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Un-shots

Eu Vou Ficar Bem

Eu Vou Ficar Bem

Jul 27, 2025

Me perguntam se tá tudo bem.
Eu digo que sim.
Claro que sim.
Porque é mais fácil assim.

Porque cada vez que alguém insiste, parece que a dor cresce mais um pouco, como se precisasse se explicar também.
Prefiro deixar quieto.

Tem dias em que levantar da cama exige mais energia do que eu tenho.
Outros, eu levanto. Faço tudo. Trabalho, rio de umas piadas, respondo mensagem no tempo certo.
Mas, por dentro, continuo com aquela sensação de que alguma coisa descolou.

Como se minha alma tivesse ficado um passo atrás do meu corpo.
É difícil de explicar.
Mas eu também não quero explicar.

Eu não sei quando começou.
Talvez não tenha começado — talvez só tenha crescido, aos poucos.

Como mofo em parede branca.
Quando você vê, já tomou conta.

Eu não quero desabafar.
Não quero chorar no ombro de ninguém.
Não quero conversa de “você precisa se abrir”.
Eu só quero o direito de não estar bem.

Quero sentar no escuro.
Ficar quieto.
Deixar a cabeça ferver, os pensamentos se atropelarem, e no fim, respirar fundo e pensar:

Eu vou ficar bem.

Eu vou ficar bem.
Porque sempre foi assim.
Eu sempre aguentei.

Engoli o choro, empurrei os dias ruins com a barriga, me calei quando tudo gritava dentro.
E em algum momento... passou.

Não porque melhorou de verdade.
Mas porque eu me acostumei.
Porque a dor virou cenário.
E, de algum jeito, eu continuei.

Eu vou ficar bem.
Não porque estou bem agora.
Mas porque é isso que eu faço.

Aguento.
Fico em pé.
Sigo em frente.

Até que um dia, sem saber como, eu percebo que passou.
Ou que eu passei por cima.

Às vezes penso que o problema sou eu.
Que tem alguma coisa errada na minha cabeça, no meu jeito de sentir.

Tem dias em que até o ar parece pesado demais.
E eu me pergunto se todo mundo lida melhor com isso e eu é que sou falho.

Outras vezes, acho que o mundo que tá torto.
Que as pessoas correm demais, falam demais, pedem demais.
Que ninguém ouve de verdade, que tá todo mundo fingindo.

E aí eu penso: talvez o problema não seja comigo.
Talvez eu só não tenha aprendido a fingir tão bem quanto o resto.

Tem dias em que tudo me irrita.
Alguém me chamando no trabalho.
Alguma coisa fora do lugar em casa.
A obrigação de responder “bom dia” como se eu estivesse feliz em estar vivo.

Tem dias em que tudo me dói, em silêncio.

Não é que eu não queira ajuda.
É que eu não quero conversa.

Não quero que alguém olhe pra mim com pena ou com aquele olhar de "sei como você se sente", porque nem eu sei.

Eu só sei que tem algo errado.
E que não importa o quanto eu tente ignorar, isso me persegue em tudo:
No caminho pra casa.
Na hora de dormir.
No silêncio entre duas frases.

Me disseram pra escrever sobre o que sinto.
Mas eu não sei dar nome pra isso.

Não é tristeza.
Não é raiva.
É como estar vazio e cheio ao mesmo tempo.

É querer desaparecer sem deixar rastros, mas torcer pra que alguém perceba.

Mesmo que eu diga que tá tudo bem.
Mesmo que eu continue sorrindo.
Mesmo que ninguém pergunte de novo.

Eu vou ficar bem.
Talvez amanhã.
Talvez daqui um mês.
Talvez mais.

Mas enquanto eu aguentar calado, pelo menos não incomodo ninguém.

No trabalho, não posso errar.
Um deslize e alguém já tá pronto pra julgar.
Parece que tem gente que espera por isso.

Prontos pra pegar no meu erro antes mesmo de eu respirar errado.
Não é competição.
É sabotagem silenciosa.
O ambiente inteiro fede a tensão.

Ali, eu sou só uma engrenagem.
E uma engrenagem não pode reclamar.

Eu conto os minutos.
Chego pensando no horário do almoço.
Almoço pensando no horário de voltar.
Volto desejando que o expediente acabe logo.

E tudo isso só pra repetir no dia seguinte.

Segunda-feira chega como uma pedra no peito, pesada demais.
O sábado parece uma miragem distante.
Eu passo a semana inteira só esperando o sábado.
E ele passa rápido demais

Às vezes, olho pro relógio e parece que até ele tá contra mim.
Os ponteiros andam devagar quando eu quero que o tempo passe rápido,
e aceleram quando tudo o que desejo é parar.

