Passos se aproximaram pela entrada da casa — firmes, ritmados, alguém acostumado a caminhar de um cômodo ao outro carregando responsabilidades.
Uma voz feminina, madura, surgiu primeiro como um murmúrio, depois ganhou nitidez à medida que se aproximava, acompanhada do leve balançar de tecidos.
Amara congelou.
Sentada no chão, com a concha ainda quente nas mãos e o vapor subindo em espirais frágeis diante de seu rosto, só conseguiu arregalar os olhos. O coração bateu tão forte que parecia querer escapar pela garganta. Instintivamente, contraiu as pernas, tentando se levantar num impulso desajeitado — mas o corpo, ferido e fraco, não reagiu com a rapidez que ela desejava.
E então foi tarde demais.
A mulher a encontrou ali mesmo, quase encolhida, com o caldo ainda pingando da concha.
Ela era mais velha, talvez perto dos quarenta anos, com a postura de alguém que já criara filhos, cuidara de casa e enfrentara dias duros sem nunca perder o foco. Vestia uma roupa longa e simples, coberta por um avental de tecido branco que já carregava manchas de farinha, caldo e rotina.
Seus cabelos, presos num nó no alto da cabeça, apontavam em todas as direções — não por descuido, mas por pura falta de tempo em uma vida que andava sempre rápido demais. Era um caos controlado, uma coroa desalinhada que balançava cada vez que ela se movia.
Os olhos que antes olhavam diretamente para frente e estavam relaxados, carregados de uma expressão séria, porém neutra, caíram aos poucos em direção ao chão ao notar algo que não deveria estar ali, perceberam algo.
Um detalhe discreto, uma forma que não combinava com o chão de madeira, com a mesa, com as panelas ou com o movimento habitual daquele cômodo. Seus olhos hesitaram, focaram melhor, estreitaram-se… e num único instante tudo foi rearranjado em sua mente.
Ali.
No chão.
Havia alguém.
E esse alguém estava encarando-a de volta.
Os olhos, que haviam caído devagar como folhas no outono, agora subiam num salto, arregalados como se tivessem sido arrancados de um sonho.
A garganta foi a primeira a reagir — não com palavras, mas com um grito profundo, tão alto que vibrou pelas paredes, sacudiu o ar e, Amara poderia jurar, fez até seus órgãos internos tremerem como água sacudida dentro de um vaso.
Logo vieram os braços.
Antes que qualquer raciocínio se formasse, eles se lançaram para o alto num reflexo tão descontrolado quanto instintivo. As mãos agarraram o que estivesse mais próximo — e a mente da mulher, ainda chocada demais para registrar o que fazia, sequer percebeu o objeto que segurava.
De súbito, um punhado de topos de cenouras — folhas e raízes ainda frescas, verdes e alaranjadas — foi lançado no ar como um projétil improvisado. As hortaliças voaram em arco, descrevendo uma parábola quase cômica em direção ao rosto e ao torso de Amara, que só teve tempo de piscar antes de ser atingida pelo ataque mais inesperado que já enfrentara em toda sua vida.
Cenouras.
Folhas.
E pura perplexidade.
Por reflexo, Amara fechou os olhos com força, o rosto se contraiu num vinco de susto e o corpo todo se curvou na direção contrária dos projéteis improvisados. O movimento brusco fez a concha escapar de seus dedos machucados — um pequeno salto, um giro miserável no ar — antes de despencar sobre o chão.
O caldo quente explodiu numa poça disforme, espalhando o aroma delicioso pela tábua gasta do piso, como uma oferenda trágica aos deuses da incompetência e do azar.
Antes que pudesse sequer lamentar pela comida perdida, sua mão instintivamente se ergueu em frente ao rosto num gesto desesperado de defesa — e assim se iniciou o segundo ataque.
A mulher, ainda tomada por um pânico que ultrapassava a lógica, parecia determinada a transformar tudo dentro do próprio lar em munição. De sua bancada improvisada, uma colher de pau foi agarrada e lançada com a precisão cambaleante de alguém que nunca precisou usar talheres como armas. A colher descreveu uma trajetória torta, girando no ar como uma hélice maldita antes de passar raspando pelo ombro de Amara.
Mas não acabou.
A ofensiva continuou: um pão seco — duro o bastante para ser considerado uma pedra religiosa por algum clã antigo — foi arremessado em seguida, quicando no chão, na perna da garota e na parede, como se tivesse vida própria.
E, por fim, a caneca de madeira.
Essa, lançada com a mistura ideal de medo e desespero, veio rodopiando como um cometa descontrolado, produzindo um assovio sutil que fez Amara prender a respiração.
— Quem é você?! — bradou a mulher, a voz aguda vibrando como uma corda tensa. — O que está fazendo na minha casa?!
Outro objeto levantado.
— O que está fazendo com o meu cozido?!
A cada pergunta, encontrava um novo instrumento doméstico para transformar em arma improvisada — e Amara, encolhida, braços erguidos, só podia imaginar quantas ferramentas ainda restavam naquela cozinha que poderiam ser transformadas em projéteis na fúria da dona.

Comments (0)
See all