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RebelHearts - A Melodia de Corações Roubados

Capítulo 1 — Qing

Capítulo 1 — Qing

Jun 10, 2025


Seus olhos se encontraram com olhos azuis como águas cristalinas. Eram vivos, mais vivos do que de qualquer outro fantasma que havia visto na vida.

Tudo que havia passado no hospital parecia vivo dentro de si. Sua memória o torturava a cada momento que fechava os olhos; como se a vida o tivesse castigado a reviver não só a morte de seu pai, mas também a burrada que havia tentado fazer para trazê-lo de volta.

Ele tentou me avisar, pensou, relembrando do fantasma daquela noite.

Não conseguia se desfazer da sensação de ser um completo inútil, e nem da vergonha que tomava conta de si a todo momento. Ele mal conseguia explicar o emaranhado de emoções que o moldavam agora. Era tudo tão...  Confuso.

A cozinha do restaurante estava silenciosa e Qing podia ouvir apenas o tilintar da faca que Kain manuseava. Os pisos brancos, exalavam o cheiro de desinfetante e as bancadas de aço inox brilhavam ao longe sob a luz dos lustres, tudo tão limpo que podia facilmente ser usado de espelho. As panelas maiores já estavam no fogão, vazias, mas prontas para uso. Na prateleira ao fundo, os ingredientes estavam cuidadosamente arrumados em potes com rótulos de identificação. Podia passar quanto tempo fosse e Qing sempre se surpreenderia com a maestria que Kain tinha dentro daquele lugar.

Qing caminhou a passos largos até o balcão que separava o local onde os chefes cozinhavam do resto da cozinha. Se esticou com cuidado, apoiando os cotovelos no lugar, com medo de qualquer movimento deixar uma marca de sujeira e acabar tomando uma bronca de Kain.

Encarava as costas de Kain à sua frente, o avental branco cobrindo o peitoral, enquanto picava alguma coisa que Qing não havia se atentado o que era. Os cabelos loiros espetados do amigo eram tampados pelo toque blanche. Kain era um dos subchefes do restaurante em que trabalhavam e ele era excelente no que fazia.

— Mas, hein — Qing começou, chamando a atenção de Kain — Você não vai no festival, não?

Kain suspirou, pousando a faca em cima da tábua, limpando as mãos em um pano que estava em seu ombro antes de se virar para ele. Os olhos vermelhos encontraram os seus com certa tristeza.

— Vou ter que continuar no restaurante depois do expediente porque vamos ter uma palestra de alguma coisa que eu não lembro o que é para os cozinheiros — respondeu — Mas aproveita que tu vai lá, passa no mercado e me trás o que achar desses ingredientes.

Kain ergueu a mão em direção a ele, apontando para o bolso de sua calça. Obedientemente, Qing pegou o caderninho que usava para anotar os pedidos dos clientes, o nome do restaurante desenhado em dourado e o entregou a Kain, que dessa fez, fingiu estar escrevendo no ar. Revirou os olhos, retirando a caneta do bolso da blusa e o entregando a ele.

Numa letra pior que a de médico, Kain escreveu os ingredientes que precisava e entregou o papel, juntamente com a caneta e o caderninho.

Qing não podia negar que sentia falta das companhias do outro mundo. Passou o olhar ao redor do restaurante. Não via mais o Sr. Zé que vivia resmungando cozinha afora com o jeito de Kain picar as cebolas. Nem a dona Margarida, que ficava o tempo todo cantarolando uma música estúpida enquanto mexia um caldeirão com uma mistureba que Qing nunca soube diferenciar se cheirava a alho ou ferrugem. Tinha também o Sr. Pedro, que na maior parte das vezes ajudava Qing a se lembrar dos pedidos de algumas mesas. Todos os três eram apegados ao restaurante ao ponto de não quererem sair dali.

Tá aí uma coisa que Qing nunca conseguiu entender. Algumas pessoas simplesmente se recusavam a partir. Não adiantava reza brava, nem a melodia mais poderosa: elas permaneciam, presas a algo que ninguém podia ver. Seu pai costumava dizer que isso era um sinal bom. Que essas almas eram necessárias à terra — porque nunca poderiam ser corrompidas. Eram boas demais para serem esquecidas por completo.

Como se lesse os pensamentos de Qing, Kain confessou:

— Queria saber o que é que o Sr. Zé está falando agora.

