Capítulo 2- Sonhos “diminutos”
Até meu pai descobrir que fugi, estarei em Mekata.-Pensou já dentro do trem. Quando ele acordar estarei chegando. Lembrou-se de que era menor de idade, tinha apenas dezesseis anos. Mas seu primo homônimo emprestou seu documento já que era maior. Assim, poderia fingir ter dezoito e assinar contratos. O plano era frágil, mas foi a maneira que achou de poder realizar seu sonho. Tsumi não gostava de ser desonesto, mas seu primo o convenceu e disse que ao ficar famoso e rico podia recompensá-lo pela ajuda.
Tudo bem.-pensou olhando a paisagem e repassando seu plano. Chegaria em Mekata, se hospedaria num hotel, iria até a MH, a agência artística de Muyami, lá faria o teste e seria selecionado para o casting da agência, ficaria hospedado no alojamento dos Rising Stars que eram jovens candidatos à Idols e Muyami logo veria seu talento. Lançaria o seu primeiro single e pronto; a fama seria inevitável. Faria shows, séries, filmes, campanhas e um dia cantaria ao lado de Muyami. Direto e reto, esse era seu plano fabuloso. Tinha que dar certo, afinal, só tinha dinheiro para uma semana na metrópoli asiática. Dinheiro esse que conseguiu fazendo bicos. Trabalhou duro cortando grama, passeando com cachorros, sendo personalshopper, officeboy, entregador e até babá.
Tsumi não imaginava que a viagem de sua pequena cidade até a grande Mekata seria tão cansativa. Mas ao desembarcar da estação sentiu o clima de cidade grande. Os prédios eram enormes, as ruas eram cheias de pessoas e carros. Muito diferente de sua cidade natal, que era tranquila e pacata.
Uau! É aqui que vive Muyami!-pensou eufórico. Estava andando no mesmo lugar que seu ídolo e isso o deixava empolgado. Sentia-se perto dele. Pegou o metrô pela primeira vez na vida, era tudo novo para ele. Ao comprar os bilhetes no painel viu que os preços eram mais altos que em sua pesquisa na internete que estavam desatualizados pelo jeito. Resolveu economizar ao sair do metrô e não pegar um uber até seu hotel que era afastado do metrô. Andou observando tudo, passou por uma igreja e ficou admirado com as estátuas de dois anjos na faxada. Eles pareciam segurar o relógio de números romanos semelhante ao relógio na torre do Big Ben em Londres. As asas circulavam o campanário. Tirou uma foto, mas não postou para seu pai não descobrir onde estava. Pesquisou na internete e descobriu que a igreja se chamava Igreja dos Anjos, era uma igreja de uma religião que cultuava os anjos e Metraton que era um tal de Enoque representava o grande mestre desse culto. Porém Tsumi não se aprofundou em sua pesquisa porque nunca havia se interessado em religião apesar de ser budista por herança e crença de seu pai.
Depois de algum tempo conseguiu chegar ao hotel. Era um prédio pequeno, mas era bonito. Fez o check-in e entrou em seu quarto. Depois de tomar banho, viu que seu pai havia tentado ligar pra ele. Até aquele momento seu pai não havia percebido que havia fugido de casa, resolveu mentir enviando uma mensagem de que passaria o dia na casa de seu colega e provavelmente passaria a noite também. Isso faria seu pai ficar tranquilo até perceber que não voltaria mais. Seu pai ficou chateado por Tsumi não ter avisado que não ficaria em casa em seu dia de folga, mas consentiu. Ufa! Assim ele não aciona a polícia...-pensou Tsumi aliviado.
Queria ir logo para a agência MH, mas resolveu esperar até o dia seguinte para ir logo cedo. Foi até área de café do hotel república. Comprou um lanche e um suco. Achou caro, mas estava com fome. Ainda estava empolgado, estava em Mekata finalmente. Olhou seu celular e como sempre olhou as redes sociais de Muyami. Este era ativo postando sempre. Na maioria das vezes era publi, mas Tsumi gostava mesmo assim. Viu Muyami num vídeo mostrando seu treino diário na academia de sua mansão. Muyami tinha trinta e nove anos, mas estava em absoluta forma. No final exibia seu abdomem trincado. Tsumi queria ser como ele, mas adorava comer e descansar, o máximo que fazia de exercícios era caminhar e cortar grama dos vizinhos para ganhar um troco. Clicou no coração do aplicativo sentindo-se feliz. Muyami estava planejando lançar mais um single e Tsumi sabia que não conseguiria comprar já que não podia gastar além do que havia economizado. Viu outras postagens onde Muyami cantava num ensaio. De repente ouviu Muyami falar de seu filho. Foi uma surpresa para Tsumi, era raro ouvir falar do único filho de seu ídolo e ainda mais pelo próprio. O filho de Muyami era um mistério para os fãs já que era escondido da mídia. Sentiu inveja do tal filho.
