“… Ele?”, Cassian se inclinou um pouco para frente, relutante, olhando para Lysandre como se dissesse ‘nada pessoal’.
“Sim”
“Que eu conheço não faz nem dois dias?”
“É isso ou eu te jogo pra ficar com o Mathias e o Lucas naquele cafofo que eles chamam de casa”
“Ok, eu aceito”
Chester soltou uma risada anasalada, contente por não precisar insistir muito, ciente de todos os jeitos para fazer o entregador aceitar suas condições. Ele ficou por mais uma hora inteira - incomodando os enfermeiros a todo momento, com pedidos incessantes e reclamações de problemas que ele mesmo poderia resolver - antes de se despedir e voltar para seu trabalho. Só então que uma enfermeira teve coragem de entrar no quarto, segurando o histórico de evolução de Cassian, intimidada demais pela presença do código para adentrar anteriormente.
Nas palavras de Lysandre, ela era uma alma doce. Claramente sobrecarregada com toda a rotina do centro médico, mas ainda muito dedicada ao seu sonho, evidente pela forma como ela foi rápida e clara em explicar para Cassian - e Lysandre por extensão - sobre seu quadro atual e sua previsão de alta.
Ele precisaria ficar ao menos mais um dia para ver se seus exames de sangue se estabilizaram, mas com a previsão de alta no dia seguinte se tudo fosse dentro do esperado. A doutora chefe de plantão do dia estava surpresa pela resistência que o corpo de Cassian tinha para um ser humano. Normalmente anjos menos resistentes ao frio aparecem com casos de frieira e congelamento nas mãos, asas, orelhas e pés, precisando de tratamentos urgentes. Cassian, no entanto, tinha uma apenas apareceu com um quadro de hipotermia leve e nível baixo de algumas vitaminas. Ao se comparar, ele ou era muito sortudo, ou havia sido abençoado com um corpo sobrehumano ao chegar no Paraíso. O rapaz brincou dizendo que sua terra natal era conhecida pelos climas extremos, então ele acabou se acostumando com o tempo. Podia ser verdade, mas ainda não justificava o milagre dele ter sobrevivido com tão poucos arranhões - afinal, ele nunca havia visto neve até chegar no Paraíso. Colocando esse fato de lado, a enfermeira estava esperançosa da previsão de alta estar próxima, torcendo para que os exames viessem estáveis.
A companhia de Lysandre se fez ser mais necessária após a saída da enfermeira, pois, apesar do tom otimista dela, o rapaz ainda tinha o sentimento terrível no seu peito de que aquilo nunca iria acabar. No primeiro momento que o querubim percebeu a ansiedade e desconforto que ele estava passando, ele se prontificou de buscar algo para entreter o rapaz, em alguns minutos voltando com opções de livros, um caderno não pautado, uma lapiseira e uma caixa de lápis de cor. Como não tinha certeza do que Cassian gostava, ele pegou os títulos que mais o interessaram na biblioteca do centro médico, sendo eles títulos de romances fantasiosos e alguns livros históricos. Entre eles, um chamou sua atenção. Ele parecia mais velho, a capa azul amarelada e as bordas comidas pelo tempo. Claramente o livro não pertencia a biblioteca do centro, visto que não só tinha uma condição de uso diferente, como também estava em uma pilha completamente a parte, solitário. Ele tentou chegar mais perto para tentar ler o título do livro, mas sem seus óculos era quase impossível distinguir a caligrafia na capa.
Lysandre alcançou os óculos para ele, soltando uma risada com os seus esforços em ser autossuficiente, se sentando ao seu lado com o livro em mãos. Era uma de suas possessões mais antigas, uma das únicas que aguentou todas as mudanças no Paraíso e se manteve inteira. Ou pelo menos grande parte inteira. Ele havia ganhado o livro de um amigo há muito tempo, e desde então ele o levava para todo lugar como uma lembrança. O fazia se sentir menos sozinho.
