Enquanto desciam a escadaria principal, Alex passava os dedos pelas grades de madeira polida, sentindo a textura familiar sob suas mãos. Ele lembrou-se de descer aquelas mesmas escadas correndo quando criança, com Igor sempre um passo à frente, rindo e desafiando-o a acompanhá-lo. A nostalgia misturava-se com uma sensação de perda e luto, como se parte de sua infância tivesse ficado para trás de forma irrevogável.
Ao chegarem à cozinha, um cômodo amplo e iluminado, Arya começou a preparar o café da manhã. A mesa de madeira maciça no centro da cozinha estava já posta com uma toalha de linho branco e louças finas, prontas para uma refeição em família. Alex sentou-se em uma das cadeiras, observando a mãe com carinho enquanto ela se movia com graça e eficiência, preparando café e pães frescos.
— Então, querido... — começou Arya, tentando puxar conversa. — Como foi seu tempo na França com sua avó?
Alex suspirou ruindo levemente e começou a contar.
— Ela contratou dezenas de professores para mim. Desde tutores de francês para melhorar minha fluência, até professores de defesa pessoal e esgrima. Foi... meio intenso, mas aprendi muito. Até que eu levo jeito com a espada.
Arya franziu o cenho, demonstrando um leve desconforto com a atitude da sogra.
— Sua avó sempre teve uma maneira muito... particular de fazer as coisas. — disse ela, tentando desconversar sobre os treinamentos. — E quando foi que você decidiu se tornar modelo?
Alex ficou um pouco tímido com a pergunta, desviando o olhar.
— A vida de garotinho rico e mimado bancado pela avó me fez desejar fazer mais com o meu tempo lá. Um dia, meu professor de francês me chamou de garçon photogénique1 e disse que eu deveria tentar modelar. Acabei me interessando pela fotografia e, bem... foi assim que começou.
Arya riu suavemente, aproximando-se da mesa com uma bandeja de pães frescos.
— Fiquei surpresa ao receber aqueles envelopes pardos com as fotos do estúdio. Você realmente leva jeito para isso.
Alex sorriu, apreciando o momento de leveza entre eles.
— Foi uma experiência interessante, mamãe. Mas estar de volta aqui, com você e o papai, isso é o que realmente importa para mim.
Arya olhou para o filho com ternura, sentindo uma onda de amor e proteção.
— Eu também estou feliz que você esteja de volta, querido. Sei que temos muito a conversar e a reconstruir, mas estamos juntos nisso.
Enquanto tomavam o café da manhã, Alex sentia-se reconectando lentamente com seu lar. Cada palavra trocada, cada lembrança compartilhada, era um passo em direção à cura e ao entendimento. A casa dos Montgomery, com toda sua imponência e história, voltava a ser um símbolo de amor e união, um lugar onde ele poderia encontrar um novo começo.
A manhã em Blue Lagoon estava especialmente calma. A luz do sol filtrava-se pelas cortinas da cozinha, criando padrões dançantes no chão de madeira polida. Alex e Arya estavam à mesa, rindo e compartilhando histórias. O som do riso deles ecoava pela casa, um som há muito perdido, mas finalmente reencontrado.
— E... ele sabia que era você o tempo todo? — Arya perguntou entre risos, referindo-se a uma das histórias engraçadas que Alex estava contando sobre suas travessuras na França.
— Sim, no final, ele percebeu. — Alex respondeu, também rindo. — Foi hilário!
Então, Arya, com um sorriso matreiro, mudou de assunto, indagando casualmente:
— E... ele sabe que você está de volta?
A pergunta foi um balde de água fria. O sorriso de Alex desapareceu, e ele ficou imóvel, os olhos fixos em algum ponto invisível. O nome não precisava ser mencionado. Ambos sabiam de quem estavam falando.
— Não, ele não sabe. — Alex respondeu finalmente, com a voz mais baixa. — Fred não sabe que voltei da França.
Arya, tentando compreender o filho, assentiu lentamente.
— Eu entendo, querido. Mas acho que você deveria ter contado. Ele, mais que qualquer um, sentiu a sua falta.
Alex fechou os olhos por um momento, tentando conter as emoções que ameaçavam transbordar.
— Nós deixamos de ser velhos amigos quando aquela noite aconteceu, mãe. Fred já é bem grandinho e sabe superar as coisas.
Antes que Arya pudesse responder, a porta da cozinha se abriu, e John Montgomery entrou. Ele era um homem de meia-idade, de porte militar, com cicatrizes que contavam histórias de uma vida de disciplina e batalhas. Seus olhos verdes, tão parecidos com os de Igor, se arregalaram ao ver Alex.
— Alex! — John exclamou, correndo para o filho e o agarrando em um abraço protetor e paternal. — Meu garoto, como eu senti a sua falta!
Alex sentiu-se seguro nos braços do pai, como há muito não se sentia.
— Eu também senti sua falta, pai.
A conversa entre pai e filho fluiu naturalmente, como se tentassem compensar o tempo perdido. John olhava para o filho com orgulho, notando como ele havia crescido e mudado.
— Como foi morar com sua avó na França? — John perguntou, curioso.
Antes que Alex pudesse responder, Arya interveio.
— A matriarca Montgomery criou uma rotina de treinamentos intensa para ele. — disse ela, com um tom levemente crítico.
— Ah, minha mãe nunca muda. Treinamentos intensos, hein? — John trocou um olhar cúmplice com a esposa, tentando disfarçar a surpresa de maneira suspeita. Ele riu, tentando aliviar a tensão. — Eu lembro da minha infância com muitas aulas de filosofia, latim e piano. Minhas articulações doem só de lembrar os acordes de alguma sinfonia de Bach.
Alex riu junto com o pai, sentindo um calor familiar que aquecia seu coração. A nostalgia permeava o ar, e apesar das distâncias emocionais que ainda existiam entre eles, havia uma conexão inegável, uma ligação que os mantinha unidos como família.
A conversa continuou fluindo entre memórias do passado e planos para o futuro. Cada palavra dita, cada olhar trocado, era um passo na direção de curar as feridas do passado e reconstruir os laços que o tempo e a dor haviam tentado desfazer. A casa dos Montgomery, com toda a sua imponência e história, continuava sendo um refúgio de amor e proteção, um lugar onde Alex podia começar a encontrar a si mesmo novamente.
A noite caía sobre Blue Lagoon, cobrindo a cidade com uma manta de estrelas e um brilho suave de luzes urbanas. Após uma tarde cheia de risos e memórias com seus pais, Alexander subiu as escadas em direção ao seu quarto. O reencontro familiar havia aquecido seu coração, mas a sensação de nostalgia ainda pairava no ar. Ele se jogou na cama, sentindo o conforto familiar de seu refúgio pessoal.
Seu celular emitiu um som de notificação, e ele pegou o aparelho, observando a tela se acender. Havia dezenas de notificações de suas redes sociais e mensagens privadas. Um grupo de mensagens chamou sua atenção: "Me & My Girlies", onde ele estava junto com suas amigas Barbara, Claire e Clara. No momento, Clara não estava falando com ele, o que adicionava uma camada de tristeza às suas lembranças.
Alexander riu ao ver a quantidade de notificações e abriu o grupo de mensagens. A conversa estava agitada, com Barbara e Claire tentando marcar um encontro com ele.
Me & My Girlies
Barbara:
Gente, o Alex voltou da França! 😍✨ - 14:35
Claire:
Sério? Que incrível!
Precisamos marcar algo! 🎉 - 14:37
Barbara:
Sim!
O que acha de amanhã à tarde?
Pode, Alex? - 14:40
Claire:
Ótima ideia!
Amanhã eu tô livre depois das 16h. - 15:01
Barbara:
Alex? Tá aí? - 21:15
Claire:
Acho que ele deve estar ocupado com a família, né?
Vamos esperar um pouco mais. - 22:03
Barbara:
Gente, eu mal posso esperar para vê-lo!
Tanta coisa pra contar! 💖 - 22:15
Claire:
Vamos fazer uma surpresa se ele não responder até amanhã? - 22:30
Barbara:
Sim!!! Vamos nos encontrar na praça e esperar ele lá. - 22:35
Alex:
Oi meninas! Estou aqui!
Sim, voltei hoje e passei o dia com meus pais.
Vamos nos encontrar amanhã, sim!
16h na praça, então? - 22:40
Barbara:
Aeeee!!! Até amanhã, Alex!
Sentimos muito a sua falta! 🥰 - 22:42
Claire:
Até amanhã, Alex!
Não vemos a hora de te abraçar!
Alex sorriu, sentindo um calor no coração ao ler as mensagens das amigas. Era reconfortante saber que ele ainda era querido e lembrado. No entanto, uma notificação de mensagem privada chamou sua atenção. Ele viu uma mensagem de Claire e outra de um número desconhecido. Decidiu abrir a mensagem de Claire primeiro.
Claire (Visto por último às 22:45)
Oi Alex, só queria dizer que estou muito feliz que você voltou.
Sei que as coisas foram difíceis antes de você ir, mas quero que saiba que estou aqui para você, não importa o que aconteça. 💖
Alex sorriu novamente, sentindo uma mistura de gratidão e saudade. Claire sempre fora uma amiga leal e carinhosa. Ele então abriu a mensagem do número desconhecido, curioso para ver quem poderia ser.
Número Desconhecido (Visto por último às 21:30)
Olá, Alex. Bem-vindo de volta a Blue Lagoon.
Temos muito o que conversar.
Encontro você amanhã no cemitério às 19h.
Uma sensação de desconforto percorreu Alex ao ler a mensagem enigmática. Quem poderia ser? E o que queriam conversar com ele? Ele não reconhecia o número e não havia assinatura.
Deixando o mistério de lado por um momento, Alex decidiu focar na parte positiva de sua volta. Ele finalmente iria rever suas amigas queridas e, quem sabe, tentar reconstruir algumas partes de sua vida que foram deixadas para trás. Com esses pensamentos, ele colocou o celular na mesa de cabeceira e se deitou, deixando o cansaço do dia tomar conta de seu corpo. Fechou os olhos, esperando que o sono trouxesse sonhos melhores e menos complexos do que a realidade que enfrentava.
1 'Garoto fotogênico' em francês.

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