'Mo Meiyan.'' Meu olhar deslizavam a silhueta dela sem que eu me desse conta de que eu estava a encarando. Esses pergaminhos, já os li tantas vezes, mas agora as palavras parecem não entrar na minha mente.
Sua punição era ficar aqui e em silêncio, não dormir.
Me levantei devagar e apalpei meu robe levemente empoeirado.
— Senhorita Mo? — A chamei, em tom baixo. Mas a cabeça dela estava tombada para as prateleiras. Só assim para ela ficar quieta.
Eu a deixei ali. Já não era mais problema meu, agora que ela cumpriu a punição.
Fechei as portas da biblioteca ao ver meu pai a frente se aproximando vagamente.
— Filho, mais cedo você pediu para que pudéssemos conversar. O que era? — Ele não perguntou de uma maneira muito calorosa. Seu tom, parecia mais que estava conversando com um estranho.
Eu o cumprimentei.
— Senhorita Mo, já recebeu sua punição. Mas, algo me deixa pensativo.
— Pode dizer.
— Senhorita Yunqi e Senhorita Mo são as únicas mulheres no mundo do cultivo entre os Cinco Principais Clãs. Mas, Senhorita Yunqi não demonstra ser habilidosa em artes da cultivação, então, ela certamente não participará da conferência de nosso Clã.
Lider Ye assentiu com minha observação.
— Está preocupado, que a Senhorita Mo possa passar por maus bocados estando perto de outros membros, por ser a única a estar aqui?
— Sim. — Afirmei.
— Pude ver que ela não tem uma boa relação com outros garotos da idade dela, e que isso realmente poderia ser um problema se ela for distinguida a um quarto sozinha.
— Os Yunqi tem grandes desavenças com o Clã Mo devido a sua baixa classificação. E suas atitudes não são éticas e adequadas. — Meu olhar nunca ia diretamente aos de meu pai. Formalidades em primeiro lugar, sempre.
— Ela é jovem demais. Não ia permitir que ela participasse, mas o Líder Mo insistiu. — ele suspirou baixo. — Infelizmente, não podemos fazer muita coisa no momento.
Ele não deu mais nenhuma palavra. Ficou por isso.
ྉ
Mal percebi que o tempo já havia passado e o céu estava inteiramente estrelado. A brisa gelada me acalmava quando passava pelos meus fios de cabelo, uma sensação de tranquilidade e silêncio.
— hahah...MAÇÃS!
Durou pouco o meu silêncio e quietude. Ao descer os degraus da ponte de madeira e sentir a grama levemente úmida sobre minhas botas, meu olhar se estendeu a jovem garota de hanfu rosa com as mãos esticadas para uma árvore, uma macieira. Os cabelos dela eram castanhos um pouco mais escuros que a íris dela, se eu me recordo, são como a cor de um mel recém extraído.
Ela notou minha presença um tempo depois e abriu um sorriso sútil enquanto fixava aqueles olhos a minha direção. Eu não iria me aproximar, mas meus pés agiram assim que fui notado. Seria falta de educação.
— Por que grita tanto, tão tarde da noite? — Perguntei assim que parei ao lado dela.
— Jovem Mestre, a árvore daqui está cheia de maçãs! Vocês não colhem? — Ela perguntou despretensiosamente, quando minha mente procurava pela resposta. Eu a encarei por um momento e depois olhei para a árvore de folhas tão verdes quanto a grama.
— Não colhemos. — Era o que eu achava, ninguém tinha o costume de sair colhendo frutas. Acho que não sabem que são árvores frutíferas.
— Elas estão tão, tão vermelhas! É um grande desperdício deixá-las aí.
Eu dei um passo à frente, próximo a árvore, mas está garota já havia disparado e estava já na metade do tronco.
— Está tudo bem, Jovem Mestre Ye! Eu já perdi as contas de quantas vezes, eu já escalei uma árvore a procura da minha espada.
— Sua espada? — Estranhei.
— Eu tenho costume de jogá-la para cima e deixá-la escondida no meio das folhas.
Eu me encostei no tronco da árvore, cruzei meus braços enquanto meu olhar acompanhava seu movimento até ela se sentar e conseguir colher uma fruta.
Não precisei perguntar seu motivo e também não queria. Mas, ela foi mais rápida.
— Regra número três em uma caçada. Nunca, nunca deixem que te veja que está armado. — O tom dela era firme e confiante.
— Qual a lógica?
— Simples, você verá que lhe empunhará pelas costas.
Dessa vez eu estava curioso. O que uma garota de dezessete anos havia passado, ao ponto de criar regras de sobrevivência?
— Vou te acompanhar ao quarto que você vai ficar. — Sai de perto da árvore, meus olhos, agora verdes, estavam fixos aos amarelos dela. Ela...estava rindo.
— Não preciso de companhia. — Ela desceu da árvore rapidamente e com cuidado. — Eu ouvi sua conversa, Jovem Mestre Ye. Eu agradeço verdadeiramente sua preocupação, mas eu sei me virar com essas pilantrinhas, hehe.
