A luz tênue que se infiltrava pelas persianas semiabertas iluminava o quarto de hospital, criando padrões irregulares no teto e nas paredes brancas. Alexander estava sentado na cama, ainda um tanto zonzo, a cabeça latejando como um tambor distante. À sua frente, Brunno Warrant permanecia de pé, sua presença dominando o pequeno espaço.
Alexander reparou mais no homem agora que a adrenalina começava a diminuir. O detetive era uma visão impressionante: os ombros largos e a postura elegante transmitiam uma confiança que parecia quase sobrenatural. A jaqueta de couro marrom, ajustada perfeitamente, movia-se com ele como uma extensão natural de seu corpo, e os olhos azuis... aqueles olhos, brilhando como safiras sob a luz difusa, estavam fixos nele de uma maneira que fez Alexander engolir em seco.
Brunno inclinou levemente a cabeça, a expressão no rosto uma combinação desconcertante de seriedade e interesse.
— Vou perguntar novamente, Alexander. O que aconteceu na noite em que você foi atacado? Preciso saber cada detalhe.
Alexander piscou, confuso. “Na noite passada?!”, ele pensou, mas antes que pudesse dizer algo, a dúvida o atingiu como um golpe: Foi mesmo na noite passada?
Tudo parecia embaralhado em sua mente, como um quebra-cabeça com peças faltando.
— E-eu... foi ontem à noite, não foi? — ele perguntou, hesitante, olhando para Brunno em busca de confirmação.
O detetive não respondeu de imediato. Sua expressão permaneceu impassível, mas havia algo na intensidade de seu olhar que fez Alexander desviar o rosto, desconfortável.
— Continue. — Brunno disse finalmente, sua voz grave, mas sem pressa.
Alexander respirou fundo, tentando organizar os pensamentos enquanto as memórias se formavam, fragmentadas, como cacos de vidro.
— Eu tinha ido ao Bronze... sabe, aquela boate na rua principal. — Ele fez uma pausa, reparando na leve inclinação da cabeça de Brunno, indicando que ele estava ouvindo atentamente. — Eu... perdi a noção do tempo. Quando percebi, já era tarde, e decidi cortar caminho para casa.
Ele parou de falar quando uma pontada aguda atravessou sua cabeça. Sua mão instintivamente foi até a têmpora, os dedos pressionando o local na tentativa de aliviar a dor.
— Está tudo bem? — Brunno perguntou, sua voz agora carregada com um tom mais suave.
Antes que Alexander pudesse responder, Brunno deu dois passos até a mesa ao lado da cama, onde havia um jarro de água e alguns copos descartáveis. A maneira como ele se movia chamou a atenção de Alexander: cada passo era calculado, gracioso, quase como se ele estivesse dançando. Havia algo magnético na fluidez de seus movimentos, algo que Alexander não conseguia ignorar.
Brunno encheu um copo com água e o entregou a ele, aproximando-se o suficiente para que Alexander pudesse sentir o leve aroma de madeira e tabaco que emanava de sua jaqueta.
— Aqui, beba. Vai ajudar.
Alexander pegou o copo com mãos trêmulas, surpreso pela gentileza inesperada. Ele murmurou um agradecimento e levou o copo aos lábios, bebendo um gole hesitante.
Enquanto bebia, Brunno caminhou até a poltrona ao lado da cama e se sentou com a mesma graça fluida. Ele cruzou as pernas, apoiando um braço no encosto da cadeira e inclinando o corpo levemente para a frente. Seus olhos, tão azuis quanto intensos, fixaram-se novamente em Alexander.
— Você decidiu cortar caminho pela trilha do cemitério. — Não era uma pergunta; era uma afirmação. — E foi no cemitério que você encontrou o grupo de rapazes da Whitmore University. Estou certo?
Alexander engoliu em seco, sentindo uma nova onda de tensão percorrer seu corpo. Ele assentiu lentamente, os dedos apertando o copo descartável com força.
— Sim. — ele respondeu, a voz quase um sussurro. — Eu... os vi lá.
Brunno inclinou-se um pouco mais para frente, seus olhos nunca deixando os de Alexander.
— Preciso que você me conte exatamente o que aconteceu quando você os encontrou. Cada detalhe. Não importa o quão pequeno pareça.
Alexander desviou o olhar, encarando o chão enquanto tentava reunir coragem para reviver as memórias. Ele sabia que a verdade precisava ser dita, mas algo na intensidade com que Brunno o observava tornava tudo mais difícil.
— Eles estavam... bêbados. Pelo menos pareciam estar. Me cercaram e começaram a dizer coisas. — Ele engoliu em seco, as palavras saindo com dificuldade. — Eu tentei sair, mas... eles me agarraram. E então...
Ele parou, a dor de cabeça voltando com força total.
Brunno não o apressou. Ele esperou em silêncio, seu olhar penetrante deixando claro que estava absorvendo cada palavra.
— Eu não consigo lembrar de tudo. — Alexander admitiu, a voz trêmula. — Mas... algo aconteceu. Algo terrível.
Os olhos de Brunno brilharam por um breve momento, como se ele soubesse exatamente do que Alexander estava falando, mas não quis revelar.
— Está bem. Vamos com calma. Você está seguro agora, Alexander. Isso é o que importa.
O tom reconfortante de Brunno deveria ter aliviado Alexander, mas a sensação de que o detetive sabia mais do que estava revelando deixou um nó em seu estômago. Ele olhou para o homem à sua frente e sentiu um misto de alívio e apreensão, como se estivesse diante de alguém que poderia tanto salvá-lo quanto destruí-lo.

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