Blue Lagoon, Louisiana
Fevereiro de 1890.
A cidade, com suas ruas de paralelepípedos e arquitetura charmosa, era um símbolo de prosperidade e tradição. Naquela noite, o ar estava impregnado com a expectativa e a alegria de um baile em homenagem aos fundadores da cidade. As mansões iluminadas lançavam sombras dançantes nas calçadas, e os salões ressoavam com risos e música.
Dentro da mansão Montgomery, o salão principal estava repleto de figuras elegantes. Homens em smokings impecáveis e mulheres com vestidos luxuosos rodopiavam pelo salão, suas risadas e conversas misturando-se à música suave da orquestra. As luzes dos candelabros refletiam-se nas joias, criando um ambiente de brilho e sofisticação.
A chegada de Mattew Warrant, um jovem de aparência marcante e intrigante, foi um evento que causou murmúrios entre os convidados. Fazia décadas desde que a família Warrant havia deixado Blue Lagoon, e o retorno de um dos seus membros provocava curiosidade e um certo desconforto.
Mattew foi anunciado pelo mestre de cerimônias com uma voz solene:
— Senhoras e senhores, tenho o prazer de anunciar a chegada de Mattew Warrant.
Todos os olhares se voltaram para a entrada, onde Mattew fez sua aparição. Ele era uma figura impressionante, trajando um terno negro perfeitamente ajustado. Sua pele branca e pálida contrastava com os cabelos castanhos bem penteados. Seus olhos verdes, semelhantes a esmeraldas, brilhavam com uma intensidade que parecia atravessar as almas daqueles que ousavam encará-lo. Ele nunca sorria, sempre mantendo uma expressão séria e um ar de mistério.
Mattew adentrou o salão com uma postura ereta e confiante. Ele pegou uma taça de vinho de um garçom que passava e começou a circular pelo baile, seus passos lentos e deliberados. Ele observava os convidados com um olhar atento, como se procurasse algo ou alguém.
Os murmúrios aumentaram à medida que ele passava. As conversas variavam entre sussurros curiosos e comentários discretos.
— É ele mesmo? — uma mulher cochichou para sua amiga. — O filho do Warrant assassinado?
— Dizem que sim. A família deixou a cidade logo após a morte do patriarca. Um mistério nunca resolvido.
Mattew ignorava os cochichos, concentrando-se em sua própria busca. Aproximou-se de um grupo de senhores discutindo sobre negócios locais. Um deles, visivelmente mais velho e com uma bengala ornamentada, virou-se para Mattew com um sorriso falso.
— Mattew Warrant, não é? Faz muito tempo desde que vimos um Warrant em Blue Lagoon.
— De fato — respondeu Mattew com uma voz profunda e calma. — Estou aqui para honrar a memória da minha família.
O velho senhor arqueou uma sobrancelha, intrigado.
— Memória... sim, a memória de seu pai é uma sombra que paira sobre esta cidade.
— Mais uma razão para estar aqui — replicou Mattew, seus olhos verdes fixos nos do velho. — Para dissipar sombras e trazer à luz o que precisa ser revelado.
Os olhos do velho se estreitaram, mas ele não respondeu. Mattew deu um leve aceno de cabeça e continuou seu caminho, seus passos ecoando suavemente no piso de mármore.
Enquanto Mattew se movia pelo salão, ele não podia deixar de notar a reação das pessoas. Algumas o evitavam, outras o observavam com uma curiosidade mal disfarçada. Poucos ousavam se aproximar. Era como se ele carregasse uma aura de mistério e perigo, um lembrete vivo de eventos sombrios do passado.
Parou perto de uma janela grande que dava para o jardim iluminado pela lua. Observou o reflexo na taça de vinho, pensando nas décadas que havia passado desde sua transformação. A vida que conhecia antes havia desaparecido, substituída por uma existência solitária e cheia de segredos.
Uma jovem, corajosa ou talvez apenas curiosa, aproximou-se dele. Tinha cabelos loiros encaracolados e olhos azuis que brilhavam com uma mistura de timidez e determinação.
— Senhor Warrant, é uma honra conhecê-lo. Eu sou Elizabeth Montgomery. — disse ela, estendendo a mão com um sorriso genuíno.
Mattew pegou a mão dela delicadamente, inclinando-se ligeiramente em um gesto de respeito.
— O prazer é meu, senhorita Montgomery.
— Sinto muito pela perda de sua família. Espero que Blue Lagoon possa ser novamente um lugar de conforto para você.
Mattew soltou a mão dela e deu um leve sorriso, que mais parecia um fantasma de emoção.
— Agradeço suas palavras. O tempo dirá.
Elizabeth hesitou, mas antes que pudesse dizer mais, Mattew se afastou, perdido em seus próprios pensamentos. A presença de Elizabeth o fez lembrar que, mesmo em meio à escuridão e ao luto, havia pequenos lampejos de humanidade que ele ainda podia reconhecer.
