Não conseguia relaxar, minha mente ainda estava presa naquele maldito orfanato. O gosto seco na garganta, a sensação de que deixamos algo para trás… ou talvez que trouxemos algo conosco. O som de uma batida leve na porta. Me levantei devagar. Cada músculo parecia pesar mais do que deveria.
Girei a maçaneta. A luz do corredor desenhou o rosto de Yuki.
— Notei que você estava com a luz acesa. Não tá conseguindo dormi não é, Haru?
— Realmente não estou com sono.
— Tá pensando no orfanato? — ela coçou a cabeça, como se procurasse coragem no couro cabeludo.
— Infelizmente sim.
— Eu também. Nós passamos de morrer ali… ainda bem que tô viva, senão com certeza vinha puxar seu pé de noite como uma boa assombração.
Ela sorriu, tentando parecer leve. Não colou. A verdade é que nenhum de nós estava dormindo. Nem iria.
— O cerco está se fechando, Yuki.
— O que quer dizer?
— Tenho quase certeza que a prefeita está no centro de tudo… esse caso.
— O que pretende fazer velhote?
— Temos que saber tudo sobre ela. Relacionamentos, movimentações. E principalmente… o que exatamente acontecia naquele orfanato.
— Seja o que for, não era coisa boa… Você acha que devemos ir pra mansão da prefeita?
Fiquei um tempo em silêncio. A ideia era boa. Mas boa demais.
Era cedo demais.
— Seria interessante ir pra mansão da prefeita… porém também acho que seria cedo demais.
— Então, velhote… o que quer fazer realmente?
— Primeiro… vamos pesquisar a lista de crianças escolhidas.
— Ok. Então vamos trabalhar.
Yuki puxou o notebook e acessou o sistema da polícia. Passamos um tempo mergulhados em fichas e prontuários. Não eram todos, mas alguns nomes ainda tinham registros ativos. A maioria tinha um padrão. Crianças abandonadas, vítimas de abuso, negligência extrema. Eram enviadas para o Orfanato Asas do Amanhecer.
Era como se escolhessem crianças que ninguém sentiria falta.
Um padrão. Isso por si só já era bastante suspeito.
— Tem uma criança, Yuki, que quero que você veja de maneira mais profunda…
— Quem?
— Hina.
— Por que isso? É meio do nada. Tá se baseando em achismo de novo? Deus iluminou sua cabeça e te deu uma ideia?
— Você não lembra? O Takeuchi Masanori… ele se identificou como Hina. Por quê?
— …E o nome dela está na lista… realmente suspeito.
Yuki começou a cavar. Encontrou. E me chamou com um olhar sério.
— Ela viveu em um ambiente bem hostil. Se liga nesse histórico.
Me aproximei e vi a tela. Meus olhos varreram a ficha rapidamente, e cada linha me deixava mais pesado.
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Sistema Integrado – Consulta de Prontuário
Nome pesquisado:Kuroda Hina
ID do menor: CH-09-4721
Resumo de Ocorrência Policial
Data: 11/03/2011
Tipo: Óbito durante abordagem / menor em situação de risco
Descrição:
Durante operação por suspeita de atividades ilícitas, os genitores da menor, Kuroda Masaki (42) e Kuroda Yae (38), abriram fogo contra a polícia. Ambos mortos no local.
A menor Kuroda Hina (6 anos) foi localizada ilesa e recolhida.
Histórico de Violência Doméstica – Família Kuroda
5 denúncias registradas.
Agressões. Maus-tratos. Tentativas falhas de intervenção.
Classificação: Risco Alto
Encaminhamentos
Data: 12/04/2011
Instituição: Orfanato Asas do Amanhecer
Responsável: Shiba Taizou
Status: Prontuário lacrado – “Processo de adoção confidencial / interno”
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Uma criança esquecida pelo mundo.
Sem parente. Sem futuro.
Perfeita para desaparecer.
Continuei relendo. As palavras não saíam da minha cabeça. Até que algo me chamou atenção.
— Yuki… procura outra criança. Qualquer uma.
Ela pegou outro nome e abriu o sistema.
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Sistema Integrado – Consulta de Prontuário
Nome pesquisado:Eto Tsumugi
ID do menor: CH-11-3852
Resumo de Ocorrência Policial
Data: 27/08/2007
Tipo: Acidente de trânsito
Descrição:
Colisão entre veículo e caminhão de carga. Os pais da menor, Eto Haruki (39) e Eto Reina (37), mortos no local.
A menor Eto Tsumugi (5 anos) foi resgatada com escoriações leves.
Histórico de Violência Doméstica
Nenhum registro.
Família estável. Ambiente afetuoso.
Encaminhamentos
Data: 29/09/2007
Instituição: Orfanato Asas do Amanhecer(
Responsável: Shiba Taizou
Status: Prontuário lacrado – “Processo de adoção confidencial / interno”
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O mesmo nome.
O mesmo homem.
Yuki viu minha expressão congelar.
— O que foi?
— Yuki… só pra confirmar… qual o nome do mordomo da prefeita?
— Shiba Taizou. Por quê?
— Ele foi o responsável por encaminhar as crianças pro orfanato.Ele é a chave, Yuki.
Mikami Haru já foi detetive. Hoje, é apenas um homem arruinado pela culpa de não ter salvado a filha desaparecida. Quando sua ex-parceira Yuki o força a voltar às investigações, ele se vê diante de um caso perturbador: a prefeita da cidade sumiu sem deixar vestígios. Relutante, Haru descobre que esse desaparecimento pode estar ligado ao de Emi — e que seguir essas pistas significa abrir feridas que nunca cicatrizaram. À medida que mergulha na escuridão, Haru percebe que a verdade pode ser mais cruel do que o luto. E que alguns segredos não querem ser descobertos.
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