Please note that Tapas no longer supports Internet Explorer.
We recommend upgrading to the latest Microsoft Edge, Google Chrome, or Firefox.
Home
Comics
Novels
Community
Mature
More
Help Discord Forums Newsfeed Contact Merch Shop
Publish
Home
Comics
Novels
Community
Mature
More
Help Discord Forums Newsfeed Contact Merch Shop
__anonymous__
__anonymous__
0
  • Publish
  • Ink shop
  • Redeem code
  • Settings
  • Log out

Jinkan - A Perdição da Estrela

O Grande Torneio III

O Grande Torneio III

Dec 13, 2025

Um torneio, é?

A ideia pairou em sua mente por alguns instantes, girando lentamente, como uma lâmina suspensa no ar antes do golpe. Nunca havia participado de algo assim. No monastério, o combate era treino, disciplina, repetição — não havia plateia, nem prêmio, nem aplausos. Lutava-se para aprimorar o corpo e a mente, não para vencer alguém. Ali, porém, seria diferente.

Testar suas habilidades cultivadas em Hoshikai…
Colocá-las à prova fora dos muros sagrados.
Enfrentar desconhecidos, cada um carregando sua própria história, seus próprios motivos para estar ali.

E, acima de tudo, lutar com um incentivo real para vencer — algo que não fosse a própria sobrevivência.

A ideia lhe causou um arrepio que não era de medo, mas de expectativa. Deveras interessante.

Sem perceber, seus passos começaram a seguir o fluxo das vozes, da movimentação crescente, do burburinho que se adensava à medida que avançava. Pessoas caminhavam na mesma direção, algumas apressadas, outras animadas, discutindo possibilidades, apostas improvisadas, nomes que sequer conhecia.

Logo, as ruas estreitas deram lugar a um espaço amplo e aberto.

Ali estava a Praça do Comércio.

A praça central de Bruvi se estendia diante de seus olhos como um grande palco de pedra, vivo e pulsante. Barracas haviam sido afastadas, carroças realocadas, e próximo ao centro do círculo de pavimento claro já se delineava a arena improvisada — delimitada por cordas grossas, estacas fincadas no chão e guardas atentos, garantindo que a ordem não se dissolvesse no entusiasmo coletivo.

Era ali.

O coração da capital.
E o palco do torneio orquestrado pela Igreja.

Amara sentiu o coração bater um pouco mais forte.

Talvez aquele fosse o primeiro passo real fora da vida que conhecera até então.


A multidão já era tão densa que Amara precisou virar o corpo de lado, avançando aos poucos, abrindo caminho com o ombro e o antebraço, pedindo desculpas mudas a cada esbarrão inevitável. O burburinho se tornava quase ensurdecedor, vozes se sobrepondo, risadas nervosas, comentários animados e apostas improvisadas. Foi então que, entre cabeças e estandartes menores, avistou uma mesa simples de madeira reforçada, destacada por um estandarte alto que balançava preguiçosamente acima dela.

“Novos participantes, venham!”

As letras grossas e bem pintadas não deixavam margem para dúvida. Era ali.

Sem pensar muito, apressou o passo até o fim da fila que se formava diante da mesa, concentrada demais para observar quem estava ao redor. Foi nesse descuido que acabou trombando com alguém.

— Desc— Eh?!

Virou a cabeça num movimento brusco, o susto interrompendo a palavra antes que se completasse. Seus olhos se arregalaram ao encontrar um homem-réptil diante de si. Escamas negras cobriam-lhe o corpo, mas entre elas corriam tons umbra e verdes profundos, como uma correnteza imóvel sob a luz do dia. A estrutura do rosto era forte, e a ponta de alguns dentes afiados escapava da proteção dos lábios, visível mesmo quando relaxado.

Por um breve instante, Amara ficou sem ar.

— Foi mal, você está bem?

A voz veio calma, surpreendentemente suave para alguém de aparência tão imponente. O homem-lagarto ergueu uma das mãos, a garra parcialmente recolhida num gesto claro de preocupação, mantendo distância respeitosa.

