— Para eu ir até ele assim que acordar, é isso? — complementei.
Eu me levantei, não tinha muita escolha de querer ou não querer, então no mínimo eu deveria colaborar. Após passar pelas portas do quarto, olhei em volta pelos corredores, o Pavilhão Mo costuma ser fechado por muros altos e até mesmo chega a tampar os telhados, impedindo a vista do céu estrelado. O robe do meu hanfu flutuava ao chão à medida que eu apressava os passos até encontrar com uma porta depois de virar o corredor.
— Pai.
Entrei no cômodo, que era quase uma biblioteca ou um ambiente próprio para um escritório. A mesa havia inúmeros pergaminhos e livros.
— Meiyan, como se sente? — Senti calosidade em sua pergunta.
— Me sinto bem. Está chateado pelo que eu fiz em Jinshen?
Ele suspirou alto e largou o pincel sobre a mesa. Cruzou os braços e silenciosamente ergueu o olhar diante a mim.
— Não estou. Você foi corajosa, mas...
— Aii...sempre tem um 'mas' — Revirei os olhos.
— Isso pode afetar um pouco a nossa reputação com os Ye.
— Pai, foi culpa deles que minha mãe morreu... — Ajoelhei em frente à mesa.
— Foi o Clã Wen quem a matou. — Ele refutou.
— Por achar que estávamos do lado do Líder Ye! Ele se enganou, papai. Mas agora, nem vai ter mais chances de ele próprio se explicar, então... — suspirei.
— Meiyan, — Ele se afastou de mim por um momento e se direcionou ao canto de uma das estantes de livro, dela, retirou uma espada de bainha...rosa...
Rapidamente me levantei.
— Minha espada, achei que ela tinha ido junto com Moyu quando explodiu. — Assim que meu pai a entregou, acariciei a bainha da lâmina.
— Você a construiu com sua mãe, era impossível ela se destruir por algo assim.
— É claro, mamãe era incrível em deixar suas armas indestrutíveis. — Ergui meu olhar. — Foi você quem a achou no rio?
— Não, estava do lado da sua cama quando entrei no quarto. — Ele voltou a se sentar e continuar com o que estava fazendo anteriormente.
Eu não ditei nada, encarei a lâmina por um curto momento.
༶•┈┈୨♡୧┈┈•༶
SLASH! SLASH! SLASH!
— humpf...
— Isso.. — ele ofegava, enquanto continuava com as chicotadas em minhas costas. — é pela desobediência!
SLASH!
O som do chicote contra minha carne ecoava o quarto escuro. Cerrei os punhos e os dentes, minha testa pingava a suor. Meus músculos já estavam começando a contrair com a dor.
— Yuhan, espero que aprenda a lição.
Após soltar o chicote e jogá-lo ao meu lado, o estrondo da porta ao se fechar ecoou em meio ao silêncio que se estabeleceu, exceto pela minha respiração ofegante. Me levantei devagar, mesmo que as cicatrizes ardessem quando o vento soprava a carne aberta.
Isso não dói tanto mais, estou me acostumando.
Quando deslizei a porta para o lado, havia dois discípulos mais novos em frente do quarto.
— Jovem Mestre Ye...
— O que fazem acordados tão tarde? — Perguntei-os.
— Bom...
— Vão dormir. — Abaixei meu olhar e passei por eles devagar. Eles fizeram algum som, como se estivessem surpresos com algo. Provavelmente minhas costas estavam sangrando e manchando o hanfu branco. Suspirei baixo, não havia como esconder.
ྉ
No dia seguinte, me concentrei na meditação e na purificação. Eu estava sentado encostado em uma árvore próxima ao riacho, minha flauta abaixo de meus lábios e meus dedos dedilhando o instrumento, formando uma melodia limpa e suave.
Não estava sozinho, alguns discípulos estavam limpando o rio, tirando os estraçalho de barco e retirando os corpos de criaturas que, agora estavam em sua forma original, revelando as pessoas que foram arrastadas a mar abaixo.
— Você parece diferente. — A voz do rapaz soou levemente abafada enquanto ele se encostava ao tronco ao meu lado.
Não disse nada, e apenas continuei a tocar a flauta.
— Quem agiria assim por uma completa estranha, tão de repente? — Ye Tianqi continuava a falar besteiras. Então fechei meus olhos. — Quem é ela? Desde quando a conhece? Jovem Mestre!!!
— Já terminou de revisar as anotações dos mais novos?
Perguntei após cessar a melodia e semicerrei o meu olhar. Enquanto ele se distanciava:
— Hehe...estou indo agora mesmo. Mas sabe, só é estranho. Você estava agindo como se estivesse pagando uma grande dívida, ao ponto de até desobedecer às regras mais rígidas.
— Revise tudo e me entregue a noite. — Me levantei, batendo a mão no robe empoeirado.
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