Amara passou parte da madrugada com os olhos abertos, rolando de um lado para o outro na cama improvisada que Agatha havia gentilmente lhe oferecido. Mesmo cansada, o corpo clamando por descanso, a ansiedade era uma chama inquieta dentro dela, espirrando fagulhas no silêncio da noite. Seu coração batia ligeiro, ansioso pela viagem até Bruvi — a capital, o desconhecido, a primeira cidade real que veria em toda a vida.
A generosidade de Agatha continuava inacreditável. Depois de toda a confusão do dia anterior — invasão, ladroagem involuntária, cenouras voando e objetos domésticos sendo usados como armas improvisadas — a mulher ainda assim lhe oferecera um teto. E uma cama. E um prato de comida.
Para retribuir, Amara prometeu ajudar em tudo que pudesse no dia seguinte. E cumpriu.
Na manhã anterior à viagem, a jovem Kenshi passou horas auxiliando nos afazeres da casa. Varreu o chão, tirou o pó das vigas, lavou tigelas e colheu frutas maduras com Agatha nos limites da vila. Enquanto enchiam cestos com maçãs pequenas e suculentas, conversavam como se fossem velhas conhecidas.
Amara falava da vida no monastério, das regras rígidas, dos treinos exigentes, da disciplina que moldava o corpo e o espírito desde a infância. Agatha, por sua vez, contava sobre a rotina no campo — plantar, colher, cuidar da casa, lidar com vizinhos barulhentos, e ocasionalmente espantar guaxinins determinados a roubar sua horta.
O contraste entre seus mundos não as afastava; na verdade, parecia aproximá-las. Amara descobriu que gostava da risada de Agatha, um riso aberto, quase sempre acompanhado de um gesto das mãos. E Agatha percebeu que gostava da humildade e da curiosidade genuína da garota, sempre tão atenta, tão educada, tão pouco acostumada com qualquer forma de vida que não fosse cercada por paredes de pedra.
Dizia Agatha que seu marido costumava viajar até Bruvi para vender mercadorias simples — frutas, grãos, algumas peças de madeira que ele mesmo talhava — pelas ruas de pedra da capital. Em troca, trazia para casa aquilo que o campo não oferecia: sal fino, tecidos melhores, temperos, ferramentas de metal trabalhado. Era um ciclo simples, mas vital para a sobrevivência da família… e completamente desconhecido para Amara.
A jovem percebeu com clareza dolorosa, o quanto sua vida no monastério a isolara do mundo real. Não fazia ideia do preço das coisas, não sabia medir o valor de um pão, de uma vela, de uma estadia. Para ela, tudo sempre esteve disponível — treinamentos, refeições, vestes — porque o monastério era sua casa, sua moldura, seu universo inteiro.
Mas agora, fora dali, o mundo parecia vasto demais e cheio de regras invisíveis.
Agatha notou isso sem que Amara precisasse dizer. A mulher era prática, acostumada a resolver problemas com as mãos, e não com filosofias. E, por isso mesmo, sua recomendação foi direta, quase dura, porém acolhedora como um abraço bem dado:
— Arrume um trabalho, menina. Junte umas moedas de Aurum. E depois… bem, depois você vê no que dá. A vida não avisa qual capítulo vem a seguir — disse ela, enquanto empilhava pequenos maços de ervas na bancada. — Só segue em frente e faz o que puder com o que tem.
A simplicidade da frase acertou Amara como um golpe certeiro — não de dor, mas de verdade.
Ela realmente não fazia ideia do que viria depois. Nem de quanto Aurum precisava. Nem de como se vivia fora de um templo.
Mas, de algum modo, aquela incerteza carregava também um brilho de liberdade.
Um futuro totalmente em branco… pronto para ser escrito.
A manhã chegou de supetão, rasgando a escuridão sem pedir licença. O céu exibia um véu azul ligeiramente esbranquiçado, enquanto as nuvens carregavam nas bordas um brilho dourado, como se alguém tivesse pincelado luz nelas com cuidado. Era a hora de partir.
Amara precisaria levantar cedo para acompanhar o marido de Agatha e a filha do casal pela estrada até Bruvi. Ambos já estavam acostumados a acordar no exato momento em que a claridade despontava no horizonte — um hábito moldado pela vida no campo, onde o dia não espera por ninguém.
Eric, o marido, já de pé, alimentava a mula de carga com feno fresco, enquanto Marie coçava os pelos cinzas da lateral do animal num sorriso enorme, mostrando as “janelinhas” de dentes de leite caídos. Um vestido simples tingido de amarelo pálido, proveniente das raízes de amai, de onde se faz o chá tão conhecido na região. A cor suave combinava perfeitamente com a vivacidade da menina, que parecia saltitar mesmo quando estava parada.
Ao notar Amara se aproximando, Marie levantou os olhos de imediato — e o brilho em seu rosto aumentou como se a jovem monge tivesse acabado de aparecer ali por magia.
— Muito bom dia Amara! — A garota irradiava de uma luz interna e trazia uma onda de calor consigo, tal forma que só as crianças podem — Você dormiu bem?
— Bom dia, Marie… — respondeu Amara, com um sorriso pequeno mas sincero.
