Alexander, encolhido no fundo da cova, tentou estabilizar sua respiração. Ele podia ouvir o coração martelando em seus ouvidos, cada batida ecoando como um tambor. Ele apertou os olhos, tentando ignorar o medo sufocante que ameaçava consumi-lo.
Então, silêncio.
Um silêncio tão absoluto que parecia antinatural.
O líder olhou em volta, as mãos tremendo ligeiramente. Ele abriu a boca para dizer algo, mas não teve tempo. Um som pesado, como um corpo caindo, ecoou do outro lado da cova.
Alexander abriu os olhos. Tudo o que conseguia ver era a borda da cova acima, mas o silêncio seguinte foi mais assustador do que qualquer som que ele já havia ouvido.
Algo — ou alguém — estava ali, na escuridão, e ele sabia que o verdadeiro perigo ainda estava por vir.
Alexander abriu os olhos, o coração martelando no peito como se quisesse escapar dali. A escuridão da cova era opressora, mas foi o movimento na borda que o congelou de medo. Antes que pudesse reagir, algo — ou melhor, alguém — desceu desajeitadamente, caindo ao seu lado com um baque seco.
Era o líder dos rapazes.
Alexander tentou rastejar para longe, mas o rapaz foi mais rápido, agarrando-o pelas costas com uma força que parecia motivada pelo puro desespero. Em um movimento rápido, o rapaz sacou um canivete do bolso e pressionou a lâmina gelada contra o pescoço de Alexander.
— Não se mexe, seu merdinha! — ele rosnou, a voz rouca e cheia de ódio.
Alexander sentiu o fio da lâmina contra sua pele, afiada o suficiente para cortar ao menor movimento errado. O cheiro metálico de sangue misturado com terra úmida invadiu suas narinas. Ele fechou os olhos com força, tentando controlar a respiração trêmula.
— Por favor... por favor, me deixa ir... — ele implorou, a voz embargada.
O líder riu, mas era um som quebrado, sem qualquer traço de humor.
— Isso é culpa sua, sabia? — ele cuspiu, pressionando o canivete com mais força. — Se você não tivesse se feito de difícil, dado o que a gente queria... meus amigos estariam vivos agora!
As palavras cortaram Alexander mais fundo do que o canivete poderia. Ele se engasgou, entre o medo e a incredulidade.
— Você... você não pode estar falando sério... — murmurou, a voz trêmula.
O líder o sacudiu como se fosse um boneco de pano, aproximando o rosto suado e cheio de fúria do dele.
— Não tá acreditando em mim? — ele gritou, os olhos arregalados, quase alucinados. — Você os matou! Cada um deles!
Alexander começou a rir, mas era um riso descontrolado, quase histérico, nascido de puro desespero. Ele sabia que estava à mercê de alguém que havia cruzado a linha entre a razão e a loucura. Mas antes que pudesse dizer qualquer coisa, a temperatura ao seu redor pareceu cair de repente.
Um silêncio absoluto tomou conta do ambiente, como se o próprio cemitério tivesse prendido a respiração.
Alexander sentiu primeiro o cheiro: algo metálico e pútrido, como sangue misturado com carne apodrecida. Então ele viu.
Uma sombra se materializou na borda da cova, alta e inumana, com proporções que pareciam erradas de alguma forma. Dois olhos brilhantes, como brasas, queimavam na escuridão, fixando-se neles com uma intensidade que fez Alexander tremer.
Na mão direita da figura sombria, algo balançava de forma grotesca. A luz fraca da lua revelou o que era: a cabeça decapitada de um dos rapazes que havia atacado Alexander.
O líder soltou um grito sufocado, seu corpo paralisado de terror.
— O que... o que é isso? — ele sussurrou, a voz agora um sussurro rouco.
Alexander não respondeu. Ele não conseguia. Cada fibra de seu ser estava congelada, dividida entre o pavor absoluto e a estranha certeza de que aquela coisa estava ali por ele.
A figura desceu na cova com um movimento quase sobrenatural, silencioso e gracioso como um predador. Os olhos vermelhos nunca deixaram Alexander, e, por um momento, ele sentiu que o tempo havia parado.
O líder, percebendo o perigo iminente, soltou Alexander e levantou o canivete como um escudo inútil.
— Fica longe! — ele gritou, recuando até ser pressionado contra a parede da cova. — Fica longe de mim!
A criatura inclinou a cabeça para o lado, como se estivesse estudando o rapaz. Então, em um movimento rápido e brutal, ela se lançou sobre ele.
Os gritos do líder ecoaram pelo cemitério, mas Alexander mal os registrou. Ele estava encolhido no canto oposto da cova, os olhos arregalados enquanto observava a cena. O sangue escorria pela terra, encharcando o solo com um brilho escuro e viscoso.
Quando o silêncio finalmente voltou, Alexander não conseguiu se mexer. Ele sabia que a criatura ainda estava ali, e que, desta vez, ela olhava diretamente para ele.
