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sereno [PT-BR]

11

11

Aug 08, 2025

Após o segundo ataque nervoso de Christine, todos concluíram que seria impossível continuar interrogando a menina. A coitada estava em tal situação que mal conseguia soltar duas palavras sem a voz falhar, e, sinceramente, o capitão sentia que já tinha ouvido o suficiente. Logo, permitiram que sua mãe entrasse para acalmá-la, mesmo que de maneira breve — afinal, a ex-sogra de Mikael Prater também tinha obrigações a cumprir.

— Serei o mais rápido possível.

São com essas palavras que Gustave anuncia o início do interrogatório. Por incrível que pareça, elas vêm do fundo do coração. Não por educação, e sim porque após pouco menos de duas horas, ele entende (até certo ponto) o porquê de Mikael não querer viver ali. Ele está doido para ir embora dessa casa, se livrar desse ar sufocante que o cerca para além da tragédia que abateu o lar. Os móveis são mais antiquados do que vintage, ao ponto de parecerem assombrados, e a decoração no estilo “comercial de margarina tão antigo que parece filme de terror” não ajuda em nada. Os azulejos verde-água desbotados, o verniz da mesa repleto de arranhões, a pintura envelhecida da moldura das janelas… a iluminação baixa causada pelo sol poente só deixa a cozinha cada vez mais sombria.

Convenhamos, tudo isso combina com a dona da casa: é possível que Alice Laurent seja a causa desse clima. Nas mãos de outra pessoa, esse poderia ser um ambiente mais aconchegante. Talvez fosse, até semana passada. É difícil adivinhar se as olheiras pronunciadas da madame são características próprias, ou se pioraram desde a última quinta-feira. Do jeito que seus olhos parecem ter cavado seu crânio para se acomodarem, Gustave chutaria que o problema é ela, mesmo. Eles se contrastam frente aos seus lábios inchados, evidentemente artificiais. Putz, ela poderia ter usado a grana do preenchimento para fazer um lift. Seria um uso muito mais eficaz do cirurgião plástico dela. 

Pelo menos o cabeleireiro dela parece saber o que faz, considerando que ela está muito melhor do que a filha nesse aspecto. Não que isso seja difícil, mas a cachoeira negra e sedosa que escorre por seus ombros chega a dar vontade de emaranhar os dedos. É tão falsa quanto a boca, claro, mas pelo menos combina mais com ela.

Mas não é nisso que Gustave deveria focar agora. À medida que ele cumpre os procedimentos padrões, Alice se mostra quase blasé para alguém que está sendo interrogada pela polícia por um desaparecimento e possível morte. Claro, pode ser que a alma dela já tenha saído do corpo há tempos — não é incomum testemunhas dissociarem em tais momentos — mas isso não impede que ele sinta um arrepio subindo pela nuca enquanto assiste o olhar da mulher ficando mais distante a cada resposta. Ela deve estar exausta. Provavelmente está se segurando o máximo possível pelo bem da filha. O que será que ela pensa sobre Mikael Prater agora? Quanto será que ela sabe sobre o relacionamento dele com Christine, ou sobre as noitadas do casal? Como é que ela está lidando com isso tudo quando a filha não está vendo?

Quanto mais ele pensa, mais sente a cabeça pesada e os ombros doloridos. É fácil pegar leve e ignorar detalhes quando está apenas trocando comentários com os colegas na delegacia, mas agora que Gustave está cara a cara com tantas peças importantes na história, uma após a outra, fica mais complicado de acompanhar. Escolhas de palavras, linguagem corporal, como se comportam, como ele se comporta, as reações e reflexões — é muito para conciliar na mente. Ainda mais para um cara como ele, que sempre cuidou do lado burocrático de investigações. Essa parte de lidar com emergências, correr atrás dos outros, lidar diretamente com o público… nunca foi parte do trabalho dele. Ele sabe muito bem como agir por trás das cortinas, mas tem pouca experiência debaixo dos holofotes. E para piorar, como sabem Deus e o mundo, a concentração dele é uma merda. Ele não odeia completamente esse novo papel — porra, até semana passada ele estava implorando para viver algo assim — mas poderia ter sido algo menos brusco, né? Essa semana ele mal teve tempo de cumprir sua rotina básica, vá dizer as coisas que ele gosta de fazer para relaxar… Sair para caminhar, levar o Buddy para brincar no parque, continuar a conhecer a cidade, tomar uma no bar, bater papo com o estranho ao lado dele no balcão, qualquer coisa minimamente divertida. Não tá dando nem para marcar um encontro com alguém, porque quando Gustave chega em casa, a última coisa que quer é passar mais tempo olhando para uma tela. Ele só quer se deitar e apagar completamente.

Cara, que inferno de semana. Já podia ser domingo.