— Estou bem, obrigada…

As palavras saíram no automático. Não havia nada de rude em sua resposta, mas o choque era impossível de esconder. Nunca havia visto alguém que não fosse humano.

— Ah, que ótimo! — o maedrago suspirou, aliviado. — Você primeiro, por favor.

Ele recuou meio passo e fez um gesto educado com a mão, acompanhando tudo com um sorriso largo e simpático, o que acabou por aliviar um pouco a rigidez no peito de Amara. Havia algo genuinamente gentil naquele desconhecido, e isso a ajudou a se recompor.

— Certo… valeu.

Ainda um pouco sem jeito, ajeitou a postura e se colocou atrás da última pessoa da fila. Era um homem de aparência dura, roupas de pele rústica coladas ao corpo, braços grossos marcados por uma coleção de cicatrizes antigas — algumas limpas, outras irregulares demais para terem sido causadas por lâminas comuns.

Por um instante, ele lançou um olhar gelado por sobre o ombro, avaliando-a de cima a baixo, como quem mede um possível oponente. O olhar era pesado, experiente, e fez um arrepio percorrer a espinha de Amara. Logo em seguida, porém, o homem voltou sua atenção ao atendente à mesa.

Ele seria o próximo.

— Vem cá, você sabe qual é o prêmio?

A mesma voz gentil ressurgiu logo atrás dela, agora familiar o bastante para não causar susto. Amara virou-se novamente para o maedrago, encontrando o mesmo sorriso tranquilo.

— Oi? — piscou uma vez, se recompondo. — Não… não sei ao certo. Estavam dizendo que era dinheiro, mas parece que ninguém sabe exatamente o quê.

— Pois é… — Bhaz coçou a lateral do pescoço, pensativo. — Estou tentando descobrir também. Tomara que seja dinheiro. Estou precisando.

— Eu também.

A resposta veio simples, quase automática. Bhaz percebeu aquilo com facilidade: a rigidez inicial da garota já havia diminuído. Seus ombros estavam mais relaxados, o olhar menos defensivo. A aparência incomum dele, aos poucos, deixava de ser um choque e passava a ser apenas… alguém.

— Como é que você se chama?

— Eu sou Amara. — respondeu, virando-se por completo para lhe dar atenção, agora sem hesitação.

— Meu nome é Bhaz.

O sorriso que se abriu no rosto do maedrago era largo e sincero, exibindo vários dentes afiados sem qualquer tentativa de escondê-los — não por ameaça, mas por hábito. Havia algo desarmante naquele gesto.

Antes que pudessem dizer mais alguma coisa, uma voz irritada cortou o ar atrás deles, repetindo-se com força crescente:

— Próximo!

O atendente claramente já estava no limite da paciência, incomodado com a conversa que emperrava a fila. Amara quase deu um pulo para frente, endireitando-se às pressas diante da mesa. Pelo canto da boca, pôde ouvir um murmúrio abafado de “que saco” antes que o homem finalmente erguesse o olhar para ela.

A vergonha subiu-lhe pela barriga como um calor desconfortável.

— Eu gostaria de participar do torneio, por favor.

— Sim, sim. — respondeu ele, já pegando o carvão e o pergaminho. — Nome e classe.

— Classe? — Amara inclinou a cabeça cerca de quarenta e cinco graus, confusa, o cérebro ainda tentando se adaptar à lógica daquele novo mundo.

O atendente suspirou.

— Sim, oras. Você luta como?

— …Ah. Certo. — piscou algumas vezes. — Sou uma kenshi.

— Ken-shi… — o homem repetiu em voz baixa, soletrando enquanto escrevia, a ponta do carvão riscando o pergaminho com pouca delicadeza.

Bhaz observava a cena logo atrás dela, interessado.

A engrenagem havia começado a girar.

Passada a vez da garota, chegou o momento do lagarto.

— Muito bem… e você?

Diferente de Amara, Bhaz já estava preparado. Tinha ouvido cada palavra da conversa anterior e sabia exatamente o que viria a seguir.

— Bhaz. Sou um pardal.

A pena do atendente hesitou por um breve instante antes de continuar.

