1 ano atrás, eu estive ocupado demais com tarefas diárias e treinando os novos discípulos. Mandando outros para fazerem uma limpa ao redor, já que aquelas marionetes foram se espalhando por todo canto, o que temia que fosse acontecer uma hora ou outra. Um civil comum consegue facilmente mata-lo se estiver armado, mas caso contrário, o que nos restavam era enterrar seu corpo, se é que sobrasse alguma coisa, além dos ossos. A segurança de Jinshen foi dobrada, então não há tantas mortes.
Além disso, estive ocupado com outros assuntos. Uma vez que Líder Ye, meu pai, disse que eu poderia conhecer a Senhorita Feng, imediatamente foi feito. Não por falta de escolha, mas ela já estava a invadir a biblioteca quando estava pintando. Ela me lembrou alguém, era igual, mas nem tanto assim.
Feng Xinyue, tem pálpebra dupla e uma pinta abaixo dos lábios. Cabelos no castanho escuro e exagerada nos acessórios de braço.
— Então você é o meu noivo? Finalmente nos conhecemos! — Fitei meu olhar neutro a mão estendida a minha frente, atrapalhando minha visão para o papel. Ergui a cabeça e movi meu corpo para que eu pudesse me levantar, evitando aquele contato direto. Então, educadamente estendi ambas mãos a frente e curvei meu corpo em cumprimento.
Ao me recompor.
— Não é permitido a entrada.
— Mas eu sou sua noiva, nem assim posso entrar aqui quando você estiver?
Ela era insistente, de um jeito invasivo. Incômodo.
Houve um tempo depois, que a encontrei na biblioteca mexendo em alguns baús onde havia uma pintura em específico guardado. Ela pegou, e sem dar um mínimo de segundo para analisar, tirei de suas mãos rapidamente.
— Não mexa e não entre. — fixei meu olhar a ela, eu não estava contente com a atitude. — você não tem permissão de entrar.
— Quem é essa mulher no papel!? Ela me parece familiar. Por que a desenhou quando se tem uma a sua frente!? Ein!?
Ela já havia tentado inúmeras vezes entrar em meu quarto quando eu não estava, e me pegar desprevenido. Mas, Ye Tianqi já estava ciente da situação e conseguiu colocar uma barreira, impedindo a passagem de qualquer um que não seja membro do Clã. Evitei todo o tempo manter algum tipo de contato, não apenas por ser inconveniente esse tipo de atitude. Havia outro motivo que eu não sabia explicar.
De vez, não consigo entender as vezes o que estou sentindo no momento. Apenas vou agindo como acho que está correto. E ter alguma afeição por uma outra mulher, parece mais do que incorreto, ao menos com a Senhorita Fang.
ྉ
Estive sentado em uma das mesas dentro do salão do Pavilhão escutando murmúrios de outros Líderes de Clã que estavam presentes e acompanhado por seus filhos. Despretensiosamente, mesmo que eu estivesse olhando ao meu pai atentamente. Meus ouvidos pareciam estar atentos a querer escutar algo...familiar. Uma voz.
— Então, seu filho prestígio finalmente irá se casar! — A voz veio de Líder Mo, que também estava presente. Ele soltou uma risada, parecia satisfeito e ergueu uma pequena taça de vinho. Ouvi sons de outros copos sendo erguidos da mesa, também a comemorar a cerimônia.
— Que mulher não se sentiria satisfeita em estar com ele? — Senhorita Feng estava ao meu lado, tentando apoiar as mãos em meu antebraço, mas todas as vezes, recuo do toque. Outros Líderes riram, levando as palavras dela em outro sentido.
Soltei um suspiro um tanto silencioso e sem perceber já estava a me levantar. Em meio aos mais velhos, avistei Líder Feng. Ele era magro e com grande barba grisalho assim como os longos cabelos, se vestia de um amarelo como a cor do sol. Ouvi dizer que isso é um jogo político, já que os Clã Wen não existem mais, estão tentando colocar outro alguém nos Cinco Principais Clã.
E o casamento veio em momento certo para isso. Aos meus olhos parecia ser algo que já estava em discussão a muito tempo, mesmo que Clã Wen ainda existisse na época.
Seguindo a lógica de alguém, certamente ela teria o mesmo pensamento.
ྉ
Quanto mais me olho no espelho ou em reflexos, minha íris fica cada vez mais cinza com o passar dos dias e meses, como costumava ser antes de tudo.
O que eu sinto? Por que estou sentindo? O que isso significa? Não tenho respostas para meus questionamentos internos. O que antes eu estava sentindo que agora parece indiferente, como se estivesse faltando alguma coisa? Também não se há respostas.