A luz branca envolvia Alexander como uma neblina ofuscante, tão intensa que era impossível discernir onde terminava o brilho e começava o mundo ao seu redor. Ele piscou, tentando focar sua visão, mas tudo parecia um borrão. Fragmentos de vozes cortavam o silêncio, palavras que ecoavam distantes e distorcidas:
— Hemorragia estabilizada...
— Possíveis traumas psicológicos...
— Monitorar...
Os sons se misturavam em uma cacofonia indistinta.
Então, vieram os flashes.
Alexander viu as mãos firmes dos rapazes o agarrando, arrastando seu corpo sobre a terra úmida do cemitério. Ouviu o som das latas de cerveja sendo chutadas para longe. Um sorriso cruel e as palavras que ainda ecoavam em sua mente:
— O irmão bastardo do queridinho da universidade...
Ele se engasgou em sua própria respiração enquanto mais flashes o atingiam. O líder dos rapazes, o canivete brilhando à luz pálida da lua. As estátuas sombrias ao redor, como guardiãs silenciosas de um destino cruel.
Mais vozes surgiram ao seu redor, agora mais próximas, carregadas de urgência. Ele viu os rostos de dezenas de pessoas, mas estavam distorcidos, nublados, como se fossem figuras em um sonho.
— Fique com a gente, Alexander!
De repente, o rosto de sua mãe emergiu entre os borrões. Os olhos dela estavam cheios de desespero, enquanto os lábios tremiam em palavras inaudíveis. Seu pai estava logo atrás, o semblante rígido, mas os olhos traíam uma dor profunda.
Mais flashes.
A criatura.
Os olhos vermelhos intensos, brilhando com uma fome que transcendia o físico. As sombras ondulantes que se estendiam ao seu redor como um manto vivo. Os gritos dos rapazes se transformando em súplicas e, então, em silêncio absoluto.
Alexander abriu os olhos de repente, puxando o ar como se tivesse emergido de um mergulho profundo. Ele estava em um quarto branco, o aroma estéril de antisséptico invadindo suas narinas. O bip constante de monitores cardíacos era um lembrete insistente de onde ele estava.
Um hospital.
Ele tentou se sentar, mas seu corpo protestou, um misto de dor e fraqueza. Quando olhou para o lado, o terror voltou a envolvê-lo como uma maré negra.
Ali, diante de sua cama, estava a criatura.
A sombra imensa parecia mais sólida agora, como se o quarto não fosse capaz de contê-la completamente. Os olhos vermelhos o encaravam, brilhantes e hipnotizantes, como duas brasas vivas em um rosto sem contornos.
Alexander abriu a boca para gritar, mas nenhum som saiu. A criatura inclinou a cabeça para o lado, como se o estudasse. Então, um grunhido profundo reverberou pelo quarto, mas não pelo ar. Ele sentiu o som dentro de sua cabeça, como uma vibração que o deixava tonto.
— Prometido...
A voz gutural ecoou em sua mente, carregada de algo que misturava desejo, posse e uma ameaça latente.
Ele se desesperou, virando rapidamente para o lado e apertando o botão de emergência preso à lateral da cama. Seus dedos tremiam enquanto apertava repetidamente, o coração martelando em seu peito.
O som de passos veio quase instantaneamente, e a porta do quarto se abriu.
— Alexander?
Alexander virou o rosto, esperando ver médicos ou enfermeiros. Mas quem entrou no quarto não era uma figura em jaleco branco.
Era um homem alto, esbelto e incrivelmente belo. A luz fraca do quarto hospitalar acentuava os traços perfeitos de seu rosto: a pele alva e sedosa parecia quase brilhar, enquanto os olhos azuis profundos fixaram-se nele com uma intensidade desconcertante. Os cabelos pretos estavam impecavelmente cortados, caindo levemente sobre a testa de um jeito que parecia ao mesmo tempo casual e meticulosamente planejado.
Ele vestia uma jaqueta de couro marrom que moldava seus ombros largos e uma camisa preta justa que acentuava a musculatura definida. Quando ele deu mais um passo para dentro, Alexander pôde sentir um aroma sutil de tabaco e algo amadeirado, um cheiro que parecia combinar perfeitamente com a presença quase predatória do homem.
— Brunno Warrant, detetive temporário. Sou o novo responsável pelas investigações policiais em Blue Lagoon.
A voz dele era baixa e suave, mas tinha uma firmeza que carregava autoridade. Ele se aproximou, parando ao lado da cama de Alexander e olhando diretamente para ele.
— Você parece ter passado por muita coisa, garoto. Preciso de algumas respostas... se estiver em condições de falar.
Alexander olhou de Brunno para a criatura, mas esta havia desaparecido, como se nunca tivesse estado ali. Seu corpo inteiro tremia, mas ele conseguiu balbuciar:
— E-eu... o que você está fazendo aqui?
Brunno ergueu uma sobrancelha, um leve sorriso curvando os lábios.
— A pergunta certa é: o que aconteceu com você, Alexander? E, talvez mais importante... por que sinto que sua figura é o ponto central de tudo?

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