...umas puxam as outras.
É interessante pensar que o amor não se contenta apenas com um único beijo. Sempre queremos mais da pessoa amada, ou da pessoa que sentimos atração. E parece até que não existe um beijo como o outro, todos são diferentes em sabor e intensidade. E eu, naquele momento, queria sempre um beijo do meu amado Malcon. Foi só nos vermos sozinhos no bosque, longe dos olhares de qualquer pessoa, que nos beijamos.
Malcon me encostou numa árvore e nos olhamos sorrindo. Esqueci que Baskiah estava lá, sentado num tronco esperando que levássemos água para ele. Tudo que importava era estar com ali com Malcon e beijá-lo , sentir seus lábios macios, sentir seu corpo junto ao meu. E, claro, eu queria muito mais e Malcon também. Ele beijou meu pescoço e foi descendo pelo meu corpo. Porém, me bateu uma insegurança de que alguém podia surgir do nada e achei melhor não ir muito além, e o impedi de abrir o zíper da minha calça.
- O que foi, Ellie? Você não quer?
- Quero. – respondi – Mas e se alguém nos vê?
Malcon olhou ao redor. – Não estou vendo ninguém.
- Estou com medo.
- Eu prometo que você vai gostar e nada vai acontecer! – ele disse abrindo o zíper da minha roupa e me olhando de baixo com uma piscadela.
E eu não consegui resisti ao charme de Malcon. Ele realmente sabia me seduzir. E essa foi a primeira promessa que ele me fez. E bem sabemos que promessas são como cerejas, umas puxam as outras. Você faz uma e de repente está prometendo mundo e fundos.
A palavra promessa já me dá gatilho. Prefiro que não me prometam nada! Mas aos quinze anos eu pensava que quando se ama, toda promessa é verdadeira; e que se vai fazer de tudo para cumprí-la. Ingenuidade pura!
Porém, essa primeira promessa se cumpriu. Foi incrível a sensação e ninguém nos viu. Meu corpo estava em chamas, meu rosto estava corado com a emoção de sermos pegos fazendo coisas impróprias no meio de um bosque público! Retribuí o feito em Malcon. Ouví-lo gemer me deu muito prazer. Logo depois quem estava com muita sede éramos nós dois e graças a isso lembramos do pobre Baskiah!
Fomos até a fonte, ironicamente chamada de Fonte dos Amores. Até hoje não sei o porquê desse nome. Provavelmente deve ter uma lenda parecida com a de outra fonte dos amores que existe em Poços de Caldas, Minas Gerais, onde se conta a cativante história de um jovem casal apaixonado que não podia viver seu amor devido a rivalidade de suas famílias, por isso se encontravam na fonte e trocavam juras de amor. Manuel e Leonor... No entanto, esse romance proibido terminou em tragédia, quando Manuel foi morto durante um confronto entre suas famílias. Dizem que a água da Fonte dos Amores carrega as lágrimas de Leonor, tornando-a um símbolo de amor eterno e tragédia. Há até uma estátua de mármore representando o casal ao lado da fonte.
Porém, quanto mais se pesquisa sobre a lenda, mais sombrio fica. Dizem também que um casal apaixonado se encontrava escondido e que os dois se jogaram do alto da serra e a água cobriu seus corpos formando a fonte. Outra versão fala de um jovem padre que se apaixonou pela filha de um fazendeiro. Eles fugiram e foram encontrados mortos e abraçados pela fome e frio, inspirando o pai da moça a erguer a estátua.
Acredita-se que quem beber da água da fonte, estando solteiro, logo se casará, e os casados retornarão sempre a Poços de Caldas.
Não é diferente da nossa Fonte dos Amores do Paraná. Diz-se que o casal apaixonado que beber da água da fonte, ficará junto para sempre.
A diferença é que a nossa fonte não tem estátua nenhuma, é apenas uma muralha de pedras de onde saem dois canos paralelos que jorram a água mineral numa base também de pedras. Você precisa arquear o corpo para poder beber a água gelada sem molhar os pés. E os dois têm que beber ao mesmo tempo. Até que foi divertido tentar sincronizar o ato. Afinal, tinha que dar certo! A ideia de beber a tal água do amor e acreditar que isso nos uniria para sempre era reconfortante. Era o que eu queria, ficar com Malcon para sempre.
Mas pensar que a tragédia de um casal vai abençoar os outros não faz muito sentido. Aliás, não faz sentido nenhum. As pessoas costumam achar que a tragédia amorosa é o mais perfeito dos amores. Morrer por amor, como em Romeu e Julieta ou Manuel e Leonor, soa romântico e faz parte do imaginário popular que acredita que amar até a morte, ou morrer por amor é algo lindo.
Finais felizes seriam tediosos, sem catarse. Não sentiríamos o mesmo se a história do casal terminasse feliz, não suspiraríamos pesarosos lamentando toda a feliciadade que viveriam juntos, mas ao mesmo tempo sentindo inveja do amor breve porém intenso que viveram. Queremos acreditar que essas histórias sejam reais e não meros chamarizes de turistas. Nós humanos somos mesmo estranhos, não acha?
Alheio as tragédias de amor eu sonhava com o final feliz. Eu pensava que conosco seria diferente, nada nos impediria de ficarmos juntos. A água era uma garantia.
Malcon aproveitou e molhou toda a cabeça na água para se refrescar. Eu fiz o mesmo. E depois enchi a garrafa e voltamos até onde Baskiah estava. Ele cochilou ali mesmo. Quando acordou estava até tonto.
- Por que demoraram tanto?! – indagou irritado. – Eu até pensei em ir atrás de vocês, mas acabei cochilando.
- Desculpe. Aqui está a água.
- Agora me deu fome, isso sim! – reclamou Baskiah alisando a própria barriga.
- Confesso que também estou faminto. Vamos comer em algum lugar. – sugeriu Malcon.
De lá fomos tomar sorvete. Pedi um sorvete de limão siciliano com sorvete de abacaxi. Baskiah foi no chocolate com morango e Malcon pediu o sorvete de creme e passas ao rum. Sentamos numa mesinha do lado de fora. Enquanto comíamos, Baskiah abriu a mochila e tirou um pacote com um pequeno livro.
- Olhem só o que eu consegui. – disse Baskiah fazendo suspense.
- O que é isso? – perguntei curioso.
- São cartas de tarô.
- Tarô? – perguntou Malcon depois de abocanhar mais um pouco de seu sorvete. – Você quer dizer aquelas cartas que vêem o futuro?
- Exato! Estou estudando esse livro que ensina a ler as cartas.
Ele as colocou sobre a mesa. – Vamos descobrir nossos futuros!

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