São oito e pouquinho quando Bouchard bate na porta meio destruída, abrindo espaço para Gustave ir na frente. Quem os recebe é um rapaz com o pior corte de cabelo que já viu desde o ensino fundamental — é um capacete perfeito. Parece que usaram uma tigela para modelar o cabelo do moleque. Dá pra perceber que Bouchard está usando todas as forças que possui para não rir na cara dele. Ele agradece pelo esforço. Antes que o subordinado perca a postura, Gustave puxa o distintivo e se apresenta:
— Sou o capitão Martin, da Polícia Provincial de Québec, representando a 1ª delegacia da cidade. Tenho um mandado de busca e apreensão relacionado ao caso de desaparecimento de Mikael Prater. Seu nome completo, por favor?
O garoto suspira, mas abre a porta para lhes dar passagem. Bouchard segue direto para o corredor que leva aos outros cômodos, enquanto Gustave permanece sob a vigia de olhos quase escondidos por uma franja inacreditavelmente reta.
— François Brunet. Vocês não podiam ter pelo menos ligado para avisar primeiro?
— Não é bem assim que as coisas funcionam, François. Você está sozinho em casa?
— Não, o Jean… O nosso outro colega está no banho. Ainda não deu para alugar o quarto do Mika, né, então somos só nós dois morando aqui por hora.
— Perfeito. Acham que dá para nos ceder uma ou duas horinhas do tempo precioso de vocês?
A duplinha esquisita — cabeça de coco e máquina zero falhando — fica sob a guarda de Gustave na sala de estar, enquanto Bouchard revira o até então intocado quarto de Mikael Prater. Pelo menos é isso que os garotos juram de pés juntos, argumentando que seguiram fielmente às ordens da polícia, e que o próprio Mikael ainda não tinha organizado as coisas, apesar da ordem de expulsão. Eles garantem que nem ao menos entraram no cômodo, porque declararam que não iam mover uma palha para ajudar o colega a juntar as tralhas e dar o fora. Na sexta, Mikael prometeu que resolveria isso sozinho na manhã seguinte. Avisou que chegaria um pouco tarde à noite, e aí saiu para nunca mais voltar.
De fato, tal como a documentação atesta, esses dois foram os primeiros a dar falta do sumido. Entraram em contato com a polícia no domingo à noite, dizendo que era comum ele ficar ao léu sem aviso prévio, mas era a primeira vez que passava mais de 48 horas sem dar sinal de vida. Além do mais, eles tinham combinado a mudança para esse mesmo dia, tal como dizia nos prints de conversas que eles mostraram para comprovar a história.
— Ou algo tinha acontecido com ele, ou estava nos dando um golpe. De qualquer jeito, é motivo para envolver a polícia.
— E por que vocês decidiram expulsar ele?
— Ele já não pagava aluguel há dois meses. — Jean cruza os braços. É perceptível o esforço que está fazendo para não parecer desleixado, mas fica difícil manter essa postura com a cabeça toda mal raspada. — E ele já estava sem pagar a parte dele das outras contas há mais tempo ainda. A gente tentou segurar as pontas até onde deu, mas já estava prejudicando as nossas finanças também. Não foi fácil, tá? Mas era isso, ou arriscar que o nosso dinheiro e amizade fosse pra casa do caralho. Digo, perdão, pra… pro quinto dos infernos…? Pode falar isso em depoimento?
Enquanto seu amigo luta com a própria mente, François sacode a cabeça e continua de onde Jean parou:
— A gente até sugeriu ele ficar um tempo com a namorada dele enquanto procurava outro canto fixo. Toda vez que entramos no assunto, dava em briga, então nunca se definiu nada direito… E quando eu me ofereci pessoalmente para ajudar ele a se ajeitar num geral, ele me mandou, abre-aspas, “pegar minha ajuda, enfiar no cu, e rodar”.
Ele até desenha aspas no ar para enfatizar. Pior que não dá nem para culpá-los. Não tem como ajudar alguém que não quer, ainda mais sendo filho da puta desse jeito.
— E vocês tem alguma ideia de onde surgiram todas essas dificuldades financeiras do Mikael?
— É… Ele começou a fazer umas bets uns meses atrás, acho que é a coisa que mais deve ter a ver.
Dá vontade de respirar bem fundo, levar as mãos à testa, e desistir da entrevista. Mas é claro. É claro que o idiota era viciado em apostas, e é claro que os coleguinhas não acharam isso relevante o suficiente para mencionar quando foram questionados na delegacia. Mas o alemão provavelmente apostou até as roupas do corpo, se fudeu, e surtou por isso. Isso se não estiver devendo para traficantes, ainda por cima.
