O silêncio pairava no quarto, quebrado apenas pelo som rítmico do monitor cardíaco ao lado da cama de Alexander. Brunno permaneceu sentado na poltrona, seu olhar fixo no jovem à sua frente, que segurava o copo de água com mãos trêmulas. A luz amarelada do abajur criava sombras alongadas no rosto do detetive, destacando os traços fortes e a intensidade nos olhos azuis.
— Alexander, você consegue se lembrar de mais alguma coisa a partir do momento em que eles o agarraram? — Brunno perguntou, sua voz calma, mas carregada de expectativa.
Alexander franziu a testa, os dedos apertando o copo com mais força. A pergunta parecia abrir um buraco em sua mente, puxando lembranças que ele preferia deixar enterradas. Mas, enquanto a dor de cabeça pulsava em sua têmpora, um fragmento de memória surgiu, vívido e repentino como um relâmpago.
Ele viu o líder dos rapazes, um sorriso cruel emoldurado por olhos cheios de malícia. Ouviu o som abafado de passos na terra do cemitério, misturado com sua própria respiração acelerada. Então, uma explosão de adrenalina o tomou, e ele se viu golpeando o rapaz com toda a força que tinha, acertando-o no rosto.
— Eu... eu o agredi. — Alexander sussurrou, os olhos arregalados enquanto revivia o momento.
Brunno inclinou-se para frente, os cotovelos apoiados nos joelhos, analisando cada expressão no rosto de Alexander.
— Como exatamente isso aconteceu? — ele perguntou, o tom cuidadosamente neutro, mas os olhos traindo sua curiosidade.
— Como assim? — Alexander piscou, confuso com a pergunta. — Ele... ele estava perto demais, e eu só... reagi.
Brunno estreitou os olhos, inclinando a cabeça ligeiramente.
— Você reagiu ou tomou a iniciativa? Você o agrediu para se defender ou porque queria machucá-lo?
A pergunta atingiu Alexander como um golpe. Ele abriu a boca para responder, mas as palavras não vieram. A linha entre ataque e defesa parecia borrada em sua memória, e a insistência de Brunno apenas aumentava sua confusão.
— Eu... não sei. Foi tudo tão rápido... — ele gaguejou, desviando o olhar.
Antes que Brunno pudesse pressioná-lo mais, o som abrupto da porta do quarto se abrindo interrompeu a conversa. Alexander virou a cabeça para ver seu pai, John Montgomery, entrando no quarto com passos firmes e uma expressão carregada de preocupação e irritação.
— Com licença. Quem é você? — John perguntou, sua voz cortante enquanto seus olhos avaliavam Brunno de cima a baixo.
Brunno levantou-se lentamente, sua postura ainda descontraída, mas a intensidade em seus olhos não diminuiu. Ele estendeu a mão em direção a John, um leve sorriso nos lábios.
— Detetive Brunno Warrant. Estou investigando o caso do ataque ao seu filho.
John ignorou a mão por um momento, seus olhos movendo-se rapidamente entre Brunno e Alexander antes de finalmente aceitar o aperto de mão.
— Entendo. Bem... detetive, com todo respeito, acho que qualquer outra pergunta deve ser feita na presença de um advogado. — A força no aperto indicava que ele não estava disposto a recuar.
A hostilidade na voz de John era evidente, e Brunno arqueou uma sobrancelha, surpreso, mas não perdeu a compostura. Ele soltou a mão de John e deu um passo para trás, mantendo o tom cordial.
— Mas é claro. Estou apenas tentando entender o que aconteceu para garantir que os responsáveis sejam encontrados.
John cruzou os braços, a expressão endurecida.
— Tenho certeza de que podemos colaborar quando estivermos devidamente representados. Agora, se me permite, gostaria de conversar com meu filho em particular.
Brunno olhou para Alexander por um momento, seus olhos azuis suavizando ligeiramente. Ele assentiu para o jovem antes de pegar um pequeno bloco de notas no bolso interno da jaqueta de couro e anotar algo.
— Aqui está meu contato direto, caso precise de algo ou lembre-se de mais detalhes.
Ele colocou o papel sobre a mesa ao lado da cama, dirigindo-se novamente a John.
— Senhor Montgomery, espero que possamos trabalhar juntos para resolver isso. Quero apenas o melhor para o seu filho.
John manteve a expressão fechada, não respondendo, enquanto Brunno se dirigia à porta.
— Cuide-se, Alexander. — O detetive fez uma última pausa antes de sair, olhando para o garoto encamado. — Lembre-se: a verdade é sempre sua melhor defesa.
Com isso, Brunno saiu do quarto, deixando pai e filho sozinhos.
John fechou a porta com força, soltando um suspiro pesado antes de se virar para Alexander.
— Você está bem, filho? Ele fez alguma pergunta fora de linha?
Alexander balançou a cabeça, ainda processando a interação. A presença de Brunno parecia ter deixado uma marca nele, algo que ele não conseguia definir, mas que pesava em sua mente.
— Não... ele foi muito gentil... só queria saber o que aconteceu.
John assentiu, mas a preocupação ainda estava clara em seus olhos. Ele se aproximou e colocou a mão no ombro de Alexander, o peso do gesto carregando tanto proteção quanto uma necessidade de controle.
— Eu não vou deixar ninguém o pressionar, entendeu? Vamos cuidar disso do jeito certo. Você não precisa enfrentar isso sozinho.
Alexander assentiu, mas enquanto ouvia as palavras tranquilizadoras do pai, sua mente voltava repetidamente à figura de Brunno Warrant e às perguntas que ele deixara sem resposta.

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