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Não me Esqueças

6. Linum usitatissimum, ao lado de sua janela(1)

6. Linum usitatissimum, ao lado de sua janela(1)

Dec 25, 2025

   Cassian acordou calmamente, o sol batendo na cama com lençóis brancos, cobertores grossos e cheiro de álcool etílico. Sua mente estava confusa, abraçando o calor que os cobertores tinham, sua última memória sendo da tempestade fria. 

   Ele logo reconheceu o local, percebendo que havia um acesso em sua mão e uma bomba de soro ligada ao seu lado com um bipe incessante. Ele nunca gostou muito de hospitais, mas tinha de dizer que o hospital central da Divisão de Pesquisa era muito mais aconchegante que muitos na Terra. O quarto era espaçoso, com uma tintura branca quente, os azulejos em amarelo pastel e pinturas de flores jogadas pelas paredes. O quarto de Cassian tinha uma janela logo ao lado da cama, aliviando um pouco o rapaz por não estar em uma UTI. O cômodo era mobiliado o suficiente para não parecer um ponto vazio, com uma cômoda, uma pequena mesa de café com duas cadeiras, uma estante com livros, uma TV pequena e, por fim, uma poltrona, que estava ocupada por uma figura dormente. Era difícil não reconhecer Lysandre. Suas vestes eram características, em tons de preto e vermelho, mesmo quando usava o próprio casaco como cobertor. Em cima da escrivaninha tinha um capacete de ciclismo, seu visor com alguns aranhões. 

   Cassian ficou alguns minutos o observando em silêncio, tentando compreender o porquê de ele ter ido o buscar. Era certeza de que havia mão do Chester nisso, mas ainda era um tanto inusitado. Não fazia nem um dia direito que eles se conheciam, e pelo que ele sabia, Chester não tinha intimidade com o suficiente com o querubim para o pedir um favor tão repentino. Seus olhos finalmente voltaram sua atenção devida ao capacete, percebendo sua forma peculiar. Ele tinha o visor espelhado em tons de azul e branco, dois chifres vermelhos logo acima no topo e a marca de uma pena de pavão, em azul, na lateral voltada para Cassian. A pena era simples e estilizada, um coração substituindo o círculo central. 

   “Faz muito tempo que acordou?”, Lysandre falou com a voz baixa. Ele não parecia cansado ou sonolento, como se apenas fingisse que estava dormindo. 

   “Não… Você está aí a quanto tempo?”, a garganta de Cassian estava seca, sua voz saindo um pouco falhada. Percebendo isso, Lysandre se levantou e foi até a mesa, onde já estava uma jarra de água e dois copos, ambos de plástico transparente. Ele apenas respondeu à pergunta quando entregou o copo para o rapaz, seu ritmo completamente diferente da primeira conversa que tiveram. 

   “Dois dias. Você estava com hipotermia e eles pediram que alguém ficasse de olho em você durante a noite”, Cassian quase se engasgou com a água, sentindo ela descer como uma pedra em sua garganta. Ele sentia mesmo seu corpo mais gelado que o normal, se escondendo nos cobertores desde que acordou. “Você tem que começar a se alimentar melhor também, seus exames vieram completamente alterados, não é à toa que você desmaiou tão facilmente” 

   Lysandre tinha um tom preocupado, cruzando os braços enquanto pensava no que dizer para não sair tão rude. Ele tinha um cuidado com as palavras e entonação, difícil de encontrar em anjos no Paraíso. Nas próprias palavras de Chester, quando Cassian havia chegado no local, todo mundo tinha uma liberdade em como suas palavras soavam para o próximo. Não entendeu uma entonação ou entrelinha? Era completamente sua culpa, de mais ninguém. Era assim que as coisas funcionavam para a grande maioria dos anjos, as pequenas exceções vindas daqueles que trabalhavam com seres humanos e compreendiam melhor sobre comunicação - e ainda sim, tudo dependia de seus humores durante uma conversa. Lysandre, porém, demonstrava uma cautela diferente, genuína, se importando mais com o próximo do que com sua imagem pessoal. 

   “Dois dias… Desculpa mesmo por ter feito você passar por isso”, Cassian se ajeitou na cama, em uma posição mais confortável para conversar. Lysandre acenou com a cabeça em negação, se sentando na beirada da cama para ficar mais perto do rapaz. 

