— Eu esquisito? — Red repetiu e então arqueou a sobrancelha, apontando ao redor ao abrir os braços — É tu que enxerga espíritos e pode tocá-los e eu que sou esquisito? Tá de sacanagem né?
—Eu não posso tocar espíritos — rebateu mais uma vez e antes que pudesse fazer qualquer outra coisa, o outro invadia seu espaço sem sua autorização. Red se debruçou sobre seus ombros, o virando em direção às barracas com várias portas, nelas inscritas "inferno" "purgatório" "meio-termo" "céu".
Virou o rosto para poder encará-lo. Estava intrigado. Não conseguia controlar os sentimentos que invadiam seu coração: uma mistura de excitação, medo e animação. Nunca havia tocado em um fantasma. Isso era surreal. Em toda sua vida nunca havia imaginado isso. E tinha também o fato de todos os outros fantasmas estarem diante de seus olhos. O que havia mudado?
— Então, qual tu acha que eu devo ir? — Red sussurrou em seu ouvido e então completou: — Aliás, qual teu nome, afinal?
— Você pode fazer uma pergunta de cada vez? Desacelera um pouco, cara — respondeu, balançando as mãos em sinal para que Red fosse com calma. — Primeiro, eu não sei para qual lugar você deve ir e segundo pode me chamar de Qing.
— Qing? — Red repetiu, soletrando cada letra de modo vagaroso — Como rei?
— É.. como o rei sim — concordou no automático, achando meio desnecessário entrar no assunto.
— E mais uma vez, eu não posso tocar em fantasmas — repetiu, tentando enfiar na cabeça dele que isso não era algo normal.
— Eu só consigo tocar em você — deu ênfase na palavra e então, se direcionou a um fantasma aleatório que estava próximo a eles, tentando tocá-lo, sem sucesso.
Qing ergueu ambas as mãos em direção a Red em um movimento de quem diz "viu só?". Voltou a se aproximar — dessa vez, era Qing quem tomava a iniciativa. O pegou pela mão, erguendo-a na altura de seus olhos, os dedos agora se entrelaçando aos dele. O olhar repousou ali, silencioso, enquanto movia os próprios dedos sobre os contornos translúcidos do outro. Qing só enxergava a si mesmo naquele toque mas, mesmo assim, podia senti-lo.
Ele se manteve ali por uns segundos tentando absorver tudo que tinha acabado de acontecer até que um espírito passou atrás de Red. Seu corpo travou. Um choque passou por toda sua espinha. O olhar se abriu em espanto, o formigamento das lágrimas surgindo com a mesma rapidez com que a dor apertou seu peito. Ficou ali, travado, olhando através do corpo de Red o espírito desnorteado, passando por entre as barracas, sem rumo.
Os dedos que ainda estavam entrelaçados aos de Red foram se desvencilhando, por fim se desprendendo por completo. Seu corpo começou a reagir aos poucos, seu coração bombeando sangue com uma intensidade sufocante, disparando uma descarga de adrenalina que fizera Qing correr em direção ao espírito sem pensar.
Pai.
Quis gritar. Mas o nó que tomava sua garganta era tão grande que Qing tinha que conciliar entre respirar ou continuar correndo.
— Ei, tá indo aonde? — Red se enfiou em sua frente.
Qing deu a volta pelo corpo de Red, o ignorando e voltando a correr em direção ao espírito de seu pai. Mas antes que desse mais de 3 passos à frente, a mão de Red o puxou, o virando em direção a ele.
— O que aconteceu? Até parece que viu um fantasma - zombou
Quando Qing olhou para trás e desta vez, seu pai havia sumido. Um desespero tomou conta de si, como um monstro a muito tempo guardado, esperando para sair.
— Ei cara, é sério...
Não deixou que Red falasse mais nada. Puxou o braço com força se desvencilhando do outro e sem que percebesse, já disparava sua ira sobre ele: — Me solta! O que eu menos preciso agora é de mais uma coisa na minha cabeça. Agora, se não for pedir demais, me deixa em paz!
Não esperou uma resposta. Saiu correndo em direção aonde seu pai tinha passado. Correu como se toda sua vida dependesse disso. Qing não podia perder essa oportunidade. Ele precisava entender o que havia acontecido. O aperto em seu coração era tão grande que parecia que a qualquer momento ia entrar em colapso.
Continuou correndo por entre as barracas, se esgueirando entre mesas improvisadas, bandeirinhas coloridas balançando e caixas de som, estalando uma música animada que agora parecia distante para ele. O cheiro doce de maçã do amor misturava-se ao de pipoca queimada, e as luzes piscavam, como se todo o mundo estivesse numa dança frenética. Mas sua visão não fixava em nada — tudo girava, borrado pelo pânico.
Quando se deu conta, as barracas estavam se tornando cada vez mais espaçadas, rareando como se a própria festa estivesse se dissolvendo. Passou por uma última corrente de luzes e, de repente, não havia mais nada.
Qing parou abruptamente, o peito arfando, os olhos observando ao redor, sem nenhum sinal de seu pai. Havia chegado na última barraquinha e logo à frente já podia ver a escuridão se arrastar pela praça.
Fim da linha.
Quis correr novamente, mas quanto mais encarava o vazio da praça, mais o ar lhe faltava. As pernas fraquejaram, o forçando a se abaixar, incapaz de se manter de pé. As mãos se apertaram contra a cabeça, como se o toque pudesse conter tudo o que transbordava dentro de si. Qing sentia que ia explodir. As imagens do espírito do pai misturavam-se com a sala do hospital, o diário queimando, o peso de cada memória rasgando seu peito. Um grito se retorceu na garganta, mas não saiu. Arrastou-se até um dos bancos livres, sentando-se ali, sentindo o frio se espalhar pela pele.
Agora, apenas a música ambiente tocava em seus ouvidos. O silêncio sufocante voltando a incomodar Qing como a minutos atrás. Quando ergueu a cabeça novamente, percebeu a solidão o abraçar como um véu que se enrolava ao redor de seu peito, apertando até sufocar.
Mais uma vez, estava sozinho e tudo que lhe restava era apenas o peso dos seus pensamentos.

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