— Eu-
Ela me jogou uma maçã-verde.
— Tome, eu até poderia te dar uma vermelha e docinha. Mas, se for julgar pelo seu humor, você combina mais com a verde.
Quando achei que ela já havia passado por mim, me deparei com ela logo atrás. Me assustei por um momento, mesmo mal reagindo.
— O que significa os verdes? — Despretensiosamente, ela perguntou.
— Natural. — Respondi de maneira simples.
— Ahh...faz sentido. Como isso é possível? O que você é? Você é um cultivador normal?
Ela perguntava cada vez mais, eu...acabei colocando aquela maça verde entre seus dentes. Uma forma de a silenciar.
— Regra do Clã Ye: Não pergunte demais sobre a vida alheia.
Puff!!
A maçã bateu em meu peitoral e caiu entre meus pés.
— Regras e regras. Só vive de regras?
Eu não entendi a risada dela. Ela sempre está rindo da maioria das minhas perguntas.
Não a respondi, e ela também já havia dado as costas para mim.
ྉ
No dia seguinte, todos os discípulos estavam já reunidos para a conferência. Não estou acostumado a ver tantas cores em um só lugar, isso quando não é em competições de caçadas.
— Pode guiá-los, Yuhan?
Depois que meu pai me direcionou a ordem, assenti com um aceno e caminhei devagar e ereto em meio aos jovens. Os rapazes eram da minha idade, outros um ou dois anos mais novos. Os olhares estavam sobre mim até que passei pelos grandes portões brancos, ouvindo os passos constantes atrás de mim e murmúrios.
Os olhei de meia-esquina. Eram conversas paralelas e sem sentido. Quando retornei meus olhos a frente, nos trilhos da floresta, avistei ela mais uma vez. A garota estava brincando com uma trança no cabelo.
— Jovem Mestre Ye. — Um discípulo chamou minha atenção. — Você os trouxe para ajudar a capturar os monstros no rio?
— Sim. — Respondi. — Ver habilidades.
— Ah, por isso os trouxe para as criaturas mais fáceis.
— Aquela garota não vai participar? — Yunqi Wenhua perguntou.
— Regra do Clã Ye, seja educado. Meça as palavras rudes ao se referir a alguém. — Murmurei baixo, e direcionei meus passos à frente, tendo a minha vista uma ponte de madeira larga com alguns barcos encostados. Além disso, o lago estava brilhando excepcionalmente hoje. Acho que é por causa da chuva de ontem.
— Yuhan, aonde vamos primeiro? — perguntou um dos discípulos atrás de si.
Ele desviou os olhos da garota e respondeu com firmeza:
— Rastreamento.
— Jovem Mestre Ye, não acho que seja muito seguro ir a meio do riacho. — Comentou outro discípulo. Eu não havia entendido.
— Como Jovem Mestre sabe, as criaturas estão aumentando cada vez mais ao redor de Jinshen. Se não formos cuidadosos, pode haver uma catástrofe.
— Não fui informado. — Minha voz soou com mais rigidez. — Por que?
Quando os vi abaixar a cabeça, entendi que isso parecia mais uma ordem. Suspirei quase imperceptível.
—... — ela suspirou ao seu lado. Não notei que havia se aproximado devido aos seus passos cautelosos. — Lugar bonito. Certo, monstrinhos. O piquenique chegou!! Haha
— Não vamos. — Murmurei, voltando para trás.
— Ah?? Como não!? Eu estava doída para me amostrar na espada. — ela bufou.
O vento soprou forte, e a faixa no cabelo dela esvoaçou até quase tocar meu rosto. desviou os olhos de novo. O brilho do sol refletiu sobre a íris dela por um momento.
Ela deu um passo à frente, encurtando a distância.
— Está os filhos dos Cinco Principais Clãs aqui, reunidos. Pretende voltar sozinho depois de nos deixar lá com a cara enfiado nas inúmeras regras, ao invés de nos pedir ajuda? As habilidades deles não são ruins, de acordo com a classificação do tópico. O que custa?
Não a respondi, pelo contrário, a ignorei. Mas, parece que os outros haviam concordado com ela, apesar de estarem em silêncio.
— Podemos acompanhar, Jovem Mestre. Nos encarregamos de ficar de olho em cada grupo. — Um discípulo mais velho se ofereceu. Minha resposta veio em um aceno de cabeça.
— Quem é o terceiro no tópico? — Ouvi a pergunta sair dos lábios da Senhorita Mo. — Por que não nos separamos de acordo com a classificação?
— Não seria melhor cada um dos melhores ir com os menos habilidosos. — Alguém sugeriu.
— Vocês ganhariam experiências e melhorariam suas habilidades. Mas, vai de acordo com o que for decidido.
Eu já estava avançando para a ponte, e a um pé dentro da balsa. Foi quando, me virei para trás e estendi a mão despretensiosamente. Mo Meiyan, você vai comigo.
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