Cara estranho, nunca sei o que ele está pensando. Não era mais fácil dizer 'Escolhi ela para vir comigo', mas não!
— Então é você quem está em primeiro lugar, hm? — Perguntei a ele, com uma leve cutucada em seu braço. Acabei ouvindo a fofoca dos demais, e por acaso mencionaram quem era o habilidoso.
Eu não tive minha resposta, ele estava calado. Novamente! Minha punição já foi concluída, mas por que eu ainda tenho que ir com você!?
Respirei fundo e me sentei no chão mesmo, enquanto o bote se guiava até o horizonte.
— Criaturas, hm? Que tipo? Grandes? Pequenas?
— Não tenho certeza. — Ele respondeu friamente.
— Tch...espero que esse seu 'não tenho certeza' não me engula viva. — De repente, me veio uma dúvida. — Por que me chamou?
— É boa.
— Como você sabe? Só viu meu placar, mas nunca me viu lutando. — Despretensiosamente, meu sorriso escapou dos lábios e eu blefei. — Ahh, deve ser pelo mesmo motivo de terem me designado a um quarto ao lado do seu. Não estou certa?
Ele parecia ter se engasgado com a saliva
— Hahahahah eu estava só brincado! É sério!??
Ele não respondeu, e então o som da água em movimento preencheu o silêncio. Até o momento, não notei nenhuma ameaça presente, achei que estariam mais próximos de Jinshen.
— Jovem Mestre Lin, não sabia que íamos tão longe assim. Nem vejo mais a ponte de tão rápidos que fomos.
Eu arregalei meus olhos imediatamente. Cantei a vitória cedo demais? Por que eu estou vendo um par de olhos brancos virados para mim!? Garras na borda da balsa como se algum bicho nojento estivesse tentando subir.
— YUHAN! — Gritei com todas as minhas forças assim que me levantei, minha mão apoiou aos ombros dele e empurrei-o para trás. A minha outra mão, eu estava segurando minha espada já desembraiada. Ela era linda, em seu punho era rosa com uma pedra da mesma cor no acabamento. A lâmina passou rápido naquele braço cinzento e de unhas grandes. Era nojento! Parecia uma alga-marinha, mas viva e em corpo de uma pessoa.
— Não o toque! — Recebi um alerta. Mas não compreendi o que ele quis dizer. — Não toque na pele ou deixe o sangue espirrar.
— Então você sabe o que é- — Antes de qualquer coisa, a balsa começou a se movimentar freneticamente. Era impossível manter meu equilíbrio nela. A balsa está para virar!
A balsa se ergueu de um lado, rangendo. Cravei minha espada no chão, do outro lado tentando pressionar com força e evitando que fossemos jogados a mar abaixo. Mas meus pés estavam molhados e escorregadios, e meu corpo foi lançado para o lado. Yuhan, senti seus dedos quentes segurarem minha cintura e ao mesmo tempo vi que havia passado a lâmina gélida dele no rosto de uma dessas criaturas marinhas.
Finalmente eu vi como elas eram. Nojento e gosmento. Havia veias escuras rodeando o corpo nu dele, magra e... verde? Os olhos, não tinha nem isso. O que é exatamente esse bicho?
— Ye Yuhan, está tremendo. — Reparei ao me distanciar dele.
— Jovem Mestre, Jovem Mestre!! — Os discípulos estavam vindo logo atrás, junto com os demais garotos.
— Não!!! Não venham! — Acenei, movimentando as duas mãos. — É perigoso vir todo mundo!
As garras nojentas continuavam a se agarrar na madeira, rangendo. Dessa vez eram muitas em cada borda. Eu estava ficando enjoada, e nem comi nada na parte da manhã. Que frustrante!
— Está bem, colegas. — Apontei minha espada rosa para uma das inúmeras mãos, e sorri. — Jovem Mestre, me dê cobertura?
