Red estivesse vivo também. A surpresa ficou evidente em seu rosto quando de seus lábios surgiu um palavrão:
— Puta merda! Sentiu isso?

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