O livro em si era um compilado ilustrado sobre linguagem das flores, publicado em 1858. Como ele havia conseguido aquele livro na época? Lysandre tinha essa mesma dúvida. Antigamente era muito mais difícil conseguir artigos do mundo secular, principalmente quando se tratava de literatura e arte. A música, a linguagem e até mesmo o senso de se vestir eram facilmente replicáveis com a comunicação certa e observações. Mas a literatura e a arte eram habilidades que precisavam de treinamento e conceito para serem replicados. A não ser que um anjo trouxesse do mundo secular uma cópia de algo - o que poderia ser considerado crime dependendo de onde a cópia foi retirada - era praticamente impossível ter acesso a muitas das mídias da época. Esse procedimento só começou a ficar mais fácil após a chegada dos anjos honorários, pois então eles tinham uma visão mais precisa e uma atual vivência de como eram esses elementos. Lysandre de repente então parou, dando uma pequena risada para si mesmo. Aparentemente ele já tinha respondido o próprio questionamento, já que o livro tinha sido presente de um anjo honorário.
Cassian escutava atentamente cada palavra que Lysandre falava. Ele tinha uma forma especial de contar sobre seu passado, como se tivesse vivido milhares de anos, um conforto e nostalgia únicos em sua voz. Sim, havia anjos que estavam já faziam séculos em suas posições, mas pelo que o rapaz sabia a Nova Era não tinha nem dois mil anos desde que foi instalada. Enquanto isso o olhar de Lysandre parecia se estender para além da vida humana pela forma que ele recordava de seu passado. Era melancólico, porém gentil. Doloroso, mas confortante. Cassian sentia que podia ficar noites escutando o querubim falando sem parar, absorvendo cada pedaço de história como se fosse sua. Ele nunca admitiria o tamanho de sua curiosidade - ao menos, não agora. Internamente ele sentia como se fosse um intruso, demandando mais do que ele tinha direito. Lysandre era gentil e caridoso com ele, compartilhando de suas memórias como forma de acalmar a ansiedade do rapaz, mas em momento algum era como se Cassian tivesse o direito de escutá-las tão casualmente. Era como escutar um segredo que estava além de seu privilégio.
Em um movimento repentino, Lysandre se aproximou do rapaz, se sentando ao lado dele na maca, acenando para que ele se encostasse em seu ombro. Ele já havia parado de falar fazia alguns minutos, percebendo que sua companhia estava se perdendo em pensamentos novamente, procurando evitar o deixar mais sobrecarregado do que já estava.
Chester havia mencionado para ele que o humano tinha problemas com hospitais e que estava preocupado em deixá-lo sozinho. Era fácil para Cassian entrar em episódios de dissociação quando em lugares muito solitários - principal motivo pelo qual ele não foi transferido até agora para outro setor. Mesmo que ele reclamasse da bagunça e pedisse silêncio frequentemente no centro de distribuição, deixá-lo sozinho se provou ser um grande obstáculo na sua adaptação. Sua mente era muito hiperativa para o ambiente do escritório, e apesar de tudo ele era ótimo com gestão de pessoas, dificilmente criando conflito entre ele e os outros funcionários.
Cassian demorou alguns instantes para aceitar o gesto de carinho, encostando a cabeça no ombro do querubim com cuidado, se fazendo confortável. O anjo havia pego o caderno e dois lápis de cor, azul e verde, desenhando nas páginas diferentes tipos de flores. Algumas eram fáceis de reconhecer, ainda que pintadas de azul, como os lírios, rosas, hibiscos, cravos, entre outras flores que sua mãe plantava antes de ficar senil. Outras eram completamente novas para ele, com pétalas em formatos diferentes e curiosos, se curvando de formas que ele não achava possíveis, mais parecidas com os sonhos de um artista do que realmente plantas. Claro, a mídia em que elas estavam sendo colocadas ajudava nessa sensação artística, no entanto ainda havia um grau de credibilidade na forma em que o querubim as desenhava, como se ele mesmo crescesse aquelas pequenas plantas curiosas.
Com a proximidade, Cassian finalmente teve a oportunidade de observar com mais cuidado o anjo. Quando o conheceu, ele tinha a impressão de que sua pele era feita de um material semelhante a porcelana, esperando frieza e a sensação de vidro, porém logo foi surpreendido pela sensação macia e suave, o lembrando das miniaturas antigas de gatinhos que sua vó tinha em sua cristaleira. Seu cabelo tinha o cheiro de incenso de alecrim, se movimentando lentamente como labaredas nas pontas - anunciando seu leve calor confortável que emanavam. Ele era quente ao toque, quase humano, diferente da grande maioria dos anjos que ele conhecia. Ou melhor, diferente de qualquer anjo que ele conhecia. Para ele aquilo havia se tornado uma ocorrência tão comum que nem mesmo passava pela sua cabeça como todos os anjos são gelados ao toque, em especial anjos honorários. De forma quase mórbida, era como estar em contato com um corpo morto.