Ele assentiu com a cabeça e ficou a minha frente. Eu sorri, finalmente nos entendemos em alguma coisa. Usei suas costas para me impulsar a subir no telhado da balsa, e assim segurei firmemente na madeira. Me senti um pouco mal, meus chutes costumam ser dolorosos mesmo que não sejam no propósito de machucá-lo.
Meu hanfu se movimentava muito com a brisa, eu precisava ter cuidado para não pisar.
Minha espada rapidamente cortou a garganta do primeiro que ousou se aproximar de mim. Meus movimentos são rápidos e leves, então tudo saia naturalmente quando eu estava muito bem focada. Todos os monstros começaram a escalar, sinto que estávamos a ficar encurralados.
Tenho um método, mas não posso usá-lo. Não aqui.
E nem precisei, um brilho chamou me atenção e me cegou por curtos segundos. Yuhan cravou sua espada no chão do barco e usou boa parte do seu poder espiritual para criar uma distração. Ele realmente era bom, por que eu me esforcei tanto atoa, se ele podia fazer aquilo?
Os outros discípulos Ye chegaram para ajudar, não permitindo que os outros também viessem. Imagino que ninguém queira se responsabilizar se um deles morrerem.
— AAH!
Meu coração disparou assim que senti uma mão gelada agarra meu braço. Eu queria vomitar! Empunhei minha espada com toda a força que tinha e cortei rápido. Tirando aquela mão gosmenta da minha pele. Mas, ainda estava com algumas gosmas verdes pregadas a minha pele.
Eu apavorei, logico que eu apavorei!! A primeira coisa que me veio em mente foi: "Não toque na pele... e nem deixe o sangue espirrar"
Pulei para trás, tentando limpar o líquido pegajoso.
No momento em que eu mais me senti fraca, senti um aperto confortante e um cheiro de incenso. Não sei...não...sei
ྉ
Quando meus olhos finalmente se abriram, me sentei abruptamente. Sem monstros, sem água. Estou em um quarto, e eu estou a salva. Estou viva? Eu estou viva.
Uma luz azul logo se cessou após meu movimento brusco.
— Você acordou. — A voz é do Yuhan? Minhas vistas...estão levemente embaçadas, mas consigo ver um homem de cabelos prateados.
— É o efeito do veneno. Não vai te matar. — Após dito. Bufei baixo.
— Na próxima, não me diga essas coisas! Isso só me deixa ainda mais tensa.
Eu tentei sorrir, mas a cabeça latejava.
Ele soltou um leve suspiro, pude sentir seu hálito quente roçar sobre meu rosto. Ele estava perto?
— Consegue ver algo?
— Ah...mais ou menos. Deu tudo certo? Por que não me disse que você era ágil!?
— Não queria se amostrar? — Ele perguntou. Eu realmente disse que queria me exibir com minhas habilidades, mas não assim!
Ele prosseguiu.
— Deu certo, os outros ajudaram.
— Hm. — Meu murmuro soou um tanto decepcionante. Dessa vez, não estava com ânimo. Talvez seja por causa do veneno? Suspirei. Não faço ideia.
— Tem razão.
Ergui meu rosto, minha vista foi se recuperando aos poucos pude ver os...azuis. Seus olhos estavam azuis. O que significa?
— Razão no que?
—É admirável as habilidades.
A luz azulada da lâmpada tremeluziu suavemente. Ele estava de pé, perto da porta do quarto.
— Obrigado. — Não pude deixar de agradecer. Eu estou tendo noites tranquilas e sem perturbações, graças a ele.
— Você deveria descansar mais — murmurou ele com a voz baixa.
— Aqui não é o meu quarto. — Fui me descobrindo, no intuito de me locomover ao outro. Mas, ele me impediu em uma simples palavra:
— Fique.
Ele...eu não o entendo.
∴━━━✿━━━∴
— Fui avisado do ocorrido. Por que os levou até lá? — Apesar da voz de meu pai ter soado baixa, foi um tanto frio e ríspido.