Queria ser o filho dele...-pensou e se lembrou dessa mesma frase saindo de sua boca na briga com seu pai. A briga começou quando seu pai descobriu que Tsumi gastava sua mesada fazendo aulas de violão e canto sem sua permissão. Seu pai, o médico cardiologista Ikeda não aprovava sua ideia de ser cantor e assim Tsumi ficou sem a mesada.
A mesada do filho de Muyami deve ser extraordinária...-imaginou Tsumi com mais inveja.
Hoje meu filho está aqui comigo no ensaio.-disse Muyami no vídeo. Ao fundo havia um garoto sentado em uma cadeira num banco da plateia onde seria o show de Muyami, não dava para ver seu rosto, estava de máscara olhando o celular. Muyami o mostrou de longe e rapidamente. Tsumi gelou, ficou voltando o vídeo para tentar ver o menino melhor. Mas não conseguiu ver direito. Será que Muyami vai mostrá-lo mais depois?-indagou a si mesmo curioso.
Assim que terminou seu lanche, resolveu dar uma volta no bairro e achar algum mercado onde pudesse comprar comida mais barata que no hotel. Andou pelo bairro e viu muitas lojas e restaurantes. Viu pessoas saindo do trabalho, homens e mulheres conversando. Pareciam felizes. Resolveu pegar o metrô e dar uma volta no centro de Mekata. Ao sair deu de cara com um outdoor de Muyami. Era uma campanha de um perfume de luxo. Viu algumas fãs tirando selfies do lado e tirou uma também. As meninas o olharam provavelmente achando estranho um garoto ser fã do astro. Apesar de Muyami não ser um ídolo jovem, seu público era de diversas idades desde adolescentes a senhoras de meia idade. Mas fãs homens eram raros. Tsumi sabia que muitos garotos tinham vergonha de admitir serem fãs, mas curtiam escondidos suas músicas.
Depois de passear bastante e ficar com as pernas doendo de tanto andar resolveu voltar ao hotel e descansar para no dia seguinte entrar para a agência de Muyami. Assistiu um pouco de TV e dormiu. Sonhou que cantava para Muyami, mas sua voz sumia. Acordou estressado, mas logo se recuperou. Tomou um refrigerante comprado numa vending machine e comeu um pão que havia comprado num mercadinho do bairro. Seguiu em direção a agência artística de Muyami. O dia estava frio, mas suou tenso ao pensar que iria fazer uma audição. Pensou que talvez tivesse que fazer uma ficha de inscrição e esperar ser chamado e isso podia demorar. Então pensou em achar algum trabalho depois.
Tsumi vislumbrou a agência MH. Era um prédio magnífico, com panos de vidro arredondados, arquitetura moderna. O Sol iluminava aquela faxada de vidro azul e um calafrio de adrenalina subiu por seu corpo.
Que coisa fantástica!-pensou empolgado e maravilhado. Uma enorme estrela com a logo MH saía colossal do teto geodésico de vidro da entrada. Ao caminhar em direção a entrada observou muitos paparazzi ao redor, esperando para flagrar Muyami saindo ou entrando do edifício. Havia fãs tirando foto do prédio. De repente viu alguns garotos vestindo moletons com a logo da MH estampado nas costas. Eram agenciados com certeza.-pensou facisnado imaginado que usaria uma roupa igual em breve. Os rapazes eram altos, jovens e muito bonitos. As meninas davam pequenos gritos aos vê-los passando e entrando no prédio.