— E como ele reagiu à sugestão de ir morar com a namorada? Concordou?
— Nada, ele não curtiu. Falou que preferia dormir na biblioteca do que morar com a sogra.
Tomara que o Bouchard esteja conseguindo ouvir tudo, pensa Gustave. Seria uma boa ter a perspectiva de alguém que conheceu a sogra em questão, mesmo que só por algumas horas.
— Entendi. — O capitão sublinha duas vezes a anotação. — E antes da situação toda, como o Mikael agia no dia-a-dia? Vocês falaram que ele gostava de apostar, né? Ele sempre foi muito fã de esportes? Praticava algum? Quero saber dos hobbies dele.
Os dois jovens permanecem mudos por alguns instantes. Viram-se um para o outro e se encaram confusos, como se finalmente percebendo o quão ridículos ficam com seus respectivos cortes de cabelo.
— Na verdade… — O quase-careca balbucia. — Ele não era muito de esportes, não. Teve uma vez que eu chamei ele para jogar hockey e ele falou que era alérgico.
— Quando a gente foi pro bar assistir à final do campeonato, ele ficou direto no celular, nem assistiu o jogo…
— Mas ele apostou na final, lembra? Achei que ele estava acompanhando…
Gustave intervém, levantando a mão:
— Vocês sabem por que ele começou com as bets? Era por renda extra, diversão mesmo, ou ele chegou a mencionar alguma dívida prévia?
— Não, não mencionou nada, mas o Mika parecia estar bem de vida quando chegou. Só começou a atrasar os pagamentos esse semestre, mas ano passado ele sempre foi bem pontual. Tinha mês que ele até…
— Martin! — A voz rouca de Bouchard os interrompe. — Tô precisando de uma mão aqui!
— Já vai!
Leva cerca de treze passos até Gustave encontrar o tenente agachado ao lado da cama de Mikael Prater, com uma caixa de sapatos em mãos. Ele a abre e mostra seu conteúdo, sacudindo tudo. Quando volta a falar, é num sussurro, segurando um sorrisinho quase empolgado.
— Achei o baú do tesouro. Só não pode deixar Seu Pierre ficar sabendo.
Tem cocaína em alguns pacotinhos lacrados, junto com restos de porções já descartadas. Umas cartelas de comprimidos, provavelmente tarja preta. Zolpidem? Alprazolam? Também há uma garrafinha de vidro, preenchida até a metade por um líquido transparente. Deve ser cetamina. Uns pacotes de camisinha, lubrificante, e gel para aumento peniano. Pai do céu. Sexo, drogas, só faltou o rock’n’roll. Mas é de longe a evidência mais relevante que encontram no apartamento, apesar de não revelarem os achados aos colegas do dono da caixa. Gustave direciona algumas perguntas buscando por reações, mas pelo que tudo indica, a dupla é ignorante aos verdadeiros hobbies do amigo. Na verdade, quando os policiais vão embora carregando sacolas pretas, tudo o que os rapazes demonstram em suas expressões é uma confusão inegavelmente tingida de culpa. Talvez arrependimento.
O lado bom, se é que dá para falar assim, é que será mais fácil de explicar tudo quando a autópsia sair. Ele só não quer ser o pobre coitado que precisará dar a notícia, ainda mais se for para a família Prater — que o acompanha com uma esperança quase horripilante no olhar quando Gustave entra na delegacia.
— Bom dia, Capitão.
Eles o cumprimentam em uníssono antes mesmo que o ruivo consiga reconhecê-los. Ele retribui num resmungo, buscando uma saída imediata da frente deles. Cadê a Lisa…?
— Major, precisamos conversar! — O anúncio ecoa pelo modesto escritório. Felizmente, a resposta vem rapidamente de trás de uma estante. Graças a Deus, ela é esperta: uma troca de olhares, e os dois rumam à cozinha, onde ele entrega as sacolas.
— Ainda bem que você é inteligente, Martin… — Suspira, abrindo a bolsa. — Eu não falei da busca e apreensão, só do interrogatório. Obrigada.
— Que isso, eu que agradeço. — Ele se espreguiça, tentando desfazer um pouco de sua tensão. Não que funcione muito, porque ela é parte permanente dele, e sua chefe logo segue com a conversa:
— Você vai ter que me perdoar, mas vou precisar de outro favor seu. Os pais do menino te adoraram.
— Não… — A reação escapa dele mais rápido do que o pensamento em restringí-la. Ah, não, ele repete em silêncio, deixando a cabeça pender, que se foda essa merda… — O que é que eles querem agora? Eu não sou pago para ser babá de testemunha, Major.