Sorriu, mas o sono a impedia de devolver todo o entusiasmo, e ela mesmo ainda estava perdida dentro dos próprios pensamentos. Ajudou-os no que podia, levou uns mantimentos à carroça, alguns mais leves, pois outros já eram pesados demais.
A gentileza de Agatha estende-se até em um preparo básico de suas feridas, enroladas em panos velhos cozidos n’água fervente junto à ervas que a dona diz ser medicinal. As bandagens apertavam um pouco, mas confortavam e lembram a jovem de que ainda havia pessoas boas no mundo.
Assim que tudo estava pronto, seguiram pela estrada de terra em direção a Bruvi. O ar ainda carregava o frio da madrugada, mordiscando a pele exposta, mas em compensação o campo exibia um brilho suave: cada folha cintilava com o orvalho recente, o caminho todo havia sido polvilhado por pequenas luzes caídas do céu, levando o sol consigo à terra.
⪧Bhaz⪦
Alongou os braços acima da cabeça, esticando cada músculo preguiçoso, e ergueu o torso como quem desperta de um casulo. A mandíbula se abriu num bocejo gigantesco, cheio de dentes e de um som grave abafado, enquanto ele aspirava fundo o ar leve da taverna. Ainda lhe parecia estranho que a estadia tivesse custado tão pouco para um lugar tão acolhedor — como aquele estabelecimento ainda se mantinha aberto nesse mercado competitivo? Era um mistério para outro dia.
Vestiu a camisa com movimentos lentos, ajeitou a bolsa pendurada no ombro e desceu as escadas de madeira que rangiam sob seu peso.
— Olá, Bhaz! Bom dia! — saudou Kylia, inclinando-se entre as mesas enquanto colocava tudo em ordem. “Salão” talvez fosse um exagero para o ambiente; “sala” parecia mais sincero… mas era uma sala simpática, e Bhaz apreciava isso.
— Bom dia! — respondeu o maedrago cheio de ânimo, o sorriso escamoso iluminando o rosto. — Como vai, Berta?
— Bem, obrigada. — A funcionária respondeu com naturalidade. Já acostumada com a presença do réptil, a menina não recuava mais como no dia anterior; até parecia achar graça de sua postura e voz.
Foi então que um aroma irresistível começou a se espalhar pelo ar. Algo quente, tostado… pão fresco com notas de cebola e talvez mais alguma erva que ele não reconhecia — mas queria reconhecer imediatamente. O cheiro parecia entrar pelas narinas, descer coluna abaixo e puxar seu corpo pelo estômago.
— Que coisa boa é essa que estão fazendo?
A pergunta quase saiu como um ronronado.
— Pão torrado com ervas. Quer um? — ofereceu Kylia, como se aquilo fosse a coisa mais natural do mundo.
Era praticamente perguntar se macaco queria banana.
Bhaz não teve tempo nem de fingir modéstia — o cheiro falava mais alto que qualquer educação matinal.
— Sim, por favor! — Ele se sentou tão depressa que quase deslocou a cadeira, e Kylia sorriu, encantada com o entusiasmo.
Ela colocou diante dele uma porção generosa — fatias grossas, quentes e douradas, soltando vapor como se ainda conversassem com o fogo que as preparara.
E Bhaz, mesmo não sendo muito de comer pela manhã, sabia que aquela era uma exceção obrigatória.
Após uma breve, mas satisfatória refeição, Bhaz permitiu-se perambular mais pela cidade naquela manhã clara. As ruas não pareciam muito diferentes do dia anterior: os mesmos comerciantes exibiam as mesmas mercadorias, as mesmas carroças rangiam ao passar, e os moradores iam e vinham em sua rotina costumeira.
Mas havia um detalhe novo, sutil como um fiapo de fumaça no ar: cochichos. Muitos. Pequenos murmúrios escapando entre as pessoas, viajando como insetos zumbindo de ouvido em ouvido.
Pela primeira vez desde que chegara, Bruvi parecia respirar expectativa.
Logo o réptil começou a perceber trechos das conversas enquanto caminhava:
"Hoje é o dia do torneio, sabia? A Igreja não faz um desses há anos."
"Ouvi dizer que vieram guerreiros de outras vilas, até de Bemora! Dizem que um deles levantou um touro com as mãos."
"A recompensa… ah, dizem que está generosa. Muito generosa. Deve ser coisa direto do cofre do Templo."
"Não é só dinheiro não, ouvi que o vencedor ganha uma bênção especial do sacerdote-mor… daquelas que mudam a vida, sabe?"
"E parece que até viajantes podem participar. Qualquer um que mostre coragem suficiente."
À medida que os fragmentos se acumulavam, Bhaz compreendia melhor o clima vibrante que se erguia sob a superfície de Bruvi. Havia uma energia coletiva, como se toda a cidade estivesse puxando ar antes de um grande grito.
Crianças corriam com gravetos fingindo lutar; homens carregando caixas paravam no meio do caminho para comentar; até velhinhas encostadas em muros observavam o movimento com olhos animados, como se a juventude lhes tivesse voltado por um instante.
E, embora o maedrago não fosse exatamente do tipo competitivo, não pôde deixar de sentir uma pontadinha de curiosidade cutucar-lhe a mente.
Afinal… que tipo de torneio era esse que chamava tanta atenção?

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