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Triângulos e Setas

Capítulo 4

Capítulo 4

Aug 24, 2025

Um dos melhores almoços da minha vida. Era um local de requinte e luxo, cheio de frufrus,  e de lá dois Pe-êfes num restaurante perto do cemitério. Bem podrão mesmo. Isso aconteceu só por minha preguiça de ir mais longe, mas o lugar não era ruim. Só era apertado, engordurado e sem ventilação nenhuma. Núbia odiou, obviamente, mas acho que a fome dela até passou ao entrar naquele lugar. Minha companhia bastava pra aguentar esse lugar rejeitável pela segurança sanitária.

_Eu vou pedir a coisa menos calórica e engordurada desse lugar, o que recomenda? - Disse ela como se fosse um cão assustado, ela estava horrorizada na verdade, ela sempre foi o tipo de pessoa que ia no que chamava "lugares mais organizados" e ao ver a bagaçeira quase que ela desiste de mim.

_Tem eu mal passado, se quiser estou a pronta entrega.

_Engraçadinho..., não acredito que vou ter que confiar em você pra comer aqui.

_Relaxa, vou escolher algo bem gostosinho pra nós. Enquanto isso, escolha os lugares.

_Do jeito que esse lugar está eu vou preferir é comer na calçada.

Ri de maneira desengonçada e fui ao atendente e pedi um prato com arroz, strogonoff, batata palha , alface e tomate para mim. Eu amo essa combinação. E pra melhorar o almoço, já que somos duas pessoas, uma jarra de suco de laranja sem açúcar e com bastante gelo para nos refrescar nesse calor que surgiu naquele meio dia. Essas chuvas de final de inverno só servem pra esquentar, deixar as roupas só o mormaço. Principalmente eu que estou com um terno preto.

Para a Núbia, tentei atender sua exigência de ser "saudável". Escolhi um prato  de arroz com brócolis e ervilhas, um caldo de feijão carioca, algumas verduras cozidas (batata doce, vagem e cenoura), e pedi pra colocarem um peito de frango passado acebolado para ver se ela iria comer mesmo alguma coisa.

Do que eu me lembro, ela comeu um pouco de tudo mas deixou sobras no prato. Eu odeio quem deixa comida no prato, é um desperdício muito grande, quase uma desfeita. Uma completa falta de educação. Mas enfim, relevei por que não posso educar uma mulher feita a lá aristocracia vigente naquela cidade.

_Satisfeita? - Disse eu tentando não começar uma discussão besta sobre sobras no prato.

_Até que sim, não estava de todo ruim. Só que o tempero de casa é melhor né?

_Disso eu não sei, cozinho pra sobreviver. Tem dias que eu não como nada, tem dias que eu faço um banquete só pra mim, e nos dias que planejam churrasco na minha casa eu planejo a bebida. Sou mais um barman que um cozinheiro.

_Entendo... Mas... Realmente! Você sempre fez as bebidas. Eram ótimas as suas margaritas, sangrias e até mesmo as caipirinhas eram perfeitas.

_Eram não. - Disse com um ar sério, que só durariam aqueles segundos. - Ainda são. Só estou sem ânimo pra fazê-las. È meio estranho você beber algo tão bem elaborado sozinho. Até nas baladas que eu vou pra esquecer que estou vivo, eu escolho coisas puras. Vodkca, gin, úisque...

Dizer aquilo quase me fez desabar emocionalmente, quando dividíamos o copo ainda consigo me lembrar o gosto do protetor labial de cereja que Mathias usava. Nunca me atrevi a beber do mesmo copo que Núbia, não por nojo dela, mas pelo batom dela que sempre borrava minhas taças de martíni. Eu apertei minhas mão e fechei minha cara, abaixei a cabeça e comecei a  respirar fundo, meu coração acelerou, minhas mão suaram a ponto de escorregarem dos talheres com cabo de plástico e comecei a escutar um eco. Eu estava tendo uma crise. Comecei a ficar tonto. Ainda me lembro da sensação, um turbilhão de memórias, sentimentos e culpas. Meus pensamentos eram de: "a culpa é sua, "seu merda", "tem sangue em suas mãos"... Por causa do suor quase acreditei. Estava quase desmaiando, quando:

"TUM"

Uma garçonete loira, velha, baixa com um avental branco pôs com certa violência um copo alto de água com gelo na minha frente. O barulho dos gelos se mexendo com o impacto me trouxeram para a realidade de volta.

_ Fui eu que pedi, tá?  - Disse Núbia com um sorriso no  rosto.

