De volta ao presente, o turbilhão de água a envolvia em correntes complexas e violentas. Já não sabia distinguir onde era o alto ou o baixo; seu mundo girava sem rumo enquanto as forças do rio a empurravam contra pedras, galhos submersos e o fundo irregular. Sua visão era turva, o breu a cercava. O frio que lhe penetrava a pele começava a travar os músculos, a dor já a dominava, e cada vez mais se via consumida por ela. Pouco a pouco o ar se esvaía de seus pulmões, e sua mente mergulhava em um silêncio sufocante. Tudo se apagou em negro.
Grãos de areia eram pressionados contra suas bochechas, renavam sua pele como lixa, mas não se comparavam com a dor presente em seu corpo inteiro, era como se cada membro gritasse para seu cérebro, e era ensurdecedor. Rejeitada por seu esôfago, água foi cuspida aos montes da boca de Amara, uma sensação horrível no começo, mas então uma benção: ar, ar puro e leve, preenchia seu interior no lugar do líquido expulso de seu ser.
Apoiou sua mão, então eu antebraço, panturrilha, e levantou-se, cambaleou e tornou à areia fofa por falta de forças em suas pernas. Em sua mente, invocara cada essência de si, concentrou-se e se pôs de pé mais uma vez, desta vez não caiu. Tirou as longas mechas de cachos dos olhos e recuperou sua visão. Encharcada, coberta de areia grossa, suas vestes agora mais pareciam trapos colados sobre sua carne, que estava aberta e manchava seu arredor de vermelho carmesim.
Amara sentia-se zonza e enjoada, olhou para trás, avistou o corpo d’água de onde emergiu, uma linda paisagem às margens do rio, não escutava mais seus algozes na distância, muito menos a queda d’água que a levou até aqui. Só o que parecia igual eram as árvores que a circundam, a terra tinha a mesma cor escura, e os cantos selvagens ainda traziam a mesma melodia aos seus ouvidos. Talvez, então, não estivesse tão longe assim, precisava se retirar o quanto antes, até mesmo para poder se recuperar de todo pesadelo que a acometia nesse momento.
Em passos lentos, arrastando os pés na terra, segurava seu antebraço tentando proteger o corte feito pela flechada, adentrando cada vez mais na vegetação, não queria ser vista nem de relance. Agora com um momento de calmaria, recordava-se algo de muito precioso que incomodava quando andava: amarrada à seu quadril estava a qamaris de seu falecido protetor. Manteve-se com a espada puramente por ter amarrado forte demais que feria sua pele. Sua única prova dele, perdera tudo na chacina em Hoshikai, tinha certeza que era a única a sair de lá com vida. Desamarrou-a da cintura e empunhou a com grande melancolia, sua visão embaçava aos poucos e sua tristeza transbordava das janelas de sua alma, sua garganta em fogo logo começava a soluçar e tropeçava em fisgadas de ar e gemidos dolorosos, sua vontade era de gritar e espernear, mas por uma sorte infinita a voz de sua razão a impediu que o fizesse, e poderia apenas pronunciar em sons mudos da sua agonia.
Depois de esgotar sua melancolia e acalmar-se novamente, Amara desembainhou a qamaris de seu mestre caído, observou sua lâmina. Fora cuidadosamente forjada, seu metal com textura marmorizada e símbolos engravados, ainda depois de todo aquele combate permanecia afiada. Seu cabo, feito de um material negro e adornos dourados, tinha em sua ponta um amoleto de madeira amarrado com algo escrito numa língua estrangeira. Com certo esforço, lembrava-se de alguns ensinamentos de Ryoma, já havia lhe dito algumas coisas de seu idioma materno.
-
Oh… Ohi - Ago… Ohiago!
Deixara os sons de sua voz adentrarem sua mente, processara o que aquilo queria dizer em poucos segundos, e logo veio em sua mente: Lar. Ohiago quer dizer Lar.
Agora, com a espada em mãos, Amara já não era apenas uma sobrevivente ferida. Cada fibra de sua carne palpitava com a dor da perda, cada lembrança de Hoshikai incendiava-lhe o peito, e cada lágrima derramada parecia arder como brasa. Ela permitiu que a tristeza e a fúria deixassem de ser inimigas em seu coração e se tornassem uma mesma torrente, fluindo sem contenção por cada recanto de sua alma.
Sentiu essa energia crescer, primeiro como um sopro, depois como um trovão surdo vibrando em seu âmago. Era como se o próprio mundo se curvasse ao peso de seu desespero. O ar ao redor estremeceu, e a pulsação em suas veias tornou-se o ritmo de um tambor ancestral. Inconscientemente, ela guiou toda essa força para a qamaris — como se a espada fosse o único recipiente capaz de conter tamanha intensidade.
E então aconteceu.
A lâmina, até então silenciosa e fria, reagiu como se despertasse de um sono milenar. Chamas brotaram de sua superfície não como fogo comum, mas como labaredas tecidas da essência da própria Amara. O metal exalava um calor vivo, um brilho que não pertencia a este mundo. As gravuras em sua textura marmorizada cintilavam em dourado e escarlate, como se revelassem segredos ocultos dos ferreiros que a forjaram. O ar ondulava ao redor, distorcendo o espaço como miragem sob sol escaldante.
Amara arregalou os olhos diante da visão: não era apenas fogo que se erguia da lâmina — era sua dor, sua raiva, sua saudade transformadas em chamas. Cada estalo lembrava um soluço sufocado; cada clarão, uma lembrança de Hoshikai em ruínas. O calor que emanava não queimava sua pele, mas purificava, como se lhe devolvesse forças roubadas pela noite e pela perseguição.
Ela ergueu a qamaris diante de si, e, por um instante, sentiu-se maior do que sua própria existência. A espada já não era só o legado de Ryoma: tornara-se um reflexo de sua alma. E, envolta em fogo e luz, parecia sussurrar em silêncio a promessa de que, mesmo em meio às trevas, sempre haveria uma chama capaz de resistir.

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