Finalmente o céu começou a se pintar em tons de laranja, o que significava que estava anoitecendo, e o tempo estava passando!!
Mas também ia começar a esfriar, e eu estou exausta. Por sorte após passarmos por um campo de bambus que balançavam com o vento, notei o contorno de algumas construções logo a frente.
— É uma vila? — Ergui meu corpo um pouco para ter mais visão.
— É a vila Hengshu. — Renjie educadamente me respondeu.
— Isso não é perto da sua região? — Olhei para o rapaz assim que paramos na entrada da vila. Todos nós descemos dos cavalos.
Minhas pernas já estavam dormentes.
— É parte da região. São receptivos, então não se preocupem.
Yuhan não disse nada.
Assim que cruzamos a entrada, o cheiro de comida quente e madeira queimada invadiu o ar. Lanternas alaranjadas começaram a acender, uma a uma, penduradas entre os postes e beirais das casinhas. Algumas crianças corriam descalças entre os becos, rindo, enquanto um velho senhor alimentava as chamas em uma fornalha improvisada.
— Deve ter uma estalagem, então. — Bocejei. Eu realmente estou exausta e faminta!
Enquanto eu puxava as rédeas de Yueyue, acariciei o pescoço dela algumas vezes.
— Você não é típico de falar muito. — soltei, sem pensar.
Yuhan entendeu que aquelas palavras se direcionavam a ele, então virou o rosto a mim e apenas andou até a égua, soltando das minhas mãos as rédeas e passando a guiá-la ele mesmo.
Fiquei ali, de boca semiaberta, com um "oi?" na garganta e o orgulho todo revirado.
— ''Pode deixar que eu levo ela para você'', nossa como você um tanto GENTIL! — Quase cuspi no chão e logo fui cruzando os braços.
Renjie riu baixinho, e balançou a cabeça.
— Vocês...
— Eu te disse, há momentos que nos desentendemos.
Quando chegamos a estalagem, eles foram os primeiros a entrar. Eu por outro lado, queria ficar um pouco mais pelo lado de fora, então me sentei no degrau e encostei a cabeça na parede.
— Meiyan, não vai entrar? — Renjie perguntou, senti o tom de preocupação. Mas eu abanei a mão e disse:
— Depois, podem ir na frente.
Deixei a brisa noturna movimentar meus cabelos suavemente. O céu estava estrelado e as ruas movimentadas e iluminadas pelas lanternas.
Olhei para os cavalos que foram amarrados a frente do estabelecimento, e então suspirei:
— Yueyue, você não quer ir no meu lugar, hm?
Em meio ao meu silêncio, meus ouvidos acabaram escutando o som de uma bela melodia. Era flauta, sem dúvidas, eu adoro!
Me levantei abruptamente e desci os degraus. Virei-me de frente ao estabelecimento enquanto andava de ré, tentando avistar a pessoa tocando a flauta. Estava vindo de uma das janelas.
Foi quando eu menos esperava, ou melhor, quem eu menos esperava! Ye Yuhan! Tocando uma flauta que era bem branquinha. Ele parecia estar sentado a uma cama ou cadeira, mas dava para ver a silhueta ele com facilidade se afastasse mais um pouco.
''Ela é tudo que eu tenho...
Minha visão...esses pozinhos azuis saindo dos lábios dele estão me deixando...
...''
Suspirei baixo e meu olhar foi ao chão.
— Senhorita, é nova por aqui?
Alguém me chamou em meio aos constantes suspiros. Quando olhei para o lado, vi um senhorzinho segurando um cesto cheio de doces. Parecia cansado..eu quero chorar.
— Na verdade, estou apenas de passagem com alguns amigos.
— Se for querer conhecer por aqui, chame um deles para lhe acompanhar. Andar por essas áreas está um tanto perigoso, principalmente uma jovenzinha como a senhorita.
— Perigoso? — Ouvir isso foi um tanto estranho. Não estamos na área dos Jiang? Então logo o questionei ao encará-lo. — Perigoso como?
Ele se aproximou vagamente e sussurrou.
— Está havendo desaparecimento do nosso povo. Os guardas e o Líder Jiang estão encarregando de nos ajudar como pode, mas parece que isso é um tanto desconhecido, não só para nós pessoas comuns, como para eles que são grandes cultivadores.