— Eu não estava ciente das causas. — Ergui minha cabeça, meus olhos cinzas fixos ao homem sentado à minha frente com a postura ereta e deslizando a mão na barba. — Desculpe.
— Essa é a primeira vez que você me decepciona.
Eu não sei no que eu o decepcionei. Mas...
— Desculpe. — Curvei meu corpo após o outro pedido de desculpas. — Estarei mais atento.
Ele assentiu. Como não havia mais a ser dito, direcionei-me a saída.
Caminhei em silêncio pelos corredores, e fechei a porta de madeira maciça atrás de mim suavemente. As paredes cobertas de pergaminhos e livros. Eu particularmente, gosto de ficar a biblioteca.
Suspirei e rodeei o cômodo até me deparar com uma mesa de caligrafia, sobre ela, estava pousados um papel velho e um pincel.
— Jovem Mestre. — Alguém bateu suavemente na porta. Meu olhar rapidamente se direcionou a madeira que foi abrindo suavemente. — Sobre o que aconteceu, mandará algum de nós para avaliar a situação?
Era um discípulo, suspirei e fechei os olhos por um momento.
— Só avaliem, cuidarei do resto amanhã. — Ao me sentar na almofada, apoiei meus cotovelos sobre a mesa e meu queixo sobre a mão. — Como ela está?
— Ela...? Ah, Senhorita Mo disse que se sentia tonta. Jovem Mestre, ela realmente desmaiou por causa do toque da criatura?
— Não. — Abaixei a cabeça, meus lábios tremeram. — Há uma macieira aqui em frente. Apanhe algumas e coloque-as a uma cesta.
— Sim, Jovem Mestre. — Após o garoto dar o seu cumprimento. Vi as portas se fecharem mais uma vez.
Observei meus próprios dedos que giravam o pincel e me olhei pelo reflexo da água no balde, ao lado da mesa de caligrafia. Meus olhos, estavam azuis.
∴━━━✿━━━∴
— Falta de nutrição? Então, aquele monstrengo nojento, gosmento e asqueroso, não ia me matar ao me tocar!? Eu não acredito! — Me levantei tão rápido que senti minhas pernas se bambearem e minha visão ficar turva. O discípulo Ye rapidamente estendeu a mão, mas logo recuei.
— Senhorita Mo, não leve meu Jovem Mestre tão a sério. Quando cheguei aqui pela primeira vez, ele... — o jovem se aproximou de mim e sussurrou. — disse que tinha homens atraído por mim.
— Pff.. Como!? — tampei meus lábios.
— Foi um tanto vergonhoso! Não sabe com fiquei no dia seguinte, encarando um por um, me perguntando quem era essa pessoa. Foi aí que ele apontou para os céus e disse: Eles. Os Deuses.
— Não imaginava que ele fosse assim. — Eu realmente estava surpresa. Mesmo que a piada dos Deuses fosse terrível.
— Ah, as vezes ele é assim quando quer quebrar o clima tenso. Sabe, por causa do pai dele.
Inclinei a cabeça.
— O pai dele? Não parece ser uma pessoa tão terrível assim. — Meu pescoço já estava doendo de ficar olhando para esse discípulo que era um tanto alto. — Quando tive problemas aqui no primeiro dia, ele não me puniu severamente e ainda me ofereceu um quarto próximo.
— Ele ou o Jovem Mestre?
— Não entendi.
— Ele te trataria como nós, independentemente do que ou de quem for, seguindo as regras e como deveria ser punida. Te faria ajoelhar na frente de todos durante um bom tempo. O Jovem Mestre, por outro lado, interferiu. Ele mesmo te levou para a biblioteca.
Ergui meu olhar, como se estivesse tentando assimilar as palavras que começaram a ecoar na minha mente. Me ajeitei ao sentar na cama, com a postura ereta.
— Como são as coisas por aqui?
