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The Weight of S

“Herói Inesperado” Parte 1

“Herói Inesperado” Parte 1

Jul 30, 2025

    Era uma tarde tranquila, e o sol reluzia intensamente sobre o reino de Druval. Enquanto a guilda se preparava para o tão aguardado pronunciamento anual de novos recrutas, um aventureiro, conhecido como Hiro Bertrand, encontrava-se em um estado de completo abandono — dormindo sobre a mesa. No silêncio que o envolvia, fragmentos de seu passado ressurgiam como sombras em um sonho: a batalha que o elevou ao status de Rank S, uma conquista inegável, mas marcada por um inusitado constrangimento que o acompanhava. 

    — É bom que eles paguem pela hora extra! — Hiro bradou dramaticamente, levantando sua espada ao céu. Sua voz ecoou através da clareira, cheia de bravura, até que um ronco profundo saísse de seus lábios. E então, como um narcoléptico, nosso campeão lentamente pôs-se a cochilar. 

    O monstro diante dele, uma enorme serpente de três cabeças chamada Serpenthrax, o olhou confusa. — Você está tentando me intimidar?  — Uma das cabeças zombou enquanto as outras duas se entreolhavam. 

   — Desculpe, não posso me concentrar com toda essa... coisa de monstros! — Hiro murmurou, ainda de olhos fechados, enquanto a espada escorregava de sua mão e batia com um “ploc” no chão. Uma batalha épica e gloriosa? Não seria mais fácil se todos nós apenas fizéssemos uma soneca juntos? 

    Serpenthrax, visivelmente irritada, se preparava para atacar. — Quanta petulância! Eu mesma lhe transformarei em um travesssseiro. 

    Hiro, agora sonhando, imaginou a cena: Um travesseiro? Isso seria legal, mas... e as penas? Não sou alérgico a penas?!  Ele se virou de lado procurando um jeito confortável de se acomodar, enquanto a criatura ficava cada vez mais enfurecida. 

    — Q-Quem é este cara? — pensava a serpente dando tudo de si em seus golpes enquanto o herói se esquivava facilmente ainda em seu cochilo. 

    A criatura confusa e irritada, atacou novamente, cada cabeça se lançando em direções opostas. Mas nenhum de seus golpes eram capazes de acertá-lo, diante de si estava não o melhor, muito menos o pior, mas sim o mais deplorável herói daquele reino, um especialista na arte de dormir sob qualquer terreno e situação.  

    — Acho que ele é maisss astuto do que parece!  

    — Ou simplesssmente não sabe que estamos lutando! 

    Então como um ato desesperado, Serpenthrax lançou-se em uma investida final, a determinação refletia em seus olhos ofídicos. No entanto, Hiro, em um último ato inconsciente e movido por uma inquietação quase primitiva, desferiu um golpe certeiro. 

    Uma explosão de energia irrompeu de seu corpo, iluminando o campo de batalha com uma intensidade quase sobrenatural, de longe, todos que os assistiam não puderam conter sua surpresa, o antes preguiçoso Rank C acabara de derrotar uma criatura lendária. 

    Hiro sem entender nada, despertou coçando a cabeça. — Hum? Cadê minha bota? 

    As cabeças da serpente estavam agora deitadas, com olhares perplexos e derrotados. 

     — Ele... venceu? 

    — Issso não pode ser verdade! 

    — Faltou coordenação — dizia a cabeça do meio — Por issso pedi um memorando. 

    Hiro, olhando em volta, viu a serpente caída e, ainda sonolento não processou a situação. — Ehr... Quem são vocês mesmo?   

    — Criaturinha arrogante... — e antes que pudessem se levantar, o pico que as sustentavam cedeu queda à baixo causando um grande estrondo e revelando um novo Herói. 