Notei que os olhos dele se preencheram de lágrimas. E os meus também!! Aaahh!!! Não acredito que vou chorar por ver um velhinho vendedor de doces chorar!
— Eu perdi minha esposa e filha com essa praga que nos rodeia... — ditou ele com a voz trêmula. — nada me resta, a não continuar a viver com saudade, na esperança de que elas voltem, independente como. Até lá, vou ter juntado um bom dinheiro para comprar a elas uma boa refeição.
Senti o olhar dele sobre mim.
— Senhorita, não chore com uma história de um pobre velho.
Sniff..sniff...
Quando ergui minha cabeça, meus olhos marejados quase não me deixavam enxergar nada por estarem bem embaçados.
— Haaa...isso é tão triste~
Enxuguei as lágrimas e respirei fundo.
— Senhor, na verdade eu também sou uma cultivadora, então...eu juro, EU JURO que vou encontrar elas! — em meio a promessa, ergui dois dedos ao lado da minha cabeça. — Eu nunca descumpri uma promessa.
Eu não sei se ele acreditou em minhas palavras, mas ao menos ele soltou uma risada e me entregou três balinhas de caramelo.
— Oh... — curvei o corpo. — obrigado, senhor.
Ele não disse mais nada, passou por mim e sua silhueta foi sumindo com a multidão. Quando meu olhar passou para a entrada da estalagem, pude ver um homem alto parado nos degraus e me encarando.
Enxuguei meu rosto molhado e direcionei até ele com um curto sorriso nos lábios.
— Gosto das pessoas daqui, como Renjie disse, são um tanto receptivos. — Estendi a mão com as balas. — Olhe, ganhei doces!
Ele não me disse nada, só me olhou com uns olhos...cinza. O que o cinza significa?
— Por que prometeu a isso? — Yuhan perguntou, de forma um tanto sereno.
— Porque eu vou cumprir, e mesmo se eu não pudesse fazer... — me sentei no degrau, olhando para as balas que ganhei. — Ele não perderá as esperanças.
Fechei o punho, e meus olhos também se fecharam com força.
— Isso me faz pensar que outros Líderes também devem saber do Moyu, mas estão resolvendo em um certo sigilo. Por quê...? Por que exatamente esconderiam uma coisa tão grave?
Senti um tecido roçar em meu braço, e ao olhar para o lado...Yuhan se sentou perto de mim. Sorri por um momento e estendi a palma da mão na direção dele:
— Pegue.
— Por quê?
Virei o rosto tão devagar quanto uma tartaruga, indignada com a pergunta dele. Que motivos eu teria para oferecer um doce para alguém!? Que cara estranho.
— Eu estou te oferecendo um doce porque eu quero te dar. Tch...não quer!? Só pegue logo!!
Senti o toque dos dedos dele roçar a minha pele ao pegar uma das balas. Ele...encarou a bala??
— Ela não vai te matar. — O encarei por um momento, ele realmente parecia intrigado pelo doce mesmo que sua expressão serena não demonstrasse tanto.
Os olhos dele... ficaram verdes.
Espero que isso seja algo positivo. Estou farta de negatividade essa semana.
— Sabe, eu tenho uma leve dúvida. Bem leve e pequena mesmo! — Apoiei a palma da minha mão nas tábuas atrás e inclinei um pouco meu corpo. — Por que Jiang Renjie veio?
Ficou em silêncio por um momento, mas...
— Estavam todos no pátio quando pedi permissão, ele se ofereceu a ir.
— Mencionou meu nome? — perguntei de repente. E isso não teve resposta.
Abaixei a cabeça. Eu sei a resposta, e consigo imaginar que de alguma forma, evitou mencionar que eu fosse.
— Líder Ye me odeia, não é?
Isso foi o suficiente para que ele me encarasse nos olhos. Agora sim, ele demonstrou alguma surpresa.
— Pois é, eu...acabei ouvindo o que conversaram ontem, depois que você fez aquilo..
—...
Pude ver os lábios dele se abrindo, tentando me dizer algo, mas...