— Pardal, é? — ergueu os olhos, avaliando-o com mais atenção. — Que deus segue?

— Sou pardal de Fusei, Senhora do Fim.

O efeito foi imediato.

— Por mil estrelas… um corvo… — a expressão do homem se fechou num vinco profundo. Ele desviou o olhar, baixou a cabeça e cobriu parte do rosto com a mão, como se afastasse um mau presságio. — Siga seu caminho em paz, corvo.

Bhaz permaneceu imóvel por um segundo a mais do que o necessário. Conhecia bem aquela reação — não era a primeira vez que a via, tampouco seria a última. Ainda assim, o peso da palavra sempre vinha carregado de algo além do som.

Preferia mil vezes ser chamado de escamoso.

“Corvo”, naquele tom, sempre vinha com medo.

Seguiu em direção a Amara, abrindo caminho entre os demais participantes que já se aglomeravam nas proximidades da arena. O ambiente fervilhava de expectativa e tensão contida. Alguns competidores se lançavam ao chão em séries ritmadas de flexões, o suor escorrendo antes mesmo do primeiro embate. Outros alongavam braços e pernas com movimentos lentos e calculados, como se afinassem o próprio corpo antes de colocá-lo à prova. Havia ainda aqueles mais curiosos — ou talvez mais confiantes — que folheavam livros de capas gastas, murmurando fórmulas, mantras ou estratégias silenciosas. E, espalhados aqui e ali, os desleixados: riam alto, trocavam provocações baratas, batiam no peito e lançavam olhares tortos aos possíveis adversários, como cães marcando território.

— Oi de novo — disse Bhaz ao se aproximar.

A atenção dele voltou-se para a garota, observando-a com um interesse mais atento desta vez, quase analítico, como se tentasse entender não apenas quem ela era, mas o que carregava por dentro.

— Oi, Bhaz — Amara respondeu de forma curta, a voz baixa, sem hostilidade, mas ainda reservada.

O maedrago desviou o olhar e percorreu o entorno com cautela. Muitos dos competidores pareciam tudo, menos amadores. Corpos marcados por cicatrizes antigas e recentes, músculos espessos moldados por anos de violência e treino, mãos calejadas que denunciavam mais do que simples prática esportiva. Alguns tinham o olhar vazio de quem já lutara vezes demais; outros, o brilho inquieto de quem ansiava pela próxima chance de provar algo ao mundo.

Bhaz sentiu a garganta secar e engoliu em seco.

Talvez aquele torneio fosse mais sério do que imaginara.


Minutos se passaram, e o alvoroço das inscrições dissolveu-se quase tão rápido quanto surgira. A fila evaporou em murmúrios e passos apressados, e os participantes começaram a se espalhar ao redor da arena, formando um semicírculo irregular de expectativa e curiosidade.

Então, o som das cornetas rasgou o ar.

Não foi um toque festivo, mas cerimonial — longo, grave, ecoando pelas pedras da praça como um aviso inevitável. As conversas morreram aos poucos, primeiro perto da arena, depois mais distantes, até que restasse apenas um zumbido baixo de gente contida e atenta.

— Atenção, todos! — bradou um homenzinho postado no topo da arena, sua voz aguda forçando autoridade que suas vestes simples não sustentavam. — O Constelário Raimond irá se pronunciar diante do povo. Ouçam!

Um leve burburinho percorreu a multidão ao ouvir o nome.

Logo atrás dele, avançando com passos calculados e quase silenciosos, surgiu o representante da Igreja Celeste. Um homem de idade avançada, mas longe de parecer frágil. Seus movimentos eram suaves, econômicos, como se cada gesto tivesse sido ensaiado ao longo de décadas. Vestia um manto azul profundo, de tecido pesado e bem cuidado, bordado com estrelas douradas que captavam a luz e a devolviam em pequenos lampejos discretos.

Não havia pressa em sua aproximação.
Não havia necessidade.

Quando Raimond alcançou a borda da arena, apoiou-se levemente no cajado que carregava — não como quem precisa dele, mas como quem o aceita como extensão natural de si. Seus olhos varreram a praça com calma estudada, pousando aqui e ali sobre rostos ansiosos, combatentes confiantes, curiosos ocasionais.

