Apesar de tudo ser muito lindo, não era exatamente esse o propósito de sua estadia. Bhaz permitiu-se olhar mais um pouco — umas barraquinhas coloridas de longe, o movimento animado das vendas, um ou outro vendedor insistente — mas logo retomou o foco. Seguiu pelas ruas principais de Bruvi, deixando que seus pés o guiassem enquanto os olhos percorriam fachadas de madeira escura, placas pintadas com tintas vivas e janelas abertas de onde escapavam risos, música e conversas empolgadas.
Passou por um distrito alimentício onde o ar borbulhava com cheiros que desafiavam qualquer estômago: carnes temperadas assando ao ar livre, ensopados que cozinhavam lentamente em panelões de ferro, salgados recém-saídos do forno e doces caramelizados que grudavam na garganta só de respirar. As tavernas eram muitas — algumas pequenas e acolhedoras, outras alvoroçadas e barulhentas — cada uma com uma promessa diferente de sabor.
E como Bhaz queria provar tudo aquilo.
Seu nariz dilatava levemente, absorvendo cada aroma, e a ponta da língua até ameaçava o céu da boca com a ideia do gosto que poderia ter. Mas a bolsa em seu ombro pesava pouquíssimo — quase tão leve quanto sua reserva de moedas — e a realidade era simples: aquilo não cabia no seu orçamento. Por mais que quisesse se esbaldar, não podia.
Na verdade, seu motivo para estar ali não era comer, nem passear, nem se maravilhar com as pessoas ou com a arquitetura robusta da capital. Era trabalho. Precisava de alguns trocados para seguir perambulando pelo mundo, como sempre sonhou — e perambular, descobriu cedo na vida, não era nada barato.
Bhaz queria ver mais: mais cidades, mais florestas, mais rios, mais costumes, mais de tudo. Queria sentir a variedade do mundo na pele, nos olhos, na língua, nos ossos. Mas para isso precisava garantir o básico: dinheiro, comida, um teto ocasional e boa vontade dos deuses.
E Bruvi, com toda sua vida, caos e oportunidades, parecia um bom lugar para começar.
Imerso demais em seus próprios pensamentos — tão profundamente que quase podia se ver de fora, caminhando sozinho por entre a multidão — Bhaz não percebeu o tempo escorrer. O sol, que antes resplandecia em ouro sobre os telhados de Bruvi, agora se rendia lentamente aos azuis escuros da noite. Quando finalmente notou, o céu já não ardia em laranja, e sim cintilava em tons frios, enquanto as primeiras estrelas brigavam por espaço no firmamento.
O ar mudou junto com o céu. Ficou mais leve, mais frio, soprando entre os becos e esquinas com aquele frescor típico das capitais à noite, carregando o cheiro de fumaça de lareiras, especiarias tostando em tavernas e a maresia distante de algum rio ou lago. O corpo de Bhaz, acostumado ao sol quente e ao calor acumulado entre suas escamas, sentiu o contraste imediato — um arrepio quase involuntário correu-lhe pela coluna, embora não o incomodasse de verdade. Era só… o aviso do anoitecer.
Com o esfriar do ar veio também o cansaço, como se alguém batesse à porta de dentro de seus ossos: lento, insistente, impossível de ignorar. O sono, esse intruso sempre educado mas inevitável, aproximava-se em passos largos. A barriga também começou a resmungar, lembrando-o com firmeza de que, embora o bagre que comera mais cedo tivesse sido delicioso, não bastaria para sustentar um maedrago de oitenta e cinco quilos por muito tempo. Peixe era bom… mas se desmanchava rápido demais dentro de si.
Precisava comer de novo. Precisava descansar. De preferência em algum canto modesto, barato, mas seguro — uma taverna menor, talvez uma pousada humilde, qualquer lugar onde pudesse deitar sem temer o preço ou a curiosidade exagerada dos outros.
Bhaz parou no meio da rua, respirou fundo, e olhou ao redor. As luzes das lamparinas tremeluziam sobre as pedras lisas da estrada, e as pessoas que antes circulavam aos montes agora seguiam em grupos menores, conversando em murmúrios acolhedores. Era a hora em que Bruvi ficava mais mansa — e, talvez por isso mesmo, a hora perfeita para ele procurar seu canto.
Era, enfim, o momento de encontrar abrigo… e comida. Muita comida, se possível.
Em uma parte menos movimentada da cidade, onde as vozes já não ecoavam tanto e as ruas se tornavam mais estreitas, Bhaz encontrou uma taverna simples. Pequena, até tímida, sobretudo quando comparada às grandiosas fachadas que vira durante o dia. Ainda assim, algo ali o chamou. Talvez fosse a madeira avermelhada da frente, com um brilho levemente desgastado pelo tempo, ou as portas brancas com rachaduras discretas, que davam ao lugar um charme de “lar usado”, bem diferente das construções engomadas da praça principal.
Curioso, aproximou-se. A porta rangeu suavemente quando ele a empurrou com a mão, revelando um interior modesto: apenas dez mesas redondas distribuídas por um salão apertado, iluminado por lamparinas que espalhavam uma luz quente e amarelada. O cheiro era simples, mas acolhedor — uma mistura de caldo recém-cozido, ervas secas e um pouco de lenha queimada.
Não havia muita gente ali. Apenas duas mulheres próximas ao balcão de madeira, conversando animadamente, até que o som da porta batendo as interrompeu. A mais próxima virou-se de imediato, já inspirando ar para soltar o tradicional “bem-vindo” dos comerciantes…
— Oi! Seja be—
A voz morreu no meio da palavra. Os olhos dela se arregalaram de tal maneira que pareciam prestes a cair no chão, e um grito curto escapou, espontâneo, sincero, e absolutamente apavorado. Era claro que jamais vira algo parecido com um maedrago antes.
Bhaz levantou as duas mãos, apressado.
— Calma, calma, sou um cliente! — tentou assegurar, com um sorriso que mostrava mais dentes do que ele gostaria. A verdade é que imaginou que, numa metrópole, as reações seriam mais… civilizadas. Mas pelo visto ainda era um espetáculo ambulante.
A outra mulher, mais composta, deu dois passos à frente, colocando-se entre a primeira e o visitante, como quem tenta apartar um gato assustado de um cachorro curioso.
— Desculpe — disse ela, com a voz firme porém gentil — Ela nunca viu um maedrago antes.
Bhaz relaxou os ombros, satisfeito por ser chamado corretamente.
— D-desculpa — balbuciou a primeira, agora completamente vermelha — Foi um lance com a luz de fora e… e eu me assustei…
— Não faz mal, não é a primeira a se assustar — Bhaz riu, tentando tranquilizá-la. — Meu nome é Bhaz. E vocês? Como se chamam?
A mulher mais segura respondeu primeiro, tocando de leve o ombro da amiga para ajudá-la a recompor-se:
— Somos Kylia e Berta.

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