Residência dos Avery
Blue Lagoon, Louisiana.
A mansão dos Avery era um testemunho do tempo, uma joia arquitetônica que resistia ao peso dos séculos na cidade de Blue Lagoon. Erguida no coração de uma propriedade cercada por carvalhos centenários e arbustos de magnólias em flor, a casa parecia respirar história. O casarão tinha um charme peculiar: suas colunas de estilo grego ladeavam uma entrada imponente, com uma porta de madeira maciça adornada por entalhes intricados, que, ao observador atento, poderiam parecer runas ou símbolos arcanos.
As janelas altas, com venezianas brancas descascadas pelo tempo, davam à residência uma aparência ao mesmo tempo acolhedora e misteriosa. O telhado de ardósia negra parecia absorver o luar, refletindo-o de forma fantasmagórica nas noites claras. A varanda envolvente, com cadeiras de balanço antigas e samambaias penduradas em ganchos de ferro, era o lugar onde gerações da família Avery haviam compartilhado histórias e segredos.
Embora a casa exalasse tranquilidade, havia algo nos corredores e salas que parecia sussurrar histórias não contadas. Os retratos dos ancestrais pendurados nas paredes pareciam seguir os visitantes com os olhos, e o som de passos ecoava de forma diferente em cada cômodo, como se o tempo se dobrasse ali.
Mas, enquanto o resto da casa era uma mistura de elegância e mistério, o porão era um mundo à parte.
A entrada para o porão ficava escondida atrás de uma porta de madeira rústica, com dobradiças que rangiam como se estivessem guardando um segredo. Ao descer os degraus estreitos, iluminados por uma fraca luz amarelada, o ar parecia mudar. Tornava-se mais denso, mais carregado, como se estivesse impregnado de histórias antigas e energia acumulada.
O espaço era amplo, mas cada centímetro era ocupado por itens que transformavam o porão em uma espécie de santuário místico. As prateleiras eram abarrotadas de amuletos pendurados em cordões, pedras polidas que reluziam à luz de candelabros de ferro e frascos de vidro contendo líquidos estranhos, ervas submersas ou pequenos objetos indistinguíveis. Ervas secas, como arruda, alecrim e sálvia, pendiam do teto, exalando um aroma terroso e forte.
No canto esquerdo, um caldeirão grande repousava sobre um suporte de ferro, com marcas de queimaduras indicando que já havia sido usado inúmeras vezes. Potes de cerâmica pintados à mão estavam espalhados pelo chão, com inscrições em uma língua que parecia antiga demais para ser decifrada.
O centro do porão, no entanto, era a peça central. No chão de madeira desgastada, um enorme círculo de giz branco havia sido traçado com precisão obsessiva. No interior do círculo, um pentagrama dominava o espaço, cada linha perfeitamente reta. Em cada ponta do pentagrama, uma vela brilhava com uma chama tranquila, mas intensa, cada uma em uma cor diferente: azul, branco, laranja, marrom e verde-claro. As cores pareciam vibrar, como se fossem mais do que simples velas — como se carregassem os elementos que representavam: água, terra, fogo, ar e espírito.
Ao redor do círculo, estavam espalhados livros de capa dura e aparência desgastada, suas páginas amareladas cobertas de anotações em caligrafia minuciosa. Alguns estavam abertos, exibindo diagramas e símbolos que pareciam pertencer a um mundo completamente diferente.
No centro de tudo isso estava Wanda Avery.
Wanda, agora uma mulher idosa de aparência frágil, era um contraste gritante com a energia vibrante do porão. Seus cabelos brancos, longos e soltos, brilhavam à luz das velas, e seus olhos castanho-claros tinham um brilho intenso, quase sobrenatural. Ela vestia um vestido longo de linho, bordado com símbolos que combinavam com os que estavam no círculo à sua frente.
Apesar de seu corpo estar curvado pelo tempo, seus movimentos eram precisos enquanto ajustava algo dentro do círculo. Suas mãos, cobertas de rugas e marcas de uma vida longa e trabalhosa, ainda eram firmes. Ela murmurava palavras baixas, um idioma que soava tanto como uma oração quanto como um comando.
A porta do porão rangeu, e Wanda ergueu a cabeça. Sua neta, Claire Avery, desceu os degraus apressadamente, o som de seus sapatos quebrando o silêncio carregado. Claire hesitou ao chegar ao pé da escada, os olhos arregalados ao ver o círculo e sua avó no centro.
— Vovó? O que está fazendo? — Claire perguntou, a voz trêmula.
Wanda ergueu a mão, pedindo silêncio.
— Há algo errado, Claire. Algo despertou. Eu preciso... precisamos proteger nossa família.
Claire franziu a testa, aproximando-se lentamente.
— Do que está falando? Não há nada errado. Você está apenas...
— Louca? Senil? Como dizem todos por aí? — Wanda interrompeu, sua voz firme como um trovão. — Deixe que pensem o que quiserem, mas algo obscuro chegou a Blue Lagoon. Eu senti isso. E você deveria sentir também. Está no sangue, minha querida. Está no sangue!
Claire recuou um passo, incerta. Wanda nunca havia falado tão abertamente sobre as crenças que mantinha ocultas por anos.
— O que a senhora quer dizer com algo obscuro?
Wanda suspirou, olhando para as velas que tremulavam levemente.
— Eu não sei exatamente. Mas o ar mudou. A terra está inquieta. E, esta noite, os espíritos falaram comigo. Algo está vindo. E não será facilmente contido.
Claire permaneceu em silêncio, os olhos fixos no pentagrama, onde as velas pareciam brilhar mais intensamente a cada segundo.
— Agora, vá buscar os amuletos da prateleira ao lado da escada. Vou precisar de sua ajuda, mesmo que você não acredite em nada disso. Ainