Decidiu seguir os rumores, ver no que dava. Se a tal recompensa fosse mesmo tão valiosa quanto todos sussurravam, talvez valesse a pena tentar participar. Bhaz realmente precisava de Aurum — especialmente depois do preço da estadia e de ter cedido à tentação daquele café da manhã delicioso. Um torneio podia ser, quem diria, justamente o empurrão financeiro que buscava.
Entre cochichos e indicações apontadas com o queixo, o maedrago descobriu a localização do evento: a praça central de Bruvi.
Seguiu pelas ruas mais movimentadas até que o fluxo de pessoas começou a convergir, como água correndo para uma única nascente. E então a viu.
A praça era formada por grandes placas de pedra branca, polidas o bastante para refletir a luz da manhã e quase ofuscar os olhos de quem chegava. As rochas estavam dispostas em um círculo perfeito — ou tão perfeito quanto mãos humanas e ferramentas antigas podiam alcançar — um símbolo de ordem e racionalidade, em harmonia com a divindade à qual era dedicada.
No centro erguia-se a estátua de Bhastilo, Senhor da Razão. Dominava o espaço sem esforço, como se o ar ao redor se submetesse a ela.
A figura divina estava talhada num mármore tão pálido que parecia emitir sua própria luz. Seus olhos, embora esculpidos em pedra, miravam o infinito — um olhar distante, como quem contempla constelações que nenhum mortal jamais verá.
Na mão esquerda, segurava o cetro: longo, firme, a ponta representando uma estrela estilizada, símbolo de conhecimento.
Na mão direita, um livro aberto, as páginas desenhadas com entalhes tão precisos que pareciam estar prestes a virar sozinhas com o vento.
Não havia pigmentação alguma, nenhuma adição de cor, mas a perfeição das linhas e ângulos bastava para transmitir presença, autoridade e sabedoria.
A praça já pulsava em expectativa. Pessoas haviam se reunido em volta do círculo, deixando espaço apenas no centro, onde o torneio seria realizado. A multidão murmurava, alguns comentando as regras, outros tentando adivinhar quem participaria desta vez. Algumas crianças até imitavam golpes imaginários, inspiradas apenas pelo clima.
E Bhaz, observando tudo, percebeu que aquilo não era só um evento — era um acontecimento. Algo que movia a cidade inteira.
⪧Amara⪦
As pedras sob seus pés eram bem diferentes do chão de pedra poluída do tempo, ou da terra úmida, agradável de pisar com os pés descalços. Ligeiramente irregulares e cheias de sua própria textura, eram uma completa nova experiência, fora a adrenalina de estar na capital antes de concluir seu treinamento.
Amara observava as pessoas, diferentes das de Khalo, pareciam mais agitadas e apressadas, queriam chegar logo em seu destino final. Os comerciantes tinham pulmões poderosos e um fôlego estupendo, a cacofonia formada pelas pessoas tentando vender seus produtos fazia-se perder a ordem mental de qualquer um, e assim a garota preferiu passar por trechos mais silenciosos da cidade. Já nas ruas secundárias, garotos poucos mais velhos que Marie brincavam com espadas de madeira improvisadas, fazendo poses exageradas e ruídos dramáticos que pareciam saídos de histórias mal contadas.
“Se pudéssemos participar do torneio, eu daria de dez à zero em você!”
“Você não venceria nem contra um bebê, quem dirá com um fortão que nem eu!”
“Zé-mané fortão, teu braço é de macarrão”
As provocações iam ficando cada vez mais absurdas, como boas e legítimas brigas de rua entre crianças.
Amara observou tudo à distância, um sorriso tímido escapando sem permissão.
Agora, pensando em “torneio”, percebeu que sequer fazia ideia do que estava acontecendo ali. A palavra repetida pelos meninos chamara sua atenção, mas nada além disso. Tomou coragem, aproximou-se de um dos garotos — o mais empolgado, com a espada de madeira já gasta nas pontas de tanto “golpear o ar” — e o chamou:
— Olá, menino, tudo bom? Que espada bacana a sua.
Dissera as palavras certas. Bastou um segundo para ver o orgulho inflando o peito do garoto como um sapo durante o acasalamento. Ele ergueu a espada com as duas mãos, inclinando o queixo para cima como quem segura uma relíquia ancestral.
— É muito boa essa minha espada, a melhor que tem! — proclamou, completamente imune à existência do conceito de humildade.
Amara conteve um riso.
— Vem cá… eu sou nova aqui. Que torneio é esse que estão falando? — perguntou, acompanhando a fala com um sorriso gentil.
O menino piscou, como se tivesse sido atingido por algo mais impactante do que qualquer golpe imaginário. Então franziu a testa com toda a intensidade dramática que só crianças possuem.
— Você não sabe do torneio, tia? — Seu tom condescendente
O sorriso de Amara congelou. Um músculo do canto da boca tremeu. Tia?
Ela tinha cara de tia de alguém? Céus, não fazia nem vinte anos e já era promovida à “tia”?
— N–não, não sei — respondeu, tentando manter a dignidade que o golpe havia tentado roubar.
O garoto endireitou a postura, claramente emocionado por ter sido consultado como autoridade suprema do assunto. Girou a espada de madeira no ar — quase acertando o amigo — e começou, empolgado:
— O torneio é muito legal, tia! — disse, agora completamente confortável com o título que havia dado. — É tipo… tipo uma grande briga, mas que pode! Todo mundo vem de vários lugares só pra lutar lá na praça grande. A Igreja faz isso todo ano! Quer dizer… acho que é todo ano. Ou quase. Ou só quando eles querem mesmo.
Ele respirou fundo, abriu os braços como se descrevesse algo colossal:
— As pessoas entram lá no meio e tem que derrubar o outro! Pode nocautear, pode jogar pra fora do círculo, pode dar cambalhota, pode empurrar, pode até dar chave de braço se souber… só não pode matar ninguém, porque se matar perde na hora… e aí vai preso… e aí deve ter que pedir desculpa pro bispo, que deve ser muito chato.
Deu um aceno sério, confirmando sua própria suposição.
— As armas têm que estar com o pano enrolado, tá? Senão os guardas brigam com a gente. Tipo, brigam MESMO. Meu primo tentou entrar com uma adaga escondida e levou um tapa na orelha que ficou vermelha até o fim da tarde.
O amigo ao lado concordou com tanta força que quase caiu.
— Ah, e quem ganha no final pode receber um monte de coisas! A Igreja dá recompensa diferente todo ano. Às vezes é um saco de moedas, às vezes é uma arma especial, às vezes é um… um… negócio mágico que ninguém sabe usar direito mas todo mundo quer.
O menino inclinou-se pra perto de Amara, como se compartilhasse um segredo:
— E dizem que neste ano a recompensa é grandona. Tão grandona que até gente que nunca veio pra Bruvi veio só pra tentar. Aposto que até guerreiros de verdade vão participar.
Endireitou-se outra vez.
— Se eu tivesse uns anos a mais, eu ia ganhar fácil. — Bateu no peito com orgulho. — Fácil demais.
O amigo retrucou em tom de desafio:
— Ia nada! Ia perder pra mim logo na primeira rodada!
— Ia não! — respondeu o primeiro, já preparando a espada de madeira para outro duelo imaginário.
E Amara teve a sensação clara de que, se deixasse, os dois reencenariam ali mesmo a final do torneio inteiro. De qualquer forma, perdera a atenção do menino, que escapuliu e foi acertar um pau na cabeça do amiguinho.

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