Por que esse casamento me parece errado, quando não sou capaz de sentir?
✰
Ao abrir as grandes portas da sala principal do Pavilhão, avistei Lider Ye imediatamente, sentado com as mãos repousando sobre a mesa e o olhar fixos a mim, parecia a estar já me esperando. Atualmente estava apenas nós, meus passos ecoaram até que eu cessasse, parando próximo a ele. Assim feito, curvei meu corpo e cabeça para um cumprimento breve.
— Você vai para Menghua? — Ele me perguntou, de maneira ríspida.
— Vou. — Assenti. — marionetes se espalharam mais por Menghua do que outras regiões. Me ofereço a ajudar.
— Hm...
Ele parecia pensativo sobre algo, até dizer:
— Leve a Senhorita Feng, aproveitem a viagem juntos então.
Minha postura permaneceu ereta, e meu olhar fixou-se ao nada por um curto momento.
Não havia como negar, então curvei a cabeça novamente e respondi:
— Certo.
Ele aparentava estar de bom humor provavelmente por causa da cerimônia. Não foi tão passivo antes de anunciar esse casamento, já que o tratamento de silêncio durou o ano passado inteiro, que havia alguns jovens que diziam se sentir sufocados.
Como castigo por causas passadas e a posição do tópico ter caído, passei horas e meses em treinamento severo. Sem erros.
✰
— Não acredito que quis passar a noite em um lugar imundo como esse. Em barracas? Ai..que asqueroso, está cheio de bichos. — Imediatamente recuei um passo quando Senhorita Feng se aproximou.
— Poderia ter recusado. — Retruquei.
— Ha... — ela riu, parecendo estar sem graça. — Sabe, querido...
Ela se aproximou mais uma vez.
— Não me chame assim. — Virei-me de costas, devagar sentei no colchão de palha ao chão, e fechei os olhos por um momento. Antes de chegarmos aqui, não sabia que haveria um riacho tão próximo das áreas. Um pouco de descanso, me trará melhoras..
Em meio aos meus pensamentos, institivamente segurarei um pulso, de uma mão que se direcionavam ao meu peitoral e despretensiosamente abri os olhos.
Ela, mais uma vez sendo invasiva. Logo a soltei quando fiz pouco mais de força do que o esperado e abaixei o olhar.
— Você não me toca! Você não olha para mim! O que é!? Não sou atraente o suficiente para você, Jovem Mestre Ye? Olhe para mim! — Ela gritou. — Vamos nos casar logo...ah, que seja!
Quando ela disse ''que seja'', imaginei que desistiria e sairia da barraca. Mas não, fui pego desprevenido quando ela colocou o joelho entre minhas pernas e quando tentou encostar seus lábios aos meus, o que não aconteceu!
— Licença, estou entrando- — Ouvi uma voz familiar e a silhueta de uma mulher abrindo as cortinas. — MEU DEUS, DESCULPA! PERDÃO!
Ela...
Olhei na direção daquela cortina, e senti meu corpo paralisado por um curto momento. A íris, como a cor de um mel, fixaram-se aos meus por um curto período até que o pano se fechasse por completo.
É ela...
Quando me aproximei daquela cortina quase transparente e minha íris azul fitou-se aos dela, senti que toda a sensação desconhecida podia ter se dissipado apenas com uma troca de olhares. Se eu tivesse que me casar com alguém, por que não pode ser ela?
Depois que Mo Yue surgiu a minha vista, achei que se eu ficasse parado em um só lugar, eu...poderia voltar ao vazio novamente. Minha íris também já não estavam cinzas mais, o que era...curioso.
Fazia tempo que não a via, ela mudou.
Há algo que eu gostaria de dizer a ela, então a ofereci para que fossemos andar um pouco distante dos demais. Ye Tianqi entendeu o recado quando o olhei por um momento, mantendo Senhorita Feng no acampamento, enquanto afastávamos.
Assim que havia chegado em Menghua e tive oportunidade de conversar com Lider Mo, descobri que Mo Yue também iria se casar. Pela primeira vez me senti inquieto, porque também conheci o noivo dela. Não fui eu quem sugeriu a união das cerimonias, e sim o rapaz que ela irá se casar, mas também não deixei de pensar nisso como...uma oportunidade.
Quando aceitei despretensiosamente, não havia um motivo exato para mim ter feito isso. Até mesmo achei que seria inapropriado e que seria certo recusar. Mas não era certo. Isso...não parece certo.
No momento em que a vi de cabeça baixa e a indiferença do olhar dela diante aos meus. Eu, institivamente quis segura-la, e dizer:
— Estou disposto a quebrar uma regra e trocar as noivas.