— Nem eu, né? Mas é isso, ou permitir que eles fiquem aqui questionando cada passo que a gente dá. Pior, tentando se meter no meio da equipe porque não relatamos cada santa decisão tomada, não incluímos eles em toda discussão, ou sei lá o quê. Mais cedo, eles estavam insistindo que tinham que conhecer a namorada dele, e só faltaram começar a me acusar de estar escondendo coisas quando respondi que não posso vazar as informações pessoais de uma testemunha-chave. Porra, se eles se importam tanto com onde o bebêzinho deles estava metendo a boca, por que é que eles já não tem o contato dela?!
Eita.
— Calma, Major, deve dar pra te ouvir lá fora.
— Como se eles entendessem algo. Já mal me entendem quando eu falo devagar. — Respirando fundo, ela ajeita os fios soltos que caíram em seu rosto durante o desabafo. — Perdão. Enfim, por favor, tira eles daqui. Imediatamente. Leva eles pra universidade.
— Hein?
— Eles estão nesse pique de querer saber que tipo de vida o filhinho deles leva por aqui. Acho que essa é a opção mais tranquila, mas eles bateram o pé e não querem ir sozinhos. Falaram que estão com medo de se perder no caminho.
— Não tem Uber na Alemanha, não?
— Sei lá. Só deixa eles lá e diz que você precisa fazer outra coisa.
— E se eles tentarem entrar em contato com alguma testemunha?
— Não vão. Já pedi para a professora Villeneuve ficar de olho neles. Teoricamente, ela é testemunha também, mas é melhor do que qualquer outra. Podemos confiar nela, e eles devem ficar satisfeitos.
Villeneuve é a amante do Émile, né?
Ah, caralho, pela primeira vez na semana, Gustave espera não encontrá-lo. Já tem sido difícil fingir que ele não lembra do que viu ontem à noite. A urgência das situações que precisa resolver ajuda a reprimir as memórias, mas uma vez que pensa no ocorrido, os flashes inundam sua visão. Fudeu. Por um momento, tudo o que existe no mundo são as mãos de Émile no cabelo de Theodore, suas pernas se entrelaçando, o sorrisinho de Theodore ao falar com o outro homem. A barriga exposta de Émile, seus olhos fechados, a curva do seu queixo levando ao pescoço e ao peito. Algumas dessas coisas foram imaginadas por Gustave ao longo da noite, outras ele realmente viu acontecer, mas ele mal lembra qual era o quê.
— Terra para Martin.
— Perdão. — As imagens se dissipam junto com seu fôlego. Merda. — Claro, pode deixar. Eu levo eles sim. Só não preciso buscar, né?
— Nem fudendo, volta assim que der. Só aproveita e me traz aquele frango xadrez de novo, tá?
Ele só precisa ser o mais veloz possível, vai doer menos assim. É só dirigir o mais próximo que der da velocidade máxima, levar o casal Prater direto ao escritório, passar na tal loja de conveniência, e então meter o pé pra puta que o pariu. Não é um plano complexo, e como na saída ele ouviu Bouchard e Leclerc debatendo novamente a questão da namorada, já tem uma desculpa perfeita para executá-lo. “Ah, perdão, eles estão precisando da viatura para ontem”, ou qualquer coisa que o francês deles os permita entender.
Pelo menos eles estão mais calmos hoje, ou menos intrometidos, até certo ponto — tratando-se da investigação, ao menos. A senhora Prater tenta puxar assunto perguntando sobre alguns dos lugares pelos quais passam, sobre a universidade, se Gustave chegou a estudar lá. Para o azar deles, grudaram logo no único forasteiro da delegacia, que sabe pouco mais do que eles. Ele chega a balançar a cabeça ao se desculpar, e pelo que vê no retrovisor, parece ter sido perdoado. O plano dá certo ao ponto de chegarem no campus antes dela começar a perguntar sobre Montreal, mas a onda de sorte só dura até aí.
Sem querer partir em grandes tangentes logo agora, mas às vezes Gustave reflete e concorda que talvez aqueles malucos que falam que ser gay é castigo talvez tenham alguma razão. Se existe algum Deus nesse universo, ele deve estar doido para punir, espancar, destroçar, executar, escalpelar Gustave Martin. Essa é a única explicação lógica para o fato de que a primeira coisa que vê ao abrir a porta do escritório da professora Villeneuve é Émile sentado ao lado da escrivaninha, de pernas cruzadas, gola rolê preta, e um sorriso bem mais espontâneo do que educado.
Que inferno.

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