O baile continuou, mas para Mattew Warrant, aquela noite era mais do que uma celebração. Era um retorno às raízes, uma oportunidade de confrontar fantasmas do passado e talvez, apenas talvez, encontrar um caminho de redenção em meio à culpa e ao luto que o acompanhavam por tantos anos.
Elysium
Cidade-Sede do Conselho das Sombras
Dias Atuais.
A lua cheia iluminava a cidade mágica de Elysium, oculta dos olhos dos humanos comuns. Localizada num véu mágico próximo à Itália e França, Elysium era um refúgio seguro para todas as criaturas sobrenaturais. Vampiros, lobisomens, bruxas, fadas e até wendigos coexistiam num equilíbrio fino. A cidade misturava o encanto da magia com toques modernos, onde carruagens encantadas passavam por ruas pavimentadas e iluminadas por lamparinas que flutuavam no ar.
Mattew caminhava pelas ruas de Elysium, seu casaco negro esvoaçando levemente com o vento. Seus passos firmes e silenciosos, um reflexo da urgência que sentia. Ele estava se dirigindo à sede do Conselho das Sombras, o centro do poder no mundo sobrenatural.
O prédio do Conselho era uma magnífica obra de arte, combinando a arquitetura gótica com elementos renascentistas. Torres altas e janelas de vitrais coloridos se erguiam contra o céu noturno, dando ao edifício um ar ao mesmo tempo majestoso e intimidante.
Ao atravessar os grandes portões de ferro, Mattew adentrou o salão principal. O interior era ainda mais impressionante, com pilares altos esculpidos em detalhes intrincados e candelabros de cristal que lançavam um brilho suave sobre o mármore negro do chão. No centro do salão, três tronos imponentes destacavam-se, simbolizando o poder e a autoridade do Conselho das Sombras.
Sentada no trono à esquerda estava Francesca Warrant, a irmã gêmea de Mattew. Seus cabelos castanhos caíam em ondas suaves, e seus olhos esmeralda brilhavam com uma mistura de doçura e perigo. Francesca possuía um estilo meigo e dócil, mas qualquer um que subestimasse sua capacidade descobriria rapidamente o quão fatal ela poderia ser.
No trono central estava Lucien Warrant, o mais modificado dos irmãos. Sua pele esbranquiçada como mármore, olhos de cor violeta e cabelos platinados davam-lhe uma aparência etérea. Lucien era comedido, sério e elegante, exalando uma aura de ameaça constante.
Skyler Warrant, o mais jovem dos irmãos, ocupava o trono à direita. Transformado aos 10 anos, ele mantinha uma aparência angelical e infantil. Seus cabelos pretos e olhos azuis contrastavam com a crueldade e sadismo que ele frequentemente demonstrava. Skyler era uma presença perturbadora, a mistura perfeita de inocência aparente e brutalidade pura.
Mattew aproximou-se dos tronos, curvando-se levemente em respeito.
— Francesca, Lucien, Skyler... — saudou ele com um aceno de cabeça.
Francesca foi a primeira a falar, seu sorriso suave contrastando com a intensidade de seu olhar.
— Mattew, é bom vê-lo.
Lucien, com seu olhar penetrante, observava Mattew atentamente.
— Mattew, sua presença aqui significa que algo importante aconteceu. Fale.
Skyler, com um sorriso malicioso, não perdeu a oportunidade de provocar.
— Ah, o grande caçador de Brunno retorna. Não ficou com sede dessa vez, Mattew?
Mattew ignorou a provocação de Skyler, concentrando-se em Lucien.
— Brunno se movimentou novamente. Desta vez, parece ter encontrado um forte candidato para a realização da profecia.
Os olhos de Lucien estreitaram-se, demonstrando preocupação.
— Por que demorou tanto para reportar essa informação?
Mattew respirou fundo antes de responder.
— Ao seguir o rastro de Brunno, encontrei uma de suas aberrações. Era meio vampiro, meio bruxo, com o poder de fogo. Tive que exterminá-lo, o que me atrasou.
Skyler bufou irritado.
— Um híbrido atrapalhou nossos planos de capturar Brunno? Espero que não tenha perdido o rastro dele.
— Deixe Mattew terminar. — Francesca levantou a mão, interrompendo Skyler. — O que mais descobriu?
Mattew continuou.
— O híbrido tentou me atrasar, mas consegui retornar ao antigo ninho de Brunno na Noruega. Lá, descobri que ele pegou um refém da Organização Venator. Esse refém tem ligação com o novo alvo de Brunno e sabe para onde ambos foram.
Lucien inclinou-se para frente, a tensão evidente em seu rosto.
— E para onde Brunno está se dirigindo?
Mattew olhou diretamente para Lucien, sua expressão sombria.
— Brunno está retornando ao lar de nossa família ancestral, Blue Lagoon.

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