— Aii, seu pai é muito mente fechada, não é? Eu te considero apenas como um irmão. Ele tinha que ser tão ríspido com você? — joguei uma das balas para dentro da minha boca. Tão docinha!! — deveria dizer a ele que ficou com pena do que eu te contei durante minha punição. Você só quis me ajudar.
— Mo Meiyan.
— Hm? — O encarei, não era muito comum ele me chamar assim de forma tão...fria. Mais frio do que costuma ser.
Ele está franzindo as sobrancelhas. Ele está bravo?
— Está tarde.
Respondi sem pensar:
— Não vou dormir em um quarto em que vocês dois estão, vão roncar a noite inteira!!
— Ele ficou em um separado.
Após a afirmação dele, fiquei em dúvida se eu também ficaria em uma sozinha.
Mas, por minha sorte, ou talvez não, eu não vou dividir o quarto com os dois. Fui deslocada a um quarto junto com o Yuhan. Não sei como decidiram que fosse assim, e ele também não me disse o porquê. Mas isso não é ruim, de qualquer maneira, eu dificilmente cairia no sono estando sozinha em um quarto onde a tranca do quarto pode não funcionar tão bem e as janelas podem ser um tanto fáceis de alguém entrar.
— Acho que quem mais precisa de descanso é você, Yuhan. — Ditei após empurrar a porta do quarto e fechá-la. — Sinto que teve uma péssima noite e deve estar com o corpo todo dolorido.
— Estou bem. — Ele assentiu após se sentar atrás de uma mesinha de chá. Enquanto eu, me direcionei ao colchão de tecido branco e liso.
— Eu ouvi a melodia. — Deitei-me devagar, apoiando a cabeça no travesseiro macio. — Ela é tão linda, quem compôs?
Não precisava de respostas, a cabeça baixa dele já parecia ter me dado a resposta.
— Realmente os Ye são uns gênios. Eu já tentei tocar flauta, mas não deu muito certo.
∴━━━✿━━━∴
Pela brecha da janela, avistei uma borboleta-fantasma cor de rosa sobrevoando pelo cômodo. Eu estendi o dedo, e ela pousou.
Ouvi a risada da garota na cama, deitada e virada pelo lado oposto.
— Vocês devem me odiar já que priorizam o silêncio e disciplina. Eu não vou negar, eu mesma admito que as vezes posso ser impulsiva e sem pensar já estou fazendo o que eu quero. Dizem que pode ser um defeito, outros dizem que pode ser uma qualidade, mas depende muito de como você usa a sua impulsividade.
Eu sei que é impulsiva. Pensei nisso enquanto, de longe, observava as costas dela.
A borboleta em pousou ao meu dedo mexia as asas freneticamente.
— Mas sabe Yuhan, minha personalidade impulsiva nunca fez mal a ninguém. Eu nunca ofendi alguém de propósito, ou apontei minha espada para um inocente.
Eu acredito. Assenti com a cabeça.
A borboleta voou do meu dedo assim que desviei o olhar.
— Deveria dormir.
Cruzei os braços e encostei as costas na parede ao lado. Não estava desconfortável.
Fechei os olhos por um momento assim que a conversa se cessou. Pude escutar a respiração dela se suavizar com o passar dos segundos e sua quietação.
Depois de alguns minutos, tive vontade de abrir os olhos, e foi o que fiz. Nem percebi que eu já estava de pé e caminhando na direção dela que dormia serenamente.
Engoli a seco e respirei fundo de maneira quase silenciosa.
Então olhei para o espelho ao lado, pendurado na parede do quarto. Meus olhos estavam castanhos, quase da mesma cor que os dela.
Eu me sinto...estranho.
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EXTRA
Por um momento, distraído com as pessoas passando de um lado para o outro. A mão pequena dela foi estendida a frente de meu peitoral, seu antebraço quase encostando em meu joelho.
— Pegue.
Pisquei uma vez, levemente confuso.
— Por que?
— Eu estou te oferecendo um doce porque eu quero te dar. Tch...não quer!? Só pegue logo!!
Faz tempo que não vejo um doce e que não sinto o gosto de um. Peguei uma das balinhas e olhei atentamente para a embalagem quase transparente.
— Ela não vai te matar.
Olhei para ela, na vontade de dizer: Obrigado.
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