Não tem lugar pra eu ser mais do que isso.
Não tem tempo pra eu sentir o que tá dentro de mim.

Tem que ser rápido, eficiente, produtivo.
Porque se errar, se atrasar, se não parecer bem, você já tá marcado.

Eu fico quieto.
Porque não quero ser alvo.
Porque ninguém quer ouvir que eu não tô bem.
E eu também não quero dizer.

Eu vou ficar bem.
Se não ficar, pelo menos eu aguento mais um dia.
Aguento até o sábado.
E no sábado eu respiro.

A casa devia ser o lugar da pausa.
Mas já faz tempo que não parece lar.

Tem teto, tem parede, tem comida no armário.
Mas não tem silêncio.
Não tem sossego.

Tem gritos.
Portas batendo.
Gente discutindo sempre as mesmas coisas.

Mesmo que eu fique no meu canto, não significa que eu goste.
Estar fora da confusão não me protege do estrago.
Mesmo que os gritos não sejam comigo.

O barulho me cansa.
A tensão me cansa.
O desgaste me pesa mais do que qualquer grito.

Tem dia que eu entro, vou direto pro quarto,
fecho a porta, deito de lado e fico ali, imóvel,
só esperando que o tempo ande um pouco mais rápido.

Às vezes, fico parado na porta com a mão na maçaneta, ouvindo se está tudo calmo antes de entrar.
Às vezes, caminho mais devagar na volta pra casa.
Me distraio de propósito.
Espero o próximo ônibus.
Só pra adiar a chegada.

Como se cada minuto fora fosse um suspiro a mais antes de prender a respiração de novo.

Meus cantos viraram trincheiras.
As coisas que organizo com cuidado — minhas roupas, meus pertences, meu espaço.
Alguém sempre mexe.
Sempre desloca.
Tira do lugar.

E eu vou lá, calado, e coloco de volta.
Reorganizo o caos do meu mundo mínimo.
Era o único lugar que eu pensava que ainda tinha o controle.

Às vezes, penso em sair.
Mas ir pra onde?

Pra outro lugar com paredes?
Com gente gritando em outro tom?

Não é fuga o que eu quero.
É silêncio.
É paz.
É não precisar fingir que estou bem em todos os lugares onde piso.

Eu vou ficar bem.
Mesmo aqui.
Mesmo no meio do barulho.
Mesmo quando não parece um lar.
Nem abrigo.

Eu vou ficar bem.
Ou pelo menos, é o que eu continuo dizendo

Às vezes me perguntam por que eu não tenho ninguém.
Como se estar sozinho fosse algum tipo de falha.

Gente que mal me conhece sugere que talvez uma namorada ajudasse:
"Você precisa de alguém pra te fazer companhia", dizem.
"Um amor muda tudo."

Mas eu não quero.
Não sinto falta.
Não vejo sentido.

Ficar sozinho, pra mim, não é castigo.
É segurança.
É paz.

Vejo gente caindo em buracos mais fundos por causa de relacionamentos.
Gente em depressão porque não tem com quem dividir a cama.
E eu não entendo.

Eu vejo vantagem no silêncio, no espaço que é só meu.
Na liberdade de não precisar me moldar pra caber na vida de alguém.

Eu já tenho gente demais sabotando minha paz.
Alguns fazem isso sem perceber.
Outros, eu mesmo coloco nessa lista — inclusive eu.

Não preciso de mais uma presença me exigindo afeto quando mal consigo sentir qualquer coisa.
Não quero mais uma expectativa pra decepcionar.
Nem mais uma chance de falhar.

Não é amargura.
Nem medo.
É apenas uma escolha.

Uma tentativa de preservar o pouco que ainda tenho.

Eu vou ficar bem.
E quando ficar, talvez eu mude.
Talvez eu queira dividir o café, o sofá, as palavras.

Mas não agora.
Agora, eu só preciso do meu espaço.
Do meu silêncio.
Da minha ausência de promessas.

Eu me recuso.
Me recuso a aceitar essa rotina morta.
Esse corpo que se arrasta.
Essa mente que gira sem parar e nunca chega em lugar nenhum.

Me recuso a viver uma vida que não me toca.
Que passa por mim como se eu fosse vidro.
Que não me emociona, não me transforma, não me tira do lugar.

Chega.
Cansei de engolir tudo com um sorriso fraco.
De fingir que tá tudo certo só porque ninguém tem paciência pra quem tá mal.

De sorrir sem motivo.
De responder “tudo bem” por reflexo.

Não tá tudo bem.