— A disciplina é severa, Senhorita Mo. Um Líder como ele, se já pega pesado conosco em questão de regras, imagina com o próprio filho?
— Consigo imaginar. — Respondi de cabeça baixa. Com dificuldade me levantei. — Temos algo em comum.
Antes que eu pudesse passar pela porta de madeira, o discípulo me chamou, virei-me devagar na direção dele.
— Ele pode parecer frio e arrogante, sem paciência e até mesmo um...esquece, mas ele é uma boa pessoa.
— Por que me diz isso? O que eu tenho a ver?
— Ele costuma conversar com pessoas mais velhas, sobre reuniões e essas coisas de futuro Líder. Jovens da idade dele, como nós, é difícil.
— Jovem Ye. — Cruzei meus braços e olhei para os olhos castanhos dele direcionados a mim. Dei alguns passos perto deste e pude reparar um pouco mais em sua aparência, ele é bonito e os cabelos eram pretos, longos e quase todo solto. — Sejamos sinceros, acha que dá para fazer amizades com esses filhos dos Líderes? No lugar dele, até eu mesma iria preferir conversar com os velhos.
— Mo Meiyan, tentar bancar de heroína não dá certo com você. — Alguém riu ao passar pelos corredores, nem precisei virar o rosto, posso reconhecer a arrogância de longe, Yunqi Wenhua. Por que ele não é igual a irmã?
— Está vendo? Se eu pudesse também ficar quieta na minha como seu Jovem Mestre, os céus me concederiam a paz. Mas, ainda preciso sobreviver, não é?
Suspirei, cansei desse assunto.
— Quero ir com vocês até o riacho, posso?
— Senhorita Mo...
— Sem ''mas''. Eu vou e pronto. — Quando me virei abruptamente, me deparei com o peitoral de alguém no meio do meu caminho. Quando ergui meu olhar...Yuhan.
— Encerre as verificações por hoje. — Ele direcionou as palavras ao discípulo, que imediatamente assentiu com a cabeça.
Eu o encarei, já que ainda estava parado a minha frente e as mãos apoiada a madeira da porta.
—... — Ele me encarou de volta, não tive uma reação repentina, não dessa vez. Mas logo recobrei a consciência e passei por baixo de seu braço, no intuito de sair daquele quarto.
— Vai escurecer logo. — Ele disse enquanto eu pisava nas tábuas do corredor.
— Isso não me impede de nada.
—...
Eu não o ouvi dizer mais nada.
—... — Eu também não quero dizer mais nada. Por que eu estou o tratando com indiferença? Qual foi!? Eu não sou assim.
Imediatamente parei meus passos. Me sinto humilhada, por isso estou o tratando de forma tão ignorante. Suspirei.
Deixa para lá. Segui em frente, sentindo o olhar dele sob minhas costas, mas isso não me impediu de descer os degraus e cruzar com o pátio. Avistei alguns discípulos que me cumprimentaram de forma casual.
Os discípulos de Mo não andam comigo, por ordem mesmo. Às vezes, não gosto muito de companhias que usam o símbolo dos Mo, será desprezível da minha parte?
Suspirei mais uma vez. Caminhando por aquele mesmo trilho da floresta e a luz do sol que estava a se por refletia lindamente sobre o riacho na quietude.
Lutar com esses monstrinhos ou aproveitar esse silêncio e bela paisagem? Vamos lá, Mo Yue. Anime-se.
Talvez eu estivesse mesmo procurando por silêncio.
Abaixei minha cabeça, estou cheio de suspiros hoje. É tão...tão cansativo!
Está bem! Vou subir esses barcos e mostrar para essas pessoas quem...
Assim que coloquei um dos pés sob o barco, algo me puxou para trás, pelo braço. Senti o aperto leve, me impedindo de cometer uma burrada comigo mesma.
Meus longos cabelos foram caindo em meus ombros e minha visão foi reconhecendo aquele homem de cabelos prateados aos poucos.
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