Manuseou a cabeça com um aceno em concordância. seu coração se apertou. Sua vida estava tão quieta agora que chegava a ser agoniante. Não disse mais nem uma palavra. Kain se virou e voltou para o que estava fazendo. O restaurante abriu e eles trabalharam como de costume. A cabeça de Qing fervia e contava os segundos para o expediente terminar.

O festival estava acontecendo logo do lado. Era um dos festivais favoritos de seu pai e Qing esperava poder encontrar alguma pista de seu espírito por lá.

Quando o expediente acabou, nem chegou a se despedir de Kain, só deixou que seus pés o guiassem até o festival. Já podia enxergar as luzes alegres se espalhando por todo lugar. Colocou as mãos nos bolsos e caminhou devagar, a música alta agora tomando conta de seus ouvidos.

A multidão caminhava alegre de um lado para outro, alguns comprando lembranças, outros comendo enquanto brincavam nas barracas de jogos de tiro ao alvo e pescaria.

A última vez que esteve nesse festival com seu pai, Qing precisou colocar os fones de ouvido, pois a bagunça entre os fantasmas era tanta que mal conseguiu aproveitar. Era como se os fantasmas esperassem por aquele festival por tanto tempo que estavam atordoados sem saber o que fazer primeiro. Lembrava como se fosse ontem: uns correndo de um lado para o outro, repetindo em ordem o que faria primeiro, outros ficavam igual encosto nos ombros dos familiares, sussurrando histórias que jamais saberiam.

Parou de frente para uma barraquinha de pescaria. Sua mente refazendo todas as imagens do que viu no ano anterior: os espíritos travessos, soprando a água para atrapalhar a pesca das crianças, que sempre saiam frustradas batendo o pé no chão por não terem conseguido ganhar nenhum prêmio.

Qing se voltou em direção às barracas, respirou fundo e se concentrou.

Silêncio.

Olhou ao redor da multidão.

Nada.

Nenhum espírito sequer.

Deu de ombros, o pingo de esperança se esvaindo com uma força quase brutal. Não podia mais ver mesmo, nem sentir nada.

Se virou para ir em direção ao mercado quando seu corpo trombou em alguém:

— Merd...

Parou de falar no instante em que foi encarado por olhos azuis como águas cristalinas. Tudo ao seu redor parecia em câmera lenta e Qing ouvia apenas as batidas do seu próprio coração.

— Quer um autógrafo? - A voz ressoou em seus ouvidos, fazendo Qing erguer uma sobrancelha, o outro poderia ver o ponto de interrogação surgir em sua feição. — Como é a sensação de ver seu primeiro fantasma? - então ele se inclinou, se aproximando de uma forma idiota como se quisesse intimidá-lo.

Qing franziu o cenho prestes a retrucá-lo quando deu por si do que havia acabado de ouvir.

Perai...

— Fan... tasma?

O som veio primeiro. Um barulho baixo, vibrando até se transformar num verdadeiro tumulto de vozes — sussurros, conversas paralelas, risadas abafadas, todos misturados em um zumbido que fizeram Qing levar as mãos aos ouvidos em reação à onda repentina de barulho. Algo que seria insuportável se não fosse a felicidade que atingia Qing naquele momento.

As vozes dos vivos se embaralhavam com as dos mortos, sem distinção, como se o mundo inteiro tivesse esquecido o que era silêncio. Seus olhos dançavam de um lado para o outro, tentando acompanhar o movimento frenético das figuras que agora surgiam ao redor — translúcidas, distorcidas, como sombras projetadas em vidro molhado.

Os fantasmas estavam de volta.

Todos eles.

Qing os via.

Os lábios se abriram em um sorriso leve, sem mostrar os dentes. Sentiu alívio. Alívio porque agora poderia ir atrás da alma de seu pai. Poderia salvá-lo seja lá qual tenha sido a cagada que Qing tinha feito.

— Ei! Terra chamando — o fantasma resmungou, e Qing sentiu quando ele se aproximou e apoiou a mão em seu ombro.

No mesmo instante sua mente se silenciou. As vozes haviam ido embora. Abriu os olhos para encarar a figura à sua frente.

— Puta merda! Sentiu isso? - o fantasma exclamou, surpreso.

Qing piscou, atordoado, tentando compreender o que acabara de acontecer. O olhar deslizou para o toque sobre o ombro, e a mão direita se ergueu devagar, até que a ponta do dedo indicador roçasse a pele do fantasma.

— Ô largo! — falou, tão surpreso quanto o outro

Seu corpo deu um pulo em espanto para trás, se afastando dele. Que merda era aquela?

— Além de ver, você também pode tocar fantasmas.