    Os murmúrios da guilda se intensificavam ao redor, uma expectativa palpável no ar. Porém, Hiro permanecia alheio a tudo, imerso em um torpor que parecia transcender o tempo e o espaço. A memória daquela luta, apesar de gloriosa, trazia consigo o peso de momentos embaraçosos, revelando que mesmo os maiores heróis carregam seus constrangimentos. 

    Acordando de seu sonho com um sobressalto, e a cabeça latejando como se houvesse enfrentado mil monstros, Hiro olhava ao redor, seu rosto marcado e repleto de baba causava um grande alvoroço. Já faz quase cinco anos, não? julgavam alguns olhares. Não dá para acreditar que aquele cara realmente se tornou um Rank S. 

    — Finalmente acordou Sr.Bertrand. 

    — Caroll? — Perguntou com um sorriso indiscreto. — Pelo visto ainda estou em um sonho. 

    — Huh?  — Ela inclinou a cabeça, curiosa, e deu alguns passos à frente. 

    — Bom, ao menos parecem reais... — O homem encarou seus seios que agora se apoiavam sobre a mesa. 

    — Mas o que você tá fazendo?! — Caroll recuou, com os olhos arregalados e uma leve irritação no rosto. 

   — Francamente! Você tem noção de que perdeu toda a seleção de hoje, não é? — ela piscou levantando uma sobrancelha. 

    — Seleção de... quê? 

    Caroll suspirou e passou a mão pela testa, tentando manter a calma. Ele não faz ideia, pensou. Era típico dele ignorar coisas importantes. 

    — Devo lembrá-lo de que é a obrigação de todos os ranks altos guiar um novato? — arregaçou as mangas. — Ou devo espancá-lo até que se lembre, senhor Bertrand?! 

    Hiro ficou em silêncio por um momento, assimilando as palavras. Seu olhar vago começou a se fixar lentamente, como se algo terrível estivesse tomando forma em sua mente. 

    — Os novatos? Isso... Espera, isso quer dizer que — 

    — Quer dizer que há chances de você não ser o veterano de mais ninguém! — ela sorriu, um tanto satisfeita pela expressão de surpresa em seu rosto. 

    — O que também significa que, sem eles, você não pode se livrar de missões difíceis — o sorriso de Caroll se ampliou à medida que o rapaz começava a entender completamente a situação. 

    Então finalmente em pânico, Hiro, com as mãos sobre o rosto, levantou-se da cadeira. 

    — O quê? Não! Eu preciso de um... M-Minha vida pacífica depende deles! — Caroll deu de ombros apreciando seu desespero. 

    — Sabe, você é a razão pela qual existe uma categoria chamada 'herói em treinamento.” respondeu mostrando a língua. 

    — Isso é um pesadelo! Serei obrigado a aceitar missões? Lutar contra monstros enormes? Atravessar florestas cheias de armadilhas... — Sanguessugas! lá fora é cheio delas, parecem seres inocentes, m-mas quando você menos espera elas entram em seu... 

    Caroll riu, cruzando os braços novamente. — Olha, eu não sei qual é a sua ideia de ser um herói, mas cochilar no meio de uma batalha não é exatamente a melhor estratégia. 

    Ele parou, olhando-a com uma súplica nos olhos e um olhar sedutor de dragão apaixonado. 

    — Caroll, você tem que me ajudar a dar um jeito nisso! — sorriu jogando seu cabelo ao vento em uma tentativa de sedução. 

    — Sabe... algumas pessoas lá fora esperam muito de você, Hiro. Esperam que você seja o herói que dizem que é. Talvez um dia você decida levar isso a sério.... 

    — Eu já sou um herói! Um herói que sabe viver tranquilo. A paz é uma virtude! — Respondeu tentando rir da própria resposta, mas as palavras de Caroll o incomodam levemente. Hiro desvia o olhar, talvez imaginando o que seria “levar a sério" ou o que todos esperam dele. 

     — Tranquilo demais, talvez... Até demais para um Rank S, se quer saber minha opinião... 

