... tanto bate até que fura.
Para minha sorte, o sinal tocou e interrompeu o clima entre os dois. Malcon seguiu em frente e Baskiah me seguiu.
- Qual é mesmo a sua sala, Malcon? – perguntei enquanto seguíamos pela escada que dava acesso às salas de aula.
- Sala vinte oito.
- É do outro lado do corredor. – apontei na direção da sala.
- Certo. Nos vemos no intervalo. – disse Malcon dando uma piscadela para mim e se dirigindo para lá.
Eu sorri para ele, em seguida me virei e puxei Baskiah pela mochila impedindo-o de entrar na nossa sala.
- Baskiah, espere.
- O que foi, Ellie?
- Você e Malcon precisam se entender.
- Por quê? Você viu como ele me tratou, não viu? Ele é muito chato.
- Eu sei que ele foi chato, mas dê uma chance. Podemos ser amigos.
- Não sei não, Ellie. Se ele ficar me irritando eu não vou falar mais com ele. Posso até fazer a política da boa vizinhança, mas amizade eu não garanto.
- Isso já é um bom começo. – eu disse aliviado por Baskiah tentar manter a calma. Queria que ele gostasse de Malcon até eu revelar nosso namoro.
Na época eu não entendia que Bas estava, na verdade, com ciúmes de Malcon. Eu achava que era apenas uma birra boba e não dei muita importância.
No intervalo, eu e Bas descemos para o pátio e, como de costume, passamos na cantina para comprar nossos lanches e depois sentamos em nosso banco preferido embaixo da sombra de uma aroeira-salsa.
Vimos Malcon vindo em nossa direção, andando confiante com as mãos nos bolsos. Toda vez que eu o via, meu coração batia mais forte. Ele era realmente bonito. Mas não era apenas eu que achava isso, todos que estavam no pátio notaram aquele garoto novo. As gurias se agitaram e cochichavam entre elas, o que me dava um pouco de ciúmes.
Ele sorriu para mim e sentou-se ao meu lado. Bas se mexeu no banco meio incomodado por causa do que houve na entrada da escola.
- Como está sendo seu primeiro dia de aula aqui? – perguntei.
- Chato. – respondeu roubando o meu salgadinho. – As aulas aqui são bem mais puxadas que na minha antiga escola. Principalmente Matemática.
- Sério? Não acho tão puxado assim. - eu disse.
- Pra tu que é gênio, é fácil! – disse Baskiah – Matemática é sempre difícil.
- Concordo com você. – disse Malcon.
- Acho que nisso vocês dois têm algo em comum, não é?
Os dois se entreolharam sem jeito, mas aceitaram o fato. Malcon também queria conquistar a amizade Baskiah e por isso decidiu insistir. Baskiah era a pedra e Malcon era a gota de água que teria que furá-la, como no ditado “água mole em pedra dura, tanto bate até que fura”.
- O que vocês vão fazer hoje a tarde? – perguntou Malcon.
- Estudar. – respondi.
- Puxa! Que chato! Que tal irmos ao bosque?
- Vamos fazer o que lá? – indagou Bas.
- Vamos conhecer o lugar. Ouvi dizer que tem uma fonte mágica.
- Ah, sim. Dizem mesmo. Mas não sei se podemos ir. – eu disse desanimado. – Meus pais não vão deixar.
Malcon insistiu. – Qual é!? Vocês não sabem se divertir não?
- Vamos, Ellie! Vamos! – pediu Bas animado com a ideia de fugir dos estudos. Parecia que Malcon estava conseguindo conquistar a amizade de Baskiah.
Pensei por um instante e concordei. – Está bem. Mas temos que voltar antes das cinco. - Baskiah e Malcon comemoraram. Combinamos de ir ao bosque depois do almoço. E assim fizemos. Eu disse aos meus pais que íamos estudar na casa de Malcon e eles deixaram, mas fomos ao bosque. Isso me deu um pouco de culpa, não queria mentir, mas eu queria muito sair com Malcon um pouco. E essa era chance.
Foi uma boa caminhada até o bosque, acho que levamos uns quarenta minutos de casa até lá. Fomos conversando pelo caminho. Não fomos de bicicleta porque não tinha onde deixá-las lá no bosque. Acho que foi por isso que fomos a pé, pelo que me recordo. Nisso eu percebi que precisava me exercitar mais, afinal, eu e Baskiah estávamos muito sedentários e chegamos estafados, mas Malcon estava de boa, sem nenhum suor. Andar por quarenta minutos não deveria ser tão cansativo para dois adolescentes, mas foi. E caminhar pelo bosque cansava mais ainda. Malcon ficou zombando de nós dois quando sentamos exaustos num tronco de árvore que tinha pelo caminho.
- Vocês parecem dois velhos! – riu.
- Sem graça! – eu disse me sentindo envergonhado.
- Preciso de água! – disse Baskiah se abanando com as mãos. – Como está quente hoje!
- Minha água acabou. – eu disse ao pegar minha garrafa de água da mochila.
- A tal fonte mágica fica muito longe?
- Um pouco. – eu disse.
- Vamos lá, Ellie. Baskiah pode esperar aqui que traremos água pra ele.
Baskiah concordou. Eu e Malcon fomos até a fonte. Era nossa chance de ficarmos sozinhos.

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