— Eu não posso tocar fantasmas — retrucou

— Pelo visto, a igreja estava certa né? Existe muito mais entre o céu e o inferno. E tem você...

— Eu já disse: eu não posso tocar fantasmas — repetiu, lentamente para ver se o outro conseguia entender. — Não posso, né?! — seu olhar caiu sobre o outro, como se ele pudesse dar a certeza que Qing precisava.

O fantasma deu um passo à frente, encostando no ombro de Qing, a aproximação repentina fazendo-o recuar.

— Viu? — deu de ombros.

Qing mal conseguia processar seus pensamentos e o outro já seguia em disparada:

— Anjo? Demônio? Meio termo? Tá em dúvida? — perguntou e então, estendeu o dedo translúcido para si mesmo, se apresentando

— Red, mas você já deve ter ouvido falar, enquanto eu era vivo — fez um coro com seu nome, colocando a mão em forma de concha sobre a boca. — Ouviu, certo?

— E porque diacho eu deveria ter ouvido falar de você? — Qing respondeu, agora observando-o com mais atenção. Por um momento ponderou mesmo se já não o havia visto.

Mas nenhuma lembrança. A não ser por aqueles olhos. A sensação que conhecia aquele azul estava ficando impossível de ignorar.

— Cara... Já que tu consegue me ver, tem como cê consultar sei lá, um padre? — Red arriscou e então complementou: — Pastor? Pai de Santo? Sabe, pra enviar um fantasma para o além?

O fantasma, Red, continuava tentando tirar informações que Qing jamais saberia passar para ele. Se sentiu mais idiota ainda por não saber responder nenhuma das perguntas que eram jogadas em sua direção. Um arrependimento enorme caiu sobre seus ombros. Maldita hora em que não tinha tirado todo conhecimento de seu pai. Nunca havia se sentido tão estúpido quanto vinha se sentindo nesses últimos dias. Desde a morte de seu velho, Qing não conseguia fazer nada dar certo, simplesmente porque foi estúpido o suficiente de não ter aprendido o mínimo com seu pai.

Talvez toda essa bagunça nem era para ter acontecido. E agora Qing tinha que lidar com isso, às cegas.

— Eu consigo te ver, mas não consigo te ajudar — deu de ombros — Não é como se fosse tão simples assim — e não é como se Qing soubesse realmente como ajudá-lo. — E agora para melhorar, ainda tem isso de conseguir te tocar.

Qing nunca chegou a entrar muito a fundo no mundo dos mousik, porque não era algo que interessava a ele, mesmo seu pai insistindo em passar o legado para Qing. Mas de tudo que já tinha visto, ou ouvido seu pai comentar, jamais ouvira falar que um fantasma podia se tornar sólido e encostar em alguém daquela maneira.

Talvez Qing tivesse deduzido errado que o garoto era um fantasma. Podia ter se confundido por causa da pele branca demais, ou talvez estivesse tão desesperado para voltar com seus "dons" que estava começando a ver coisas.

Se aproximou outra vez, curvando o tronco para frente, os olhos semi-fechados como se aquilo pudesse fazê-lo enxergar melhor. Encarava o garoto como se fosse algo extraordinário.

Não. Qing tinha certeza. Ele era visivelmente translúcido. Através de seu corpo Qing via as barracas coloridas do outro lado, as pessoas caminhando; tudo levemente distorcido, como se os observasse por trás de um vidro embaçado.

E teve mais certeza ainda quando as pessoas que passavam ao seu redor começavam a cochichar e cutucar umas as outras apontando em direção a Qing. Pode ouvir até um "tão bonito, mas não parece bater bem da cabeça".

Qing suspirou, voltando a posição ereta. Olhou ao redor mais uma vez e quando outro fantasma iria passar por eles, deu um passo para o lado no tempo exato para que a alma passasse por seu corpo e continuasse a jornada anterior, praguejando algo com relação a odiarem a sensação que sentiam quando os humanos passava entre eles daquela forma.

Então o problema era ele, pensou, voltando a encará-lo. Qing tinha uma sensação vaga de que já havia visto aqueles olhos azuis como águas cristalinas, em algum lugar. Aquele sentimento de quando você encontra uma pessoa e sabe que já conhece, mas não consegue se lembrar de onde. Mas só se sentia dessa forma quando seus olhos se encontravam.

Que coisa estranha.

Sua cabeça doía e tinha a sensação de que aquele encontro seria algo que iria tirar seu sossego. Levou a mão até a nuca, esfregando o local, inquieto.

— Tu é meio esquisito, né?

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