    Caroll balança a cabeça, com um sorriso enigmático no rosto, e dá um passo para trás. O sol começa a se pôr, lançando sombras longas ao redor de ambos. 

     — Você sabia que metade das missões que recusou acabou indo para os novatos? Você devia ver como o admiram. Não é justo com eles, sabe? 

    Hiro apoiou o cotovelo no balcão, fingindo uma expressão séria. 

    — Ah, sim. Aposto que adoram quando deixo as missões perigosas para eles. Nada como um banho de realidade para crescer na carreira. 

    — Ou acabar num caixão, quem sabe? — rebateu Caroll, levantando o olhar para ele, com uma expressão séria que rapidamente se suavizou em um sorriso irônico. — Mas quem se importa, não é? Desde que o Grande Hiro continue vivo e descansando na sua glória. 

    — Você realmente não consegue me dar um momento de paz, consegue? 

    — E você realmente não consegue me convencer de que leva isso a sério, consegue? — Caroll cruzou os braços, encarando-o por um momento antes de voltar ao trabalho. 

    Hiro levantou as mãos em rendição. 

    — Tá bom, tá bom. Eu vou pegar uma missão... leve. Talvez. 

    Caroll riu, mas o som estava mais seco dessa vez. 

    — Boa sorte com isso. Ela deu um passo para o lado e apontou para a porta da guilda. — Na verdade, talvez você não precise de sorte. Sua nova “ajuda” acabou de chegar. 

    Hiro levantou os olhos e viu uma figura entrar. Seus passos eram hesitantes, mas sua presença chamava atenção. Uma jovem de cabelos prateados e um vestido branco impecável, que parecia brilhar à luz do fim da tarde. Ela parou no centro do salão, ajustando a alça de um cajado ornamentado. 

— Sério, uma freira? Isso é algum tipo de teste? — O homem a encarou por um momento, depois olhou para a recepcionista. 

— Você vai descobrir sozinho. Boa sorte, “herói” — Caroll deu de ombros, já se afastando. 

    Naomi olhou em volta, um pouco nervosa, enquanto se aproximava do balcão. Hiro e os demais a observavam, e então, com um ato de coragem o rapaz caminhou até ela. 

    — Você é nova por aqui? — se aproximou, tentando parecer amigável, embora seu sorriso estivesse mais próximo de um predador. 

    — A-acabei de ser transferida... — ela o olhou nos olhos, que no momento não passavam de uma fera sombria preste a dar o bote. 

    Hiro se aproximou um pouco mais, notando como ela parecia ingênua e inocente. Perfeito. Ele se esforçou para parecer despreocupado. 

    — Então você é uma sacerdotisa, isso deve ser bem útil! — deu um leve risinho. —Você sabe, tem muita coisa pela frente, a guilda precisa de pessoas como você para me ajudar. 

    — Para ajudar a guilda! — interrompeu Caroll — Você deve ser Naomi né? Soube da sua transferência, posso lhe ajudar de alguma forma? 

    — N-na verdade — questionou Naomi. — Me pediram para trazer isso, disseram que era um pedido especial. — Caroll olhou curiosa. 

    — Uou! Isso é um selo real? Você deve ser bem importante né? Posso dar uma olhada? — perguntou estendendo suas mãos e encarando o rapaz no fundo de sua alma. Você não dá uma dentro, não é? 

    — Heh? — o herói se escondeu por de trás da sacerdotisa. 

    — Sr.Bertrand... — sua mão tremia ao ler. — Se alguma coisa acontecer com essa garota em minha ausência, eu mesma o rebaixarei a um nível inferior, tudo bem? — perguntou sorrindo com as bochechas corada. 

    — Que papo é esse? — Hiro saltou em uma tentativa de retirar a carta de suas mãos, quando de repente, “Paff”, um tapa de Caroll o mandara para o chão. 

    — Ao menos tenha modos na presença de algumas garotas! Garotas? No plural? Pensou ele, onde está a segunda? 