_Essa sua namorada é boa, vê se cuida dela pra não perder. - Indagou a garçonete indo embora.

_Ela (e) não é... - Dissemos juntos, nos olhamos , rimos. Fiquei melhor.

_Parece que esse assunto Mathias te dá um gatilho legal...

_Deu pra perceber né? A questão é só não chegar muito do sentimental, se não a saudade bate e... Já viu né? - Tomei uns dois goles daquela água gelada e me recompus. - Deixe-me perguntar, como você lidou/lida com tudo?

_Nossa! Você está muito desesperado para lidar com esses eventos de maneira mágica.

_Não é isso Núbia. Pare de me ofender.

_Eu sei, eu sei... Só estou dizendo que você já sabe a resposta, e a está adiando por medo. À mim, parece-me que tu tá confortável assim, mas não consegue lidar com as consequências do seu emocional. Meio que você está de luto ainda. - Nunca tinha sido lido daquele jeito. Com aquela minha cabeça achava aquela mulher perigosa de se ter por perto. Eu era tão transparente assim? Será que ainda sou? Será se isso é um problema?

_Virou psicóloga agora? - Falei com um tom de raiva. - Desde quando você ficou boa em identificar a situação dos outros? Demorou mais de um mês pra você perceber que estávamos num rolo sério entre nós três.

_Calma garoto dos nervos à flor da pele. Só estou dizendo o que você já sabe.

_Por isso foi que eu perguntei de você. O que aconteceu com você depois da notícia?

_Eeeeeee... Eu... Nós... - ela travou um pouco.

_Tá com o disco arranhado filha, a pergunta foi simples.

_É que... Olha... - Ela se encolheu e abaixou a cabeça olhando para as coxas.

_O que foi?

_É que... de um primeiro momento não conseguimos acreditar na história. Entramos em negação no primeiro dia. Achávamos que era uma piada de mal gosto da dona Lurdes e que... - seu olhos começaram a escorrer. - Tudo era mentira. Mas quando nós fomos lá... E vimos o corpo no IML... A ficha caiu. - Disse ela no começo de um choro.

Pedi para a garçonete mais um copo d'água e uns guardanapos pra tentar manter o que sobrou da maquiagem dela. Fui até o lado dela e a abracei. Eu estava em dúvida de faze-lo, mas parecia-me certo. Agachei me para estar na altura dos olhos dela, peguei um guardanapo para secar as lágrimas como tinha feito no cemitério, mas dessa vez, quando nosso olhares se encontraram, pude sentir a dor dela, a saudade dela. Quase pude sentir tudo isso como se fosse ela, o que seria impossível, já que é de outra pessoa que estamos falando. Mas, essa empatia que senti, foi forte, me doeu quase que fiscalmente. 

_Eu não sabia que pra você doía tanto também.

_Claro né idiota, passei minha vida inteira com ele, por que não sentiria nada? - Eu tinha esquecido-me de eles eram melhores amigos de infância, e que ela sempre nutriu um amor mais que carnal por ele. 

Eu também estava naquela situação de choro a mais de 8 meses, talvez eu tivesse melhorado um pouco naquele ponto. Talvez, por aquele segundo apenas, eu pensei em como a dor dela poderia ser maior que a minha. Que tempo, dedicação, amizade, esses laços clichês, em um relacionamento fosse maior do que toda a pancada que foi o meu tempo com o Mathias. Tive que lidar com meu sentimentos de assumi-lo para o mundo, mesmo que ele não fosse fã da ideia. Tive que lidar com a forma ultrassônica em que ele se tornou a pessoa mais importante pra mim. Tive que lidar com minha própria sexualidade nesse meio tempo em que namorávamos. Eu era muito filha-da-puta pra não perceber isso naquele momento.

_Eu...  Sinto falta dele todo... Santo... Dia Gael. Todo santo dia eu escuto a risada dele de vídeos antigos, revejo fotos, relembro momentos. A minha dor não é maior que a sua, mas eu escolhi senti-la toda pra ver se passa. E eu te juro Gael, todo dia doí um pouquinho menos. - Ela sorriu nessa última frase. Essa visão, dela, sorrindo, enquanto olhava pra minha direção, olhos fechados, lágrimas escorrendo, maquiagem borrada e cabelos pretos brilhantes... Era uma pintura a ser admirada, mas não mantida. Logo limpei seu rosto, ajeitei seu cabelo longo num coque rápido e beijei sua testa para dizer que ia ficar tudo bem. Logo mais, sentei-me a sua frente para continuarmos a falar.

_Está melhor? - Disse manso.

_Estou sim.

arthurhappy13
Harthy Luno

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