Curioso com o que aquilo significava, Cassian olhou para o querubim, ainda com o rosto em seu ombro, falando quase que em um sussurro para não atrapalhar a concentração dele, “Como pode você ser tão diferente dos outros?”
“Hm? Como assim ‘diferente dos outros’?”, Lysandre o olhou de volta, não em um tom acusador, mas com interesse.
“Você é tão pacífico… Em tudo. Não parece uma pessoa real. É como se você fosse feito pra agradar os outros”
“É isso que você acha de mim?”
“Um… Pouco? Agora que eu falei em voz alta percebi o quão ruim isso soou… É difícil colocar em palavras, e eu não sou lá a melhor pessoa para se expressar também”, o rapaz se jogou para o lado, se deitando com a cabeça no travesseiro. Ele não conseguia ver enquanto olhava para o teto do quarto, mas o sorriso de Lysandre caiu no momento que ele não estava mais perto.
Demorou um pouco para o querubim responder, o tom gentil e acolhedor fraquejando um pouco, claramente era um tópico difícil de falar. “Isso é… Proposital”
O humano olhou novamente para o querubim, agora com uma expressão séria enquanto rabiscava no papel, “Anjos eram mais do que apenas um símbolo de luz e esperança antes de tudo mudar. Éramos diversos. Poucos, mas muito mais diversos. Cada um de nós tinha uma missão. Um começo, meio e fim. Isso nos dava prazer de existir, força para lutar, inspiração para cantar. Havia aqueles que desprezavam seus propósitos? É claro que tinha, nada é perfeito. Mas era inegável como éramos muito mais satisfeitos naquela época
“Eu tinha um propósito simples: amar. Amar tudo aquilo que era vivo e que um dia viveu. Amar sem discriminar, amar sem julgar. Ser o símbolo de reconciliação e bondade para todos. Vocês eram a parte fácil do meu trabalho, difícil era manter os céus em ordem. Anjos são teimosos, cheios de razão, beirando o orgulho. São ambiciosos, procuram sempre ser melhores que os outros, se banhar em graça. Aqueles com propósitos simples e diretos como o meu ainda conseguiam ver além das lentes do absurdo que nossos irmãos proclamavam. Mas existiam aqueles que cantavam apenas pela glória e não pela felicidade de cantar”
“É como nas histórias que nos contam na igreja?”, Cassian sabia a resposta, mas ainda sim queria saber os detalhes que os livros do Paraíso não contavam.
“Eu diria que muito pior. Até porque não foi nosso pai que os desconstituiu de seus lugares, mas sim um irmão nosso. Talvez seja por isso que há tanto ressentimento entre as duas partes. Perder a a sua graça pelas mãos de alguém que você via como igual no lugar de alguém que você respeita. Mas também não sou alguém que possa julgar seus caráteres, mesmo se fizessem algo terrível eu teria a coragem de entender seus lados e tentaria os abraçar”, finalmente fechando o caderno e o colocando de lado, Lysandre se arrastou na maca até ficar em uma posição parecida que Cassian olhando para o teto.
Eles permaneceram em silêncio por longos minutos, sem saber o que dizer. Cassian tinha muitas coisas a quais queria perguntar - algumas mais pessoais, enquanto outras mais históricas - finalmente ao lado de alguém que não apenas tinha o conhecimento, como estava disposto a compartilhar. Lysandre compartilhava de um sentimento parecido, pois não apenas tinha encontrado alguém que o tratava como uma pessoa, mas estava disposto a ouvi-lo como uma pessoa. Naquele cenário, o silêncio se tornou mais um companheiro confortável do que um impedimento. Exausto das noites terríveis em que estava desacordado, Cassian tirou seus óculos e colocou na cômoda mais próxima. Nesse momento, estava contente em que as macas da Divisão de Pesquisa eram maiores do que suas contrapartes seculares, podendo se deitar confortavelmente ao lado do querubim. Antes de se deixar vencido pelo sono, ele sussurrou um pequeno ‘obrigado’ em direção ao Lysandre, que o olhou com um sorriso e acenou em concordância, por um pequeno momento podendo jurar que os olhos do rapaz brilharam em um tom azulado, o lembrando de uma flor de linho.

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