Na manhã seguinte, Hiro se sentava preguiçosamente ao lado de uma fonte, observando a cidade ganhar vida com o nascer do sol. As carruagens começavam a circular, e o burburinho de diferentes raças interagindo criava uma melodia caótica, mas reconfortante. Ele esticava os braços, sentindo o calor suave da manhã, enquanto esperava.
Será que compraram algo útil ou só enfeites? pensou, lembrando da animação de Caroll ao sair da guilda na noite anterior.
— Vejam só! — gritou o jovem de um grupo tirando-o das nuvens — É um milagre ainda estar vivo depois daquela luta.
— Tenha mais respeito, ele é um Rank S! — O advertiu uma garota do mesmo grupo inflando ainda mais seu ego.
Hiro sorria sem graça tentando disfarçar o incomodo, o que realmente aconteceu naquela noite te deixariam desapontados.
— S-senhor Hiro... — chamou uma voz familiar puxando-o pela camisa.
— Oh! Você chegou cedo. — disse sorridente ao se deparar com a jovem. — E então? O que trouxe desta vez?
— Ahm... vejamos — respondeu a garota contando nos dedos. — Uma cota de malha, um cobertor, uma adaga pequena, um par de botas e... Espera! Pensou ele ao se deparar com uma lista, ela realmente comprou tudo isso com meu dinheiro?!
— E por fim — Continuou. — Um novo brasão p... para você! — Naomi gaguejou enquanto disfarçava olhando para os lados.
— Um novo brasão? Bom, é verdade que o meu está um pouco gasto, mas não precisava se dar o trabalho de-
— Eu insisto! — gritou olhando no fundo de seus olhos interrompendo-o. — Por favor aceite...
Hiro olhou sem reação ao perceber que sua nova companheira havia se importado com algo tão sutil como uma peça desgastada.
— Francamente... — sorriu de olhos fechados. — Não imaginava que fosse escolher tão bem seus novos itens. Pelo menos não são pães — pensou.
— É MESMO! — A garota gritou em um pulo. — Caroll havia mencionado algo sobre “pagarei com o que ele me deve” ao dono da loja — sorriu dando uma comanda com vários itens sublinhados.
— Como é? — Hiro sacou o papel repleto de compras feitas em seu nome.
— Sabe... nunca colhi ervas antes, para que elas servem... — E de repente a garota se viu sozinha conversando com o vento.
— Estou...falido... Eu estou realmente falido... — repetia em transe enquanto caminhava de forma autônoma para sua missão.
Chegando mais perto Naomi pode perceber o quão grande e assustador um local como aquele poderia ser, diferente dos livros, uma dungeon não era um local pacífico, muito menos amigável, mas sim um berçário de muitas criaturas que se quer ainda fora catalogado.
— Senhor... Hiro, já esteve em uma dungeon antes? — ela perguntou tentando quebrar sua inquietação.
— É o tipo de lugar que prefiro evitar. — Hiro respondeu distraído enquanto olhava para as paredes. — Assim como todos os outros lugares hostis.
Naomi hesitou, mas tomou forças para se abrir. — Sabe... Sempre sonhei em visitar o mundo externo, no convento não podíamos ter contato com outras pessoas...
— Então foi um voto de castidade?
— Não foi isso que eu quis dizer!! — Gritou corada arremessando sua mochila. — Quando recebi a oportunidade de me transferir para esta guilda, pensei que poderia aprender e ajudar as pessoas...
Hiro a ouviu, mas seus pensamentos estavam longe. — É legal — murmurou sem muito entusiasmo. — Ajudar as pessoas.
A jovem o observou, um pouco desapontada. — Não é um sonho para você ser um herói?
Hiro sorriu de forma despretensiosa. — Não exatamente, tirando o trabalho pesado e as exigências, é do jeito que sonhava.
Naomi franziu a testa. — M-mas você é um! — Todos falam sobre isso.
O Homem deu um leve sorriso enquanto procurava por algumas ervas, mas seus olhos traíam a verdade. — É importante levar o dobro do que pediram em seu primeiro dia — Hiro apontou para um aglomerado de plantas não muito longe dali. — Eles sempre pagam bem.
Ela ficou em silêncio por um momento, processando a resposta evasiva. era preciso saber mais sobre ele, mas aquele homem guardava algo com muito mais cuidado.
— Então, o que você realmente pensa sobre tudo isso? — O intimou com uma mistura de curiosidade e expectativa.
— Olha a grana é muito boa e eu amo não passar fome...
E de repente o homem avistou uma pequena e rara slime rosa, fazendo-o parar abruptamente, apontando animado. — SORTE GRANDE! — Gritou soltando sua mochila ao se deparar com uma criaturinha minúscula.