Que legal! Eles já têm até fãs...-aventou Tsumi olhando os rapazes orgulhosos de si mesmos. Tsumi entrou no grande hall ao passar por uma porta rolante e foi instruído a pegar uma senha num painel por um recepcionista. Olhou o painel e escolheu a senha de atendimento para inscrição de agenciados. Parecia um sonho aquele pequeno pedaço de plásico que a máquina cuspiu com o número vinte e seis. Ficou surpreso por já ter vinte e cinco pessoas na sua frente, ainda era cedo e achou que seria um dos primeiros. Passou pela catraca e foi em direção a fila onde havia pessoas sentadas em bancos perfilados, eram os candidatos a novos agenciados. Alguns estavam acompanhados de seus pais que pareciam orgulhosos de seus filhos, futuros artistas famosos. Tsumi olhou para uma grande parede onde havia vários pôsteres de artistas já famosos da agência, deu um passo e acabou tropeçando numa placa de aviso de chão molhado. A placa fez um barulho e todos olharam para ele. Tsumi ficou envergonhado e ao tentar levantar a placa um rapaz apareceu atrás dele.
Deixa que eu arrumo.- disse um jovem com roupa de faxineiro.
Me desculpe, eu não vi a placa.- disse Tsumi achando estar
atrapalhando o trabalho do garoto. Tudo bem. Sorte que você não caiu.-respondeu
um pouco aliviado e preparando-se para ir embora.
É verdade, ia ser um mico e tanto. Mas é que eu estou nervoso. Vou me inscrever
na MH.-continuou Tsumi. Era bom falar com alguém ali, mesmo que fosse com um
funcionário, pensou. O jovem faxineiro sorriu.
Boa sorte, então.-disse e se despediu com um gesto tímido com a mão. Tsumi
agradeceu e sentou-se num dos bancos. Esperou ser chamado e observou os outros
ao serem atendidos. Preenchiam uma ficha e depois entregavam a atendente no
balcão. Ficou receoso ao ver que os pais dos candidatos passavam um cartão de
crédito. Pensou ter se enganado ao ouvir o valor da taxa. Não podia ser aquele
valor, seria caro demais. Logo chegou sua vez, a atendente o tratou bem, o
instruiu no preenchimento dos dados. Na parte de habilidades escreveu que
cantava, escrevia músicas e tocava vários instrumentos. Havia se preparado para
aquele dia. Mas não havia feito nenhum trabalho na TV e nem tinha experiência em
palco.
Espero não ser rejeitado por falta de experiência.-pensou. Colocou suas características físicas como altura, tinha um metro e setenta e dois. Se achava rasuavelmente alto para um asiático. Provavelmente cresceria mais, seu pai tinha mais de um e oitenta. Pesava cinquenta e seis quilos, o que o tornava muito magro. Para ser ídolo era melhor ser magro, por isso controlava sua boca apesar de adorar comer. Porém, seu sacrifício estava sendo recompensado, pensava ele ao preencher a ficha.
Entregou a ficha no balcão e logo foi atingido por um choque de realidade. O senhor vai pagar a taxa de inscrição no cartão de crédito, cheque, débito ou por pix?- perguntou a atendente com um sorriso natural. Tsumi ficou paralisado por um momento.
E quanto é a taxa? –perguntou sem graça.
Oito mil. Podemos dividir no crédito se quiser, senhor.- disse a atendente ainda sorrindo.
Oito mil!- Tsumi exclamou com a voz falhando.
Sim, oito mil dólares.- continuou a atendente com naturalidade. Se preferir ter uma audição pessoalmente com o senhor Muyami Murasaki, a taxa é de vinte mil. Mas a audição terá que ser agendada e pode demorar um pouco por causa da disponibilidade de agenda dele.
Tsumi sentiu seu mundo encolher naquele momento. Não existe uma audição de graça?- perguntou já esperando uma negativa. A atendente levantou as sobrancelhas e disse que não era a política da empresa fazer audições de graça. Restou-lhe dizer que voltaria depois.
Tsumi saiu porta a fora desanimado como nunca. Seu sonho havia sido dilacerado pela taxa de inscrição. Seu “levare” falhou. A música descompassou, perdeu o ritmo, a dinâmica não foi obedecida. A taxa da MH soou como um acorde diminuto.
Pelo jeito você soube da taxa.-ouviu uma voz atrás de suas costas. Se virou e viu o rapaz da faxina já sem seu uniforme. Vestia um casaco e um cachecol enrolado no pescoço.

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