Acordo todo dia como quem volta de um naufrágio.
Me visto como quem veste um disfarce.
Saio de casa como quem entra em campo de guerra.

E tudo o que eu faço é aguentar.
Aguardar o próximo horário, o próximo intervalo, o próximo dia.
Esperar a dor passar como se fosse febre.
Esperar o mundo melhorar sozinho, sem fazer barulho.

Mas não melhora.

Eu tô cansado desse torpor.
De parecer inteiro por fora e desmoronando por dentro.
De parecer funcional quando, na verdade, só tô empurrando a vida com a barriga.

Eu me recuso a aceitar que isso é o máximo que a vida tem pra me oferecer.
Me recuso a chamar isso de normal.
Me recuso a aceitar a indiferença como rotina.

Tem uma parte de mim que ainda resiste.
Mesmo em silêncio.
Mesmo cansada.
Mesmo sangrando por dentro.

Ela não quer salvação.
Não quer explicação.
Ela só quer não desaparecer.

Eu vou ficar bem.
E até lá, vou continuar aqui.
De pé.
Em silêncio.

Todo mundo tem alguma coisa pra dizer.
Todo mundo tem uma opinião, um conselho, uma frase feita pronta pra cuspir na sua cara:
"É só sair mais."
"Falta fé."
"Tem que pensar positivo."

Todo mundo fala.
Mas ninguém pergunta de verdade.
Ninguém quer escutar o que não é bonito de ouvir.

Eles só querem que eu funcione.
Que eu volte pro modo normal.
Que eu sorria no café e diga “bom dia” com energia.
Que eu produza, responda, aceite.

Mas se eu tô no caminho errado, ninguém segura minha mão.
Ninguém muda a rota comigo.
No máximo, apontam o dedo.
Ou te observam cair, quietos, pra depois dizer que te avisaram.

Ninguém realmente se importa se você tá indo pro buraco.
Desde que você vá em silêncio.

Alguns me dizem que Deus resolve tudo.
Que fé é a chave.
Que falta espiritualidade.

Mas e se eu já rezei?
E se eu já pedi, já roguei, já fiquei em silêncio no escuro esperando algum sinal?
E se eu me ajoelhei e, mesmo assim, não veio alívio?

Será que é porque eu tô fazendo errado?
Será que a dor tem escala de merecimento?

Talvez Deus esteja ocupado.
Talvez ele me ouça, mas saiba que eu não quero salvação.
Só quero parar de afundar.

Não quero paraíso.
Não quero redenção.
Quero só um dia em que eu consiga respirar sem parecer esforço.

Tudo bem a oração não funcionar.
Já me acostumei a improvisar.

Se o sorriso não for real, eu coloco um falso.
Do tipo que funciona bem nas fotos, nos corredores do trabalho, nas reuniões de família.

O tipo de sorriso que ninguém questiona.
Porque ninguém quer saber de verdade.

Já sei o tom certo.
A curvinha leve nos lábios.
A risada curta que não incomoda.
A resposta automática:

"Tá tudo bem, só tô cansado."

É esse o jogo.
Sorrir pra não incomodar.
Responder “tudo bem” pra não explicar.
Fingir pra sobreviver.

E cada vez que eu finjo,
uma parte de mim morre um pouquinho,
mas outra aprende a aguentar mais.

Eu vou ficar bem.
Mas enquanto não fico, continuo aqui:
Fingindo bem o bastante pra não preocupar ninguém.
Rezando o suficiente pra não me sentir ingrato.
Andando no caminho errado sem fazer barulho.

Eu vou ficar bem.
Mesmo que tudo diga o contrário.
Mesmo que meu corpo pese.
Mesmo que minha mente corra em círculos o dia inteiro.

Eu vou ficar bem.
Mesmo que ninguém veja.
Mesmo que ninguém pergunte.
Mesmo que ninguém se importe.

Eu vou ficar bem.
Mesmo que eu não acredite de verdade.
Mesmo que eu só diga isso porque preciso acreditar.
Mesmo que eu esteja me arrastando por dentro.

Eu vou ficar bem.
Mesmo que o silêncio machuque.
Mesmo que o barulho lá fora nunca pare.
Mesmo que eu continue fingindo, sorrindo, funcionando.

Eu vou ficar bem.
Porque é isso ou desabar.
Porque é isso ou sumir.
Porque é isso ou nada.

Eu vou ficar bem.
Mesmo cansado.
Mesmo vazio.
Mesmo perdido.

Eu vou ficar bem.
Eu vou ficar bem.

EU VOU FICAR BEM.
EU VOU FICAR BEM.

EU VOU FICAR BEM, PORRA.
WantoTerceiro
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