— U-um monstro! — Ela exclamou, já segurando o cajado firmemente. — Deusa sagrada, dê forças aos fracos e ilumine os que pertencem às sombras! Luz divina!
Uma onda de luz explodiu ao redor, deixando o ar quente e o chão salpicado de marcas chamuscadas. Quando o clarão se dissipou, pelo menos seis slimes raras estavam carbonizadas.
Hiro piscou, surpreso e boquiaberto, ao processar o que acabara de acontecer. Naomi, com o rosto levemente corado e um sorriso ansioso, olhava para ele, como um cãozinho pedindo por um elogio.
— E então, senhor? Hein? — Ela disse, balançando o cajado como se já esperasse uma resposta positiva.
— SUA LOUCAAAA! O QUE VOCÊ TÁ FAZENDO? — Hiro gritava em um tom quase de choro, segurando a pequena slime contra o peito e esfregando-a no rosto como se fosse um bichinho precioso.
— Heh? Eu... eu não a matei? — Ela fez uma pausa e se adiantou, com expressão resoluta. — Se... se o senhor permitir, eu cuido dela!
— PARA TRÁS, SUA DEMÔNIAA! — Hiro segurou a slime de costas, protegendo-a como se fosse sua própria cria. — Que espécie de freira é você??
Naomi deu um sorriso de canto, cruzando os braços enquanto observava a cena sem entender nada. Teoricamente, eu sou uma sacerdotisa, ela pensou, sem conseguir disfarçar a inquietação em seu rosto.
— Bem... acho que encontramos nosso lugar para descansar. — Ele disse, largando a criatura e sentando-se em uma pedra plana.
A garota se ajoelhou ao lado, observando-o atentamente. — O senhor parece... desconfortável.
Hiro segurou a slime rosa, tentando ignorar os olhares confusos de Naomi. Ele suspirou profundamente, olhando ao redor da caverna. As paredes eram úmidas, cobertas por musgo brilhante, e o ar carregava um cheiro metálico que o incomodava levemente.
— É este lugar — murmurou Hiro, olhando para a escuridão à frente, onde o túnel parecia se perder em sombras. — Lugares assim sempre me dão calafrios, diferente dos bordéis.
No fundo da caverna, algo se mexeu. Era quase imperceptível, mas o som suave de pedras sendo deslocadas ecoou, baixo e sinistro. Naomi não parecia notar, mas Hiro franziu o cenho por um breve momento, antes de balançar a cabeça e focar novamente na slime, que agora fazia um som engraçado.
— Deve ser só o vento — ele murmurou, forçando um sorriso. Mas na escuridão, algo aguardava, quieto, observando.
O som de passos ecoava pela caverna. Cada pequeno ruído parecia amplificado por todo aquele silêncio. Hiro seguia à frente, segurando uma tocha, enquanto Naomi carregava a slime em seus braços, agora tratada como uma mascote oficial.
— Por que todas as missões fáceis envolvem lugares como este? — Hiro murmurou.
— A luz divina nos guiará, senhor! — respondeu Naomi, com uma confiança que só ela parecia ter.
Antes que ele pudesse reclamar, o chão tremeu levemente. Hiro congelou no lugar, sentindo o frio subir pela espinha. Naomi não percebeu, mas algo na escuridão parecia... diferente. Uma presença. Algo que não pertencia àquele lugar, ou pior, algo que pertencia perfeitamente.
— Naomi... — O homem cochichou tentando não chamar atenção, então apontou para logo à frente.
A garota com os olhos claramente apavorados, respirava de forma ofegante, como se aguardasse o pior.
— Aconteça o que acontecer, não faça barulho em hipótese alguma!
Ela balançou a cabeça, enquanto segurava a criatura com uma mão e tapava a boca com a outra. — MMMMMF!!
O som abafado escapou de sua boca enquanto pressionava as mãos contra os lábios, os olhos estavam arregalados de dor e pânico. Seu corpo inteiro se enrijeceu ao sentir a mordida de um verme em seu tornozelo.
Hiro girou a cabeça instantaneamente para ela, seus olhos estavam cheios de fúria silenciosa. Naomi tentou balançar a cabeça, mas a dor era evidente em seu rosto. A pequena slime ainda se agarrava a ela, emitindo um ruído estranho, algo entre um "glup" e um "ploc".
— Corre! — Hiro gritou, sentindo o pânico apertar sua garganta.
Naomi tropeçou, puxando o cajado contra o peito. — O que... o que é isso?!