Somente quando o silêncio foi absoluto, ele falou.

— Habitantes de Bruvi… e viajantes vindos de longe. — Sua voz não era alta, mas carregava-se com facilidade, firme e clara, como se o próprio ar se encarregasse de levá-la adiante. — Hoje, sob o mesmo céu que observa nossos passos desde o princípio dos tempos, reunimo-nos para testar corpo, mente e propósito.

Fez uma breve pausa. Não para respirar — mas para permitir que cada palavra se assentasse.

— A Igreja de Bhastilo não celebra a violência sem razão. Este torneio não existe para o deleite do sangue, mas para a revelação da excelência. — Ergueu levemente o queixo. — Aqui, coragem será medida. Disciplina será provada. E aqueles que demonstrarem domínio sobre si mesmos, mais do que sobre seus oponentes, serão reconhecidos.

Alguns na multidão trocaram olhares. Outros cerraram os punhos.

— As regras já foram anunciadas e serão mantidas. — continuou Raimond, o tom agora mais severo. — Não haverá lâminas nuas, nem intenção mortal. Quem esquecer isso esquecerá também sua permanência neste torneio.

Seus olhos, por um instante breve demais para ser coincidência, passaram pela multidão de participantes… e pousaram exatamente onde Amara e Bhaz estavam.

— Que Bhastilo observe seus passos. Que a razão guie seus golpes. — Concluiu, apoiando o cajado no chão com um toque seco de madeira contra pedra. — Que o torneio comece.

custom banner
h4wk3n0
MrHawken

Creator

Comments (0)

See all
Add a comment

Recommendation for you

  • What Makes a Monster

    Recommendation

    What Makes a Monster

    BL 76.7k likes

  • Silence | book 1

    Recommendation

    Silence | book 1

    LGBTQ+ 27.3k likes

  • Primalcraft: Sins of Bygone Days

    Recommendation

    Primalcraft: Sins of Bygone Days

    BL 3.4k likes

  • Frej Rising

    Recommendation

    Frej Rising

    LGBTQ+ 2.9k likes

  • Primalcraft: Scourge of the Wolf

    Recommendation

    Primalcraft: Scourge of the Wolf

    BL 7.2k likes

  • Silence | book 2

    Recommendation

    Silence | book 2

    LGBTQ+ 32.4k likes

  • feeling lucky

    Feeling lucky

    Random series you may like

Jinkan - A Perdição da Estrela
Jinkan - A Perdição da Estrela

1.2k views11 subscribers

Nas noites silenciosas, um brilho incomum corta o céu e rasga a paz das terras abaixo. Rumores surgem como sussurros — ora esperança, ora presságio — anunciando a queda de um fragmento vindo das alturas. Ninguém sabe se é um presente ou uma ameaça, apenas que seu impacto pode mudar o destino de todos.

Enquanto o mundo observa o firmamento, algo mais antigo que as próprias estrelas começa a despertar. Espíritos que há séculos dormiam entre raízes, rios e ventos abrem os olhos etéreos para a chegada do visitante celestial. Suas presenças cintilam nas sombras, nas névoas matinais e nas clareiras ocultas onde a magia respira.

Nem todos, porém, permanecem como simples testemuhas. Alguns desses seres — sábios, estranhos e belos — estendem suas mãos a mortais que caminham na escuridão sem saber o que os aguarda. Entre humanos e espíritos, alianças improváveis florescem, guiando aqueles que ousam enfrentar o desconhecido.

Com a aproximação da estrela caída, o mundo se curva entre luz e sombra. E nas entrelinhas desse encontro — entre o céu, a terra e o espírito — nasce uma jornada que unirá destinos, revelará segredos adormecidos e decidirá que tipo de futuro surgirá das cinzas do firmamento.
Subscribe

32 episodes

O Grande Torneio III

O Grande Torneio III

39 views 2 likes 0 comments


Style
More
Like
List
Comment

Prev
Next

Full
Exit
2
0
Prev
Next