Respirando fundo, ele prossegue:

— Vou recapitular a partir da última vez que sua filha diz ter falado com o Mikael.

— Quinta?

— Isso. Christine me disse que a senhora não estava em casa. Pode me informar onde estava, a que horas chegou, e como a encontrou?

— Claro. — Ela ajeita o cabelo, erguendo a postura. — Cheguei do trabalho às sete, como sempre. Chris estava no sofá. Achei que estivesse dormindo, porque estava tudo desligado e em silêncio, mas… Bem, como ela estava deitada, abaixei para acordá-la, mas a coitada levou um susto danado. Ela estava aterrorizada. — Sua voz treme. — Aí ela viu que era eu, e começou a desabar de chorar. A pobrezinha… Sempre foi tão sensível…

— E como a senhora reagiu?

— Larguei tudo e abracei ela, claro. Perguntei o que tinha acontecido, e ela falou que brigou com o Mikael e eles terminaram o namoro.

— Você perguntou o motivo da briga?

— Não na hora, eu precisava acalmar ela primeiro.

— Mas a senhora perguntou depois, então.

— Só no dia seguinte.

— Então vamos avançar a história. A senhora deixou a residência depois disso?

— Na quinta? Não.

— E na sexta?

— Eu fiquei de home office para poder ficar com a Christine. Sei lá, ela estava tão… transtornada. Chegou a me dar medo. Foi uma luta para ela comer qualquer coisa de manhã, vou te contar. Eu tive que levar até ela, só faltou fazer aviãozinho para dar na boquinha. Nem água ela queria beber. Não movia uma palha! No final, eu levei meu notebook pro quarto e fiquei com ela na cama. Só de tardinha que ela ficou bem o suficiente para levantar e se lavar…

— E a senhora–

Gustave tenta passar para a próxima pergunta, mas Alice não o ouve, ou se importa em fazê-lo. 

— Fizemos o jantar juntas. — Ela continua, pouco se importando com a expressão emburrada que ele para de segurar. — Eu fiz um ensopado de frango e brownies. Ela escolheu um filme na Netflix, e parecia estar um pouco melhor, e quando levei ela para a cama, fiquei fazendo cafuné nela…

Puta que pariu, quantos anos a garota tem mesmo?

— E aí vocês conversaram sobre a briga? — Ele se inclina, falando por cima dela. Alice parece ficar apenas ligeiramente ofendida, cerrando os olhos antes de responder:

— Sim, conversamos. Tentei consolar ela falando que não faltam rapazes por aí, e que ela não ia ter dificuldade para achar um que gostasse dela. Que o melhor jeito de superar um amor perdido é arranjando outro melhor, e por aí vai, mas nisso, a Chris disse que foi ela que terminou com ele.

— A senhora achou que tinha sido o oposto?

— Sim.

— Algum motivo para tal?

Alice permanece boquiaberta por um momento, empunhando um dedo em riste.

— Nada específico. — Gagueja ao iniciar sua defesa. — Eu só achei que– Sabe como esses europeus são, né? Festeiros. Desprendidos. Trocam de mulher como trocam de roupa, talvez até mais frequentemente do que isso.

Eles também fazem isso com os homens, se serve de consolo, Gustave contempla. Mas...

— Não parece ser o caso do Mikael. Christine foi a única menina com quem ele se relacionou desde que chegou, segundo testemunhas. Você lembra há quanto tempo eles estavam juntos?

— Só uns meses, não era tão sério assim.

— Bem, ele chegou em Setembro. Não faz nem um ano que ele tá aqui.

— Sim, mas–

— A própria Christine contou para os meus colegas que ele passou o Natal e o Ano Novo com vocês, ao invés de voltar para a Alemanha.

— Ele nem tinha dinheiro para viajar, pelo que disse.

— Ainda assim. Parece um relacionamento bem sério, ao meu ver. — É necessário admitir que Gustave sente um prazer terrível ao cortar Alice desse jeito, mas ele sabe que precisa se controlar. Guiando a conversa de volta ao assunto principal, afirma: — Mas no fim das contas, foi ela que terminou o namoro. Ela te falou porquê?

— Traição. Não a culpo, nem um pouco. Eu larguei o pai dela pelo mesmo motivo, e ensinei ela a fazer o mesmo se algum dia fosse necessário, independente dela pegar o namorado no ato, ou se ele contar para ela. Tem gente que diz que você deveria perdoar seu parceiro se ele admitir o que fez e te pedir perdão, já ouviu isso? Eu discordo. Você ainda foi corna, de qualquer jeito! Para mim, isso é dar carta branca para acontecer de novo. Se você perdoa uma vez, o que te impede de perdoar duas, três, a cidade inteira? Se você matar alguém, o juiz te libera se você justificar que foi no calor do momento? Dá para evitar ir pra cadeia se você falar que está muito arrependido e que nunca mais vai acontecer?

