...nas estrelas.
- Onde conseguiu isso? – perguntei.
- Comprei num sebo de livros semana passada. Eu estava procurando livros de arte e os desenhos desse livro me chamaram a atenção. Estava barato então aproveitei e levei. Quando abri em casa vi que tinham cartas para destacar e montar um deck.
- E como funcionam? – perguntou Malcon.
- As cartas são divididas em arcanos maiores e arcanos menores. São setenta e oito cartas no total.
- Não é isso que quero saber. – reclamou Malcon ansioso. – Quero saber o futuro! Faz um jogo pra mim.
- Calma! – disse Baskiah irritado por ter sido interrompido. – O que você quer saber?
- Eu quero saber se vou ter um pesqueiro um dia.
Eu e Baskiah ficamos surpresos com a pergunta de Malcon. Um pesqueiro? Por quê? Perguntei. Nós achavámos que ele seria um militar como o pai, o sargento.
- Eu não quero ser militar, quero ser um empresário e abrir um negócio. No caso, um pesqueiro.
- Mas, afinal de contas, por que um pesqueiro? – quis saber Baskiah.
- Porque eu amo pescaria, oras! O meu plano é comprar o lago do bosque e abrir o pesqueiro lá, com chalés e um restaurante.
- Puxa! É um grande negócio então. – eu disse surpreso.
- Sim. Mas para isso tu vai precisar de muito dinheiro, não acha?
- Eu sei. Vou trabalhar muito para conseguir. Mas seria bom saber se vou conseguir de fato. Joga logo! – brincou.
Naquele momento me ocorreu que eu, ao contrário de Malcon, não tinha um plano para o meu futuro. O meu plano era o plano do meu pai; fazer medicina, ser um cirurgião. Malcon não! Ele tinha vontade própria, sonhos próprios. Eu o admiriei por isso.
Baskiah embaralhou desengonçadamente as cartas, algumas cairam embaixo da mesa. Nós rimos achando graça no futuro vidente desajeitado.
- Só um momento, gente! – disse dispondo as cartas sobre a mesa.
- E aí? – perguntou Malcon ancioso. – O que elas dizem?
Infelizmente eu não lembro que cartas eram, mas Baskiah pegou o livro e leu o significado das sete cartas que estavam ali. Eu lembro que ele chegou a conclusão de que ele conseguiria ter seu pesqueiro, mas que algo ruim aconteceria antes para que desse certo. Algo ruim, mas que para Malcon seria bom. Resumindo, tudo iria ruir na vida de Malcon para depois melhorar.
- Bah! – exclamou Malcon assustado. – Eu não deveria ter perguntado. Agora vou ficar bolado com isso. Que coisa ruim que é essa? Sério! Que porcaria são essas cartas!
- Você que quis saber! Não culpe as cartas! – esbravejou Baskiah.
- Veja o lado bom. – eu disse – Será ruim para os outros, para você será bom.
- Tudo vai ruir na minha vida. Não acho nada bom.
Baskiah pegou outras cartas e cobriu o tal obstáculo. Então disse que um homem autoritário era o seu obstáculo.
- Meu pai, óbvio! Ele quer que eu siga carreira militar. Vai ser uma luta.
- E você, Ellie. O que quer saber?
- Eu quero saber se serei feliz no amor.
A reação dos dois me deixou corado de vergonha. Começaram a me zoar. Mas Baskiah fez o jogo. As sete cartas foram dispostas novamente, mas desta vez formando uma ferradura. Notei que Malcon ficou apreensivo também.
Destas cartas eu lembro mais ou menos. A primeira era uma carta até que bonita, A Estrela. O desenho era de uma mulher nua, de cabelos azuis, agachada às margens de um rio. Ela segurava duas jarras de onde depejava água nesse rio. Acima haviam sete estrelas, a do centro era grande. Também havia um pássaro sobre uma pequena árvore ao horizonte.
Segundo o livro, eu já estava apaixonado ou encontraria o amor em breve. Isso me deixou mais corado ainda. Bas disse que a carta me representava e demonstrava alguém belo e cativante.
Também havia uma carta chamada Os Enamorados, que no desenho mostrava um homem com duas mulheres em volta e, acima do trio havia um cupido apontando uma flexa para eles.
- Um trisal? – eu e Malcon perguntamos ao mesmo tempo, preocupados.
- Não é um trisal! – disse Baskiah. – É uma carta que significa que tu terá que tomar uma decisão.
- Ah... – respondi aliviado.
- No livro diz: Indica um momento de grande amor, afeto e união, mas também pode apontar para uma escolha entre parceiros ou para a necessidade de harmonizar sentimentos em um relacionamento existente.
- Parece bom. - eu disse.
- E o que é essa caveira aí no final? – perguntou Malcon.
- É A Morte.
- A Morte? Eu vou morrer?!
A carta era um tanto perturbadora. Um esqueleto com a coluna de espiga de milho segurava uma foice nas mãos. Parecia ceifar cabeças coroadas, mãos e pés. Seu outro nome era bastante apropriado: O Ceifador...
No hora me veio a história da estátua da Fonte dos Amores. Seria muito trágico morrer por amor, pensei. Eu pretendia ser feliz e não morrer. Mas segundo as cartas, eu seria sim feliz no amor, mas demoraria bastante. Algo que me marcou no jogo foi Bakiah ter dito que meu verdadeiro amor não estava no Brasil, mas no exterior. Malcon me fuzilou com os olhos, de ciúme, como se dissesse : “Seu verdadeiro amor sou eu!”. Porém, eu não acreditava em nada realmente. Para mim, aquilo era apenas um passatempo divertido e intrigante. Baskiah explicou que a carta A Morte não era a morte física e sim o fim de algo. Talvez meu namoro com Malcon não duresse tanto quanto eu desejava. Isso me deixou desapontando. Então, ele colocou um arcano menor sobre a carta e ficou em silêncio, leu o livro com os olhos e depois pegou a carta e disse: “Essa não tem nada a ver! Vamos fazer outro jogo.” Ficamos sem entender nada, mas ele não quis falar o significado.
- Você será feliz no amor, Ellie! – sorriu fechando o livro.
- Certo. Se as cartas dizem... – respondi.
Como se não bastasse, lembrei que o obstáculo era O Diabo, uma criatura andrógena amarrada a dois indivíduos que também tinham chifres. Baskiah leu que eu tinha que tomar cuidado com pessoas que queriam apenas coisas carnais comigo. Eu fiquei mais corado ainda e os dois me zoaram novamente.
Baskiah juntou todas as cartas sobre o livro e pediu licença para ir ao banheiro. Eu fiquei sentado lá com Malcon terminando meu sorvete que já estava quase líquido por causa do calor.
- Você acredita nisso? – indagou Malcon.
- Na verdade, não.
- É bom porque eu sou seu verdadeiro amor. Não tem essa de amor no exterior.
- Eu sei. – eu disse me sentindo feliz enquanto pegava o livro de Baskiah. Eu havia memorizado a carta que ele não quis ler. Eram dez espadas, algo assim.
Malcon se levantou para pagar os sorvetes no balcão. E eu li o significado da carta: “fim doloroso, definitivo e inevitável...em conjunção com a carta A Morte, morte física.”
Um vento gelado soprou do nada, fazendo as árvores “uivarem”. Tive que segurar as cartas de tarô para não voarem longe. Finalmente, havia refrescado.
...

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