Capítulo 2
“O Sopro da Primeira Chama”
A luz da tocha oscilava entre as paredes molhadas, projetando sombras ao redor do corpo em que Hiro carregava nas costas. Seus passos estavam mais lentos do que o normal, não por cansaço, mas por um peso invisível que pressionava seu peito.
— O que foi aquilo? — Cochichou, olhando de canto para Naomi, que mesmo desacordada emanava um calor.
Aos poucos, a paisagem de dentro da dungeon começou a mudar. A rocha áspera deu lugar a um solo coberto por musgo espesso e verde, com pequenos arbustos fluorescentes iluminando o caminho. Sons de água corrente vinham de algum lugar mais à frente, e um sutil aroma de flores silvestres preenchia o ar.
— É como um santuário dentro do inferno.
Mais adiante, aventureiros descansavam em meio a uma clareira onde a vegetação se abria, seus rostos estavam cansados, outros ainda adormeciam em volta de uma fogueira, a tensão era palpável, mas ali ao menos existia paz.
— Ei! — gritou alguém. — Essa aí não parece bem... você é o responsável?
Hiro sorriu sem jeito, cansado demais para lidar com a piada.
— Preciso de um relatório, pode chamar seu superior?
— Hmmm depende... qual o nível da urgência?
Hiro, já sem paciência, ergueu a borda da capa com um gesto automático, esperando revelar o brasão platinado.
— Heh ? O que isso deveria significar mesmo? — O outro zombou, encarando o vazio.
O herói confuso voltou seu olhar para o peito, mas já não havia nada, apenas o vazio, um frio que percorria sua espinha. Aquela insígnia não era só uma prova de autoridade, era um presente, uma lembrança de quem ele já foi, ou de quem deveria ter sido.
— Deve ter caído durante a fuga. — Pensou enquanto se revirava por inteiro atrás do objeto.
— Está tudo bem, Henri. Eu assumo daqui — Disse Alexander, surgindo da clareira com sua postura imponente, óculos de lentes redondas e o cabelo preso.
O líder do esquadrão de busca e salvamento de Druval, uma unidade de elite responsável por manter a segurança dentro e fora da dungeon, sua presença bastava para silenciar a clareira.
— Alex... — Hiro suspirou. — Sempre aparecendo quando eu estou no pior momento.
— E você sempre no pior momento, Bertrand. — O homem tentou manter a postura.
— Você fez isso?
— Não!
— E como posso ter certeza?
— Que tipo de homem você acha que eu sou?! — Hiro segurou sua gola, mas largou logo em seguida, cansado.
— Toque leve, Bertrand. — O homem ajeitou os óculos, desconfortável.
Os dois se encararam, como cães que não queriam ceder território. A tensão era evidente, mas havia algo quase familiar na forma como trocavam olhares.
— Estes dois não param nunca? — Os aventureiros se questionavam já incomodados com aquele clima.
— Na verdade... não. Eles se odeiam, mas no fundo precisam um do outro. — Continuou a feiticeira do esquadrão, sentada sobre a árvore fumando um longo cachimbo.
Enquanto os sons da dungeons misturavam-se com todo aquele alvoroço, dentro da cabeça de Naomi, algo despertava em meio a escuridão. Uma silhueta se estendia diante da parede, a criança com os olhos assustados se ajoelhava diante da madre superiora.
— Você é... perigosa, pequena. — Sua voz ecoava fria pelas paredes do convento.
— Mas eu... só queria ajudar. — A menina dizia, encolhida com as mãos envoltas por chamas involuntárias.
— Fogo não é dom, é maldição. Reze, e talvez Gaia a perdoe.
Foram anos de repressão, múrmuros e olhares tortos pelos corredores. Rostos desconfiados faziam Naomi crescer cercada por orações e medo. Ela aprendeu a esconder, não sentir, a suprir e sorrir mesmo quando algo dentro de si queimava como brasa viva.
— Você será enviada para fora. — Disse uma voz jovem. — Talvez lá, aprenda a controlar o caos em sua alma.
— Precisamos selar esta maldição, para que nem você e nem ninguém queime com seus pecados.
— M-mas... como eu...?
— Apenas não falhe, como da última vez. O mundo exterior é vasto e cruel, mas a luz divina à guiará.
A garota, ainda adolescente, segurava um rosário apertado, e em seu rosto, havia pavor disfarçados de esperança.
— Você não estará sozinha. Sua chegada a Druval será anunciada, Vossa Alteza solicitou o melhor entre seus heróis. — A mulher que antes a julgara a abraçou com o peito apertado e os olhos marejados.
— A luz divina... me guiará...
As palavras ecoaram dentro dela como um sussurro distante. Suas lembranças do passado dissolviam-se, e lentamente Naomi retomava sua consciência.
— Isso é impossível. — Alexander cochichava em uma fogueira junto à Hiro. — Fizemos uma varredura... não havia nenhum sinal de desordem nos cinco primeiros andares.
— Ainda não acabou. — O herói agora encarava sua companheira de longe. — Quando despertei, ela ainda estava desacordada, mas... não havia nenhum núcleo em Filisombra.
— Alguém pode ter roubado.
— Alex! Não seja tolo... — Vocês são as únicas pessoas num raio de três camadas.
— Aonde você quer chegar? — Perguntou aproximando-se ainda mais.
— Como uma criatura dessa estava tão longe de casa? — Não só isso... — O fato de precisar de um núcleo significa que—
— Ela já estava morta?! — Alexander agora endireitava seus óculos tentando acompanhar. — Um necromante talvez... mas quem ou o que teria poder para isso?
— Pensei que ter a resposta fosse seu trabalho! — Que orgulho da elite real... — Hiro se levantou em direção a garota. — Mais importante do que iss-
— Hiro! — O homem agora demonstrava uma expressão séria, ainda em volta das chamas, em seu rosto havia dúvidas, mas em seus olhos, estava mais do que claro a ciência de sua falha.
— Este é um caso que deve ser levado à guilda, peço que mantenha em segredo... por um tempo.
— Sabe por que eu escolhi não me formar na academia, Alex? — Hiro disse aquilo sem alterar o tom de voz, mas o peso da pergunta cortou o ar como uma lâmina.
Alexander hesitou por um instante. A fumaça ainda subia dos restos da fogueira, e o calor ao redor parecia dar forma à tensão crescente.
— Porque a academia forma soldados, não pensadores. — Hiro continuou. — Treina homens para obedecer a ordens, não para questioná-las. — Alexander apertou os lábios, mas não respondeu.
— Você é bom, foi o melhor de nós. — Forte, culto, sabe falar bonito. — Mas também sabe o que acontece com peões no fim do jogo, não sabe? — Um silêncio desconfortável se formou.
— Eles... caem primeiro. — Alexander desviou o olhar, e pela primeira vez, não havia resposta pronta, nem correção, nem discurso.
O Herói se virou de volta para Naomi, com um suspiro.
— A gente precisa sair daqui. Quanto mais demorarmos, mais fácil será para quem quer nos ver mortos rastrear o que sobrou daquilo.
Alexander ficou para trás por um segundo, imóvel. O brilho de suas medalhas e insígnias parecia mais opaco do que nunca.

Comments (0)
See all