Tecnicamente, depende muito do caso. No mínimo, dá para atenuar o tempo de condenação, talvez o regime, mas ele não vai entrar na pilha dela. Se tem um tópico que ele evita debater, é esse.

— Senhora Laurent, estamos desviando do assunto principal.

Está ficando difícil de fingir que ele não consegue ver ela revirando os olhos com todo o nojo que cabe no corpo dela, seja nas partes naturais ou artificiais.

— Perdão, Capitão.

— Acontece.

Antes que Gustave possa orientá-la ao próximo ponto que deseja discutir, Alice revela:

— Eu sei que ela mentiu sobre o motivo.

Também, né? Seria preocupante se ainda não soubesse, a essa altura.

— Você sabia quando ela te contou?

— Não.

— Alguma vez a senhora suspeitou que o Mikael e– ou a sua filha fossem usuários de drogas?

— Não, nunca achei que fosse nesse nível, mas sempre achei que ele bebia demais. Também, né? É como dizem. Estereótipos existem por um motivo.

— Christine mencionou que você se preocupava bastante.

— Como não? O garoto veio do outro lado do mundo, sozinho, sem família ou amigos por aqui. Qualquer um ficaria preocupado.

— Como era o comportamento dele perto da senhora? Calmo, ou ansioso? Agressivo? Amigável? Quero que me conte qualquer episódio que tenha chamado sua atenção.

— A gente não conversava muito sem a Christine por perto. Ele nunca foi de se abrir, mas isso é normal, não é? Eu nunca fui próxima de nenhuma sogra minha, nem com a avó da Chris, até porque ela…

— Então não havia nada de suspeito?

— Não. — Após uma pausa, Alice responde num tom tão seco que dá vontade de pegar outro copo d’água. — Nada de suspeito.

Não foi à toa que o marido a deixou. Que mulher insuportável.

— Voltando ao sábado passado. — Gustave prossegue, antes que ela possa começar a reclamar da família do ex dela, ou então de toda a população da Alemanha. — Durante nossa última conversa com a Christine, ela mencionou que você passou a manhã e o início da tarde fora de casa. Onde a senhora estava?

— Eu faço aula de pilates todo sábado de manhã. A mensalidade custa os dois olhos da cara e um rim, então só falto uma aula se o mundo estiver acabando. Depois eu passei no mercado… Ainda não passei as compras da semana à limpo no meu planner, então a nota fiscal ainda deve estar na minha bolsa, se precisarem.

Ah, é claro que ela faz pilates e anota tudo na agendinha. Como ela mesma disse: estereótipos existem por um motivo.

— Ótimo. Depois a gente tira uma foto dela para juntar aos arquivos. — Gustave comenta apenas para que ela não insista no assunto. — Então no início da noite, você e a Christine–

Ele não consegue terminar a frase, interrompido dessa vez pelo próprio celular. Alice cruza os braços, lançando um olhar tão horroroso quanto ela ao aparelho. Gustave, por sua vez, raramente fica tão feliz assim ao ver o nome da Lisa na tela do celular dele.

— Perdão, tenho que atender. — Será que já saiu o resultado do toxicológico? Foi rápido, até mesmo para uma emergência. — Diga, Major.

— Martin, preciso que você volte para a delegacia agora. Pega um Uber ou deixa um dinheiro com o Bouchard, eu pago vocês amanhã. Daqui a pouco vamos mandar um pessoal da noite para trocar de turno com ele.

Agora?

— O Duchamp não chegou? A Leclerc tá onde?

— Os dois estão aqui, mas eu preciso ir e não volto até pelo menos amanhã de noite, então você fica no comando. Não reage, não fala nada para ninguém, mas avistaram o Prater em outra cidade. Se a gente der sorte, consegue pegar ele lá.

— Quê?

— Qualquer coisa eu te aviso, e você me mantém informada também, tá? O pessoal da central já está aqui para me buscar, e o Phillipe também vai, então a Bernard vai comandar o turno da noite. Se precisar de algo, fale com ela. Até!

Ela nem espera por uma resposta antes de desligar na cara dele. Ao menos, agora ele tem uma desculpa para deixar Alice Laurent falando sozinha sobre o que quiser. Coitado do Bouchard.

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AVISO DE CONTEÚDO: Esta história contém menções à temas como vícios (álcool, drogas, jogos de azar), suicídio, homofobia e crises de saúde mental.
Caso necessário, os capítulos possuirão avisos parecidos com esse, de acordo com o conteúdo presente.
Se há mais algum assunto que você acredita que seja necessário inserir nos avisos, por favor, me informe!]
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