∴━━━✿━━━∴
Ele ficou em silêncio depois do que eu falei. Fui impulsiva, por que eu disse aquilo?
— Por que eu deveria me casar com você? — Cessei os passos, faltando pouco para já ter o acampamento em vista. Quando fixei meu olhar aos dele, percebendo que ele não desviou em momento algum, notei que... a íris dele estava cinza e mudou para azul quando foi para olhar a minha direção. Me sinto curiosa de saber o que cada cor significa, talvez eu o entenderia melhor sobre como ele se sente. — O que há de diferente lá a Menghua? Vai ser a mesma coisa..
Eu prossegui após suspirar baixo e encostar ao tronco da árvore mais próxima e levar meu olhar aos céus:
— Não quero ficar esperançosa em uma coisa que nos dois sabemos perfeitamente o resultado final. — abaixei o meu olhar, e fixei aos dele. — Meu pai provavelmente amaria isso, mas e o seu? Eu já não trouxe problemas o suficiente para você?
— Foi minha escolha, e me responsabilizei por ela. — A forma que ele falava com tanta seriedade, não podia me convencer do contrário. — Quando fui até lá, ouvi uma conversa.
— Que conversa? — perguntei, um tanto curiosa. Então, ele não disse nada até a mão fosse estendida a frente de meus olhos.
— Posso ter sua permissão? — Ele perguntou, de uma maneira gentil. Mas eu me senti confusa, não entendendo o que ele estava querendo dizer.
— Para..?
— Sua mão, quero segura-la.
Olhei na direção da mão dele, estendida a minha frente, bem a frente dos meus olhos.
— Ai...que meloso. — Cerrei os dentes. Engoli a seco, e abri bem os olhos que estavam começando a arder levemente e recuei para o lado, desviando de Yuhan. — Vamos voltar logo, se não, amanhã provavelmente não vamos acordar cedo para...sniff..ai...
Um som escapou dos meus lábios, impossível de segurar.
Olhei para cima, meu rosto começava a ficar molhado e meus olhos a arder. Mordiquei meus lábios.
— Pare.. — Sussurrei para mim mesma. — eu estou bem, estou bem...respira..
— Mo Yue.
— EU ESTOU BEM! — Gritei e abruptamente virei na direção dele, notando a expressão de espanto. Meus longos cabelos estavam caidos sobre meus ombros, os fiapos colado no rosto devido as lágrimas. Minhas mãos tremeram ligeiramente. — desculpa...desculpa, eu não queria gritar...eu..
Meu olhar estava perdido e meus joelhos já não tinham forças mais de tanto que bambeavam, e antes que pudessem ir ao baque contra o chão, senti um calor ao redor do meu corpo, caloroso, que se ajoelhou junto comigo e me envolveu em volta de seus braços.
— Eu estou bem...isso não é nada. — Minha voz saia abafada, e minhas lágrimas continuavam. O nó na garganta apenas se acrescentava, a cada palavra ''estou bem''. — É apenas porque eu não dormi direito, estou cansada, apenas isso...~
— Hm. — Escutei o murmuro dele, e senti um arrepio percorrer meu pescoço quando senti os dedos dele traçando os fios do meu cabelo. Ele está me reconfortando?
— Vou acreditar no que disser. — ele sussurrou.
Funguei o nariz e me questionei sobre o que ele havia escutado, o que exatamente ele sabe?
Engoli a seco e aconcheguei meu rosto no ombro dele, eu precisava de uma resposta.
— O que você ouviu...?
— Tudo. — Ouvi a voz rouca dele próxima do meu ouvido, quase em um sussurro. — Dos remédios que toma. Tudo.
É uma situação que eu mal me recordava. Foi antes de eu sair do meu quarto, do meu castigo. Me trouxeram uma tigela de sopa e uns comprimidos dizendo que era para aliviar minha dor de cabeça. Eu só me lembro...de acordar quase sem roupa. As servas, as quem mais confio me ajudaram a esconder tudo isso. Me traziam remédio tanto para aliviar meus pensamentos mais...suicidas possíveis, quanto para evitar que não venha nada indesejado.
— Eu sempre pensei que poderia ser capaz de lidar com qualquer situação, sozinha. — Murmurei, me sinto confortável o suficiente para dizer isso. — Nunca imaginei que isso seria possível. Como posso não conseguir lutar contra isso, quando matei um bicho de oitenta metros? Como isso é possível?
—... — Ele não me disse nada, é compreensível. O que teria a dizer após saber de uma situação como essa? Mas, me senti reconfortada ao sentir os dedos dele deslizando em meus fios de cabelo.
Afastei o rosto do ombro dele e olhei para a íris levemente azulada.
Comments (0)
See all