    — Parece ser de um convento — continuou ela. — "A quem possa interessar” Uwou! Que chique — pensou. 

    — “Saudações em nome da luz e da esperança” — prosseguiu. — “Escrevo-lhe do Convento de Luminara, onde a paz e a devoção se entrelaçam. É com um coração pesado, mas cheio de confiança, que me dirijo à guilda de aventureiros para que deixem aos cuidados do herói Bertrand essa humilde serva de Gaia.” 

    — Poxa! Vejam só a hora! — disse Hiro saindo de mansinho de trás de Caroll. 

    — Mark! — gritou ela. — Por Favor! — e um grande homem rinoceronte imergiu logo à sua frente. — Homem Hiro, para onde vai? — a criatura sorria com seus dois metros de puros músculos e chifre pontiagudo. 

    — M-Mark? — o rapaz suou frio com um sorriso de canto. — Você está enorme, tem malhado muito? 

   — kamhm! — tossiu a garota ao continuar sua leitura. — “Pedimos que você tome sob sua proteção, Naomi, ajudando-a a navegar pelas sombras que ainda a cercam. Sua sabedoria é essencial para que ela cumpria seu desejo de se tornar uma aventureira, podendo ajudar o maior número de pessoas, e levar adiante a luz que ela representa. Há um conto que narra seus bravos feitos pelo reino, portanto, acreditamos ser a chave para que ela possa encontrar sua verdadeira força.” 

    — Bah! Quantas palavras difíceis, o que significa tudo isso? — perguntou Hiro preso em um mata-leão. 

    — Que você acaba de conquistar o prêmio de 'herói mais improvável”. — Caroll sorria ironicamente. 

    — Que cheiro é esse? — respondeu o rapaz. — Deve ser inveja! 

    — Francamente... — reclamou com as mãos sobre a testa. — Pare de ser um desperdício de potencial! — continuou agora entregando a carta para o aventureiro. — Seja o homem que eu quase pensei que fosse um dia. 

    Hiro, com seu ego ferido e uma expressão cômica, avançou um passo.  

    — Manda isso para cá! — Ele puxou a carta de suas mãos com um olhar transbordando determinação. 

    — Ah... Para onde vamos Senhor? — perguntou Naomi assustada com toda aquela situação. 

    — Ao lugar favorito de todo novato inexperiente! — Para o quadro de avisos! 

    — Vejamos... — Hiro passava lentamente os olhos sobre as quests.: Ninho de vermes? Que coisa nojenta! Goblins? Com uma sacerdotisa? Isso me lembra algo...  

    — Arg! 

    — Hum? — a garota observava confusa.  

    — Ambas as opções... não combinam com uma garota. — respondeu evitando contato visual. — É melhor colhermos plantinhas! 

    — C-Certo! — concordou com um brilho nos olhos. 

    — Seu kit aventureiro está pronto? 

    — Sim senhor! — novamente com olhos brilhando 

    — Hoh! E o que você trouxe?! — O homem berrou empolgado pela atitude da garota. 

    —  Pão! — ela respondeu em posição de sentido quebrando toda a sua expectativa. 

    Hiro congelou em branco por um segundo, ótimo, pensou, vamos enfrentar um monstro com sua baguete enquanto torcemos para ser intolerante ao glúten. 

— Ham...Naomi — disse segurando nos ombros da garota. — Você tem alguma ideia sobre sobrevivência em dungeons, não tem? 

    A garota se encolheu juntando as pontas dos dedos. 

    — Foi o que pensei — respondeu desanimado jogando um saco de moedas — Compre algo que possa te manter viva, como uma poção por exemplo. 

    Naomi olhou confusa para as moedas ainda sem entender. — Já fez compras antes? — perguntou Caroll sorrindo para a garota. — Vai precisar de uma profissional no assunto! — Piscou puxando-a pelo braço e correndo em direção à saída. 

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