O chão tremeu. Algo enorme caía à frente deles, uma silhueta com oito patas e olhos brilhantes que os fixaram em meio a escuridão.
— Filisombra — Hiro sibilou, engolindo seco.
A aranha se moveu rápida demais. Sombras ondularam ao redor, como se a própria escuridão a obedecesse.
— Não vai dar tempo...!
A criatura se movia de forma furtiva pelas paredes enquanto sumia em meio as sombras, a garota, desesperada e já sem fôlego parecia aceitar seu destino.
— Eu... não consigo mais... — Suas pernas cambalearam até o ponto de tropeçar em si mesma, então, com os olhos fechados, Naomi, aguardava pelo pior.
O cheiro metálico do sangue encheu suas narinas. Hiro viu a garota caída, os fios prateados grudados na pele pelo suor e pela poeira. Sua respiração era fraca. Pequena.
Seu corpo deveria se mover. Ele sabia disso. Mas não conseguia.
Seu peito apertou, a garganta travou. A lembrança da luta contra Serpenthrax piscou em sua mente, como um pesadelo que se recusava a acabar. O mesmo torpor, a mesma maldita sensação de que, por mais forte que fosse, não conseguia proteger ninguém.
— Não... de novo não... — sussurrou. Suas mãos tremeram. A visão ficou borrada. — Mova-se, maldição!
Mas seu corpo já cedia ao peso da inconsciência.
Naomi sentiu a teia apertando mais. Seu peito ardia, não de dor, mas de algo que crescia. Algo antigo. Algo... errado.
Sua respiração ficou pesada. O ar à sua volta pareceu esquentar, como se a própria caverna estivesse sendo engolida por um forno invisível. — O que... é isso?
Um arrepio subiu por sua espinha. Não de medo. Mas de familiaridade. Como se aquela sensação não fosse estranha, mas esquecida.
— Você... vai mesmo morrer assim...? — A voz que saiu de seus lábios não era sua. Era mais rouca, mais firme.
Seu corpo tremeu. Mas não de fraqueza.
Logo, uma onda de calor emanou de seu corpo, queimando totalmente as teias ao seu redor. Seus olhos, antes cheios de medo, agora brilhavam em tons vermelhos como brasas incandescentes. Sua voz soou mais firme, quase inumana.
— Não me faça rir! Sua merdinha! —Uma chama ardente parecia consumir cada parte do seu corpo, e, por um instante, ela sentiu como se estivesse sendo empurrada para o fundo de sua própria mente, uma espectadora de algo terrivelmente familiar e assustador
A Filisombra hesitou. Por um instante, as sombras ao redor dela tremularam, como se algo na presença de Naomi fosse contra a própria natureza da escuridão.
Seus múltiplos olhos refletiram o brilho vermelho que agora ardia nos olhos da garota. Mas Naomi não parecia mais uma sacerdotisa.
Ela riu. Não uma risada nervosa, mas um som sádico e afiado, que ecoou pela caverna. Seu cabelo, antes prateado e puro, se alongava em mechas desordenadas, tingidas por um vermelho incandescente. Sua pele, antes pálida como a luz da lua, agora parecia iluminada de dentro para fora, como brasas de uma forja recém-aberta.
Filisombra recuou. Um monstro hesitando diante de uma humana. Mas Naomi não era apenas uma humana naquele momento.
— Sim... sim! — Os olhos dela brilharam com um fascínio insano. — Este é o olhar...
A temperatura da caverna subiu num estalo. O ar ficou seco, e as pedras começaram a crepitar.
— O olhar... de quem finalmente viu a morte!
A explosão veio no instante seguinte. Chamas devoraram as sombras, o clarão iluminando cada canto do túnel. A criatura tentou fugir, mas o fogo a envolveu como se tivesse vida própria, queimando-a de dentro para fora.
O cheiro de carne queimada impregnou o ar.
Hiro, ainda no chão, conseguiu abrir um olho. Tudo estava um borrão incandescente, a luz das chamas tornando difícil distinguir formas. Mas então, ele a viu.
Uma silhueta, cercada por brasas flutuantes. O cabelo selvagem, os olhos brilhando como se tivessem engolido um inferno inteiro.
Ele tentou mover a mão, mas fracassou.
— OW! Herói de merda! — Ela fez uma pausa drástica enquanto explodia em chamas o monstro de dentro para fora. — O chão combina bem com você!
Hiro, antes de tudo, com a visão turva, conseguiu distinguir uma figura envolta em chamas. Ele tentou se levantar, mas seu corpo não obedecia. Então, antes que a escuridão de seus olhos o engolisse, um único pensamento cruzou sua mente: “Quem... é essa?”

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