   “Não me incomoda, apenas estou preocupado. Você trabalha comigo, é meu colega e agora também meu amigo. Se eu não cuidar de vocês é difícil que outra pessoa cuide, e isso vai além do meu trabalho” 

   “Agora sim eu me sinto mal…”, Cassian abaixou o olhar, não tinha o costume de receber tanta atenção de ninguém além de Chester, e até mesmo ele tinha o costume de deixar algumas coisas passarem despercebidas. Ele olhou novamente para o querubim, surpreso por ver uma expressão de carinho. Pouco a pouco, Cassian sentia entender um pouco mais o caráter de Lysandre. Era diferente do cuidado que Chester ou Catherine tinham, menos familiar e mais íntimo para ele. Ao relembrar do coelho, ele não pode deixar de perguntar, “… E o Chester?”

   “Quase morreu de preocupação quando soube que você estava aqui”, o tom do querubim era exagerado, colocando uma mão no peito e revirando os olhos para demonstrar o drama feito pelo seu colega de trabalho. Era típico que o código exagerasse em suas reações, principalmente quando o assunto era Cassian. “Você é muito querido pra ele, fico feliz por isso. Ele aparecia de vez em quando no meu escritório para pedir ajuda com os relatórios antes de você aparecer, agora é só de vez em quando. Às vezes sinto falta” 

   Havia uma melancolia nas palavras de Lysandre, uma tão familiar e genuína para Cassian. Uma tristeza parental. Ele mesmo já havia sentido aquilo algumas vezes vendo seus irmãos crescendo. Era comum que ele se esquecesse do quão distante ele era em relação ao mundo que hoje vivia, lembrando apenas nesses pequenos momentos em que via a real vulnerabilidade dos seres que compartilhava do mesmo ambiente. 

   “Eu vou aproveitar que você acordou pra dar uma pulada na cafeteria e pegar algo pra beber. Quer algo de lá?”, o rapaz apenas acenou com a cabeça, deixando o querubim de preto se afastar da cama e sair do quarto, o deixando sozinho por alguns minutos. Se pudesse, Cassian teria se levantado e seguido o anjo, estar preso aos aparelhos o sufocando mais que ajudando. 

   Ele nunca gostou de ambientes hospitalares, o silêncio e a falta de emoção eram mórbidos, e as dores que acompanhavam os tratamentos apenas auxiliavam seu sentimento de desconforto. Seu peito pesado em ansiedade, a cabeça doendo levemente pelo tempo que permaneceu inconsciente. 

   A Divisão de pesquisa era diferente de um hospital como ele conhecia, fosse para o gosto ou desgosto do entregador. A divisão inteira era pintada em tons claros e aconchegantes, de vez em quando pinturas de figuras acompanhando os ladrilhos coloridos. O líder da divisão, Rafael, tinha certeza de que aquela era a melhor maneira de tornar a divisão menos assustadora para quem chegasse de primeira viagem, ciente de que a quantidade absurda de maquinários hospitalares e agulhas não era o preferível para muitos, incluindo anjos. O ambiente era silencioso, mas nunca vazio. Os quartos eram privados, mas nunca solitários. Cassian quase odiava o quão contraditório o lugar se tornava, e como isso não o ajudava com a sensação de desesperança que acompanhava seus pensamentos. 

   Sim, ele agradecia por Rafael ser um dos anjos mais sensíveis e pensar em todos de forma coletiva. Ao mesmo tempo, ele não queria mais passar um minuto dentro daquele quarto de hospital se pudesse. Ele conseguia sentir o seu braço gelado e a sua boca com gosto estranho pela quantidade de soro fisiológico que colocaram em sua veia. o bipe das bombas de infusão e estática vindo da televisão de canto auxiliando no incomodo. Cassian não se considerava uma pessoa paranoica em natureza, mas havia situações em que ele sentia como se algo ou alguém estivesse constantemente o observando de longe, podendo sentir o olhar como agulhas em sua pele. Infelizmente, esse era uma dessas situações. 

   Felizmente Lysandre não demorou demais para voltar com dois copos, um de plástico com um canudo e um de isopor. Julgando por como ele já estava tomando do copo de isopor, o outro era para si. Era chá gelado, os cubos de gelo lembrando pequenas rodelas de limão. 

   Cassian olhou para o conteúdo do copo por alguns segundos e depois para o querubim, vendo o sorriso que tinha, junto do pequeno balançar para frente e para trás, lembrando levemente de seus irmãos mais novos quando queriam opinião sobre algo que tinham realizado. O pequeno gesto - por mais bobo que fosse - foi o suficiente para tirar um sorriso do rapaz, que alegremente tomou um gole da bebida. 

   “Não é tão ruim assim, só colocaria menos açúcar” 

   “É pra esconder o gosto do álcool”, Lysandre finalmente se sentou na beirada da cama, o sorriso agora sendo quase diabólico. O rapaz respondeu com uma risada, ciente de que era apenas uma brincadeira, agradecendo internamente por sua companhia ser bem-humorada. 

   Os dois ainda conversaram bastante durante a manhã, compartilhando um pouco das suas dificuldades com seus respectivos setores e funcionários que encontravam ao longo do dia. Cassian tinha muita dificuldade em controlar a equipe encarregada da organização das cartas de manhã. Pelo ritmo acelerado e grande energia, era difícil acompanhar o raciocínio de alguns, enquanto outros procrastinavam até o último minuto, entregando muitas vezes um serviço ‘meia boca’, em suas palavras. Lysandre, por outro lado, tinha muito problema com a parte comunicativa da divisão - ironicamente. Muitos seguiam o modelo de Adinah. Um rosto bonito é mais importante que saber conversar decentemente. Para Lysandre, se não fosse o novo regimento das irmãs do destino e seus milhares de programas envolvendo trabalho, seria muito mais fácil ensinar os anjos socialização, mas Cassian não entendia muito das políticas antigas desse mundo, então os pensamentos acabaram só sendo jogados ao ar. 

   O relógio estava perto de bater nas onze horas da manhã quando a conversa foi interrompida por passos pesados e apressados vindo do corredor. Cassian conseguia reconhecer de longe que eles eram de Chester - que em seguida bateu com força a porta, tirando de Lysandre um pulo pelo susto. 

   O coelho não era sutil com o que estava pensando. Seu rosto demonstrava carinho, raiva e preocupação, todos ao mesmo tempo. Se Cassian não estivesse acamado, ele provavelmente o balançaria de um lado para o outro, no intuito de deixá-lo enjoado. 

   “Eu deveria ter percebido que você estava demorando mais do que o normal”, Chester estava ofegante, sinal de que ele correu até o quarto assim que teve a liberação para visita, “Você nunca demora pra responder, nunca ignora minhas ligações, mesmo quando você está com raiva de mim ou quando você está sem energia 

   “Você tá sempre no seu próprio mundinho e pensei que pela primeira vez você ia fazer algo diferente, talvez deixar pra me contar depois como você estava, ou até mesmo feito uma amizade nova e estava ocupado com algo mais interessante”, ele colocou o rosto entre as mãos, falando rápido o suficiente para ser difícil de entender. 

   “Chester”, Lysandre o chamou em vão. 

   “Eu me preocupei tanto. Você nem imagina o quão desesperado eu fiquei quando descobri que você tinha sumido e ninguém conseguia te contatar. Foi aí que eu lembrei que você tinha ido até as roseiras e algo poderia ter acontecido com você por lá, então eu liguei pro Lysandre e ele disse que você tinha saído fazia algumas horas. Daí eu pensei ‘ah ótimo, ele deve ter sido comido por alguma coisa e é tudo minha culpa por não ter me tocado antes’” 

   “Chester, olha pra mim”, o querubim se levantou de onde estava e foi até o coelho, se agachando em sua frente para que pudesse tomar sua atenção. “Chester, eu preciso que você respire fundo, do jeito que eu te ensinei, ok?” 

   Com um aceno rápido e um pouco de relutância Chester pôde então se acalmar. Após algumas repetições, Lysandre abriu os abraços em direção ao coelho, recebendo um abraço tímido dele. Cassian agora compreendia o quão próximos eles eram. Chester odiava contato prolongado - até mesmo dele mesmo - e nunca era de iniciar qualquer demonstração de carinho que não fosse agressiva por natureza. Um peteleco ou empurrão? Claro, mas um abraço? Era mais fácil ele se jogar contra um penhasco. Com o olhar perplexo do rapaz, Lysandre se sentiu na obrigação de explicar. 

   “Sempre quando dá algum problema com os anjos e a administração não sabe o que fazer sou eu que pego a frente. Normalmente eu consigo encaminhar todo mundo pra cá e dou apoio e orientações de forma indireta, mas casos como você e o Chester são um pouco diferentes. Chester precisa de um ombro amigo de vez em quando para colocar toda a frustração do trabalho.”

   “… E o que tem de tão diferente assim no meu caso?” 

   “Você só vai ser liberado com um acompanhante para cuidar de você até todos os seus exames estarem regularizados, incluindo as vitaminas”, Chester colocou a cabeça no ombro do querubim, ainda um pouco exausto da crise breve que teve segundos atras. “Eu não posso ficar com você porque meu trabalho é operacional, a Vera vai ficar no teu lugar enquanto você tá fora porque ela é a mais competente pra isso, e eles só deixam pessoas da mesma divisão serem acompanhantes, então a Catty está fora de questão. Depois de ficar doido tentando encontrar alguém que você tolere o suficiente pra passar esses dias, o Lysandre se ofereceu para cuidar de você”

Erosgrammia
Anteros Grammia

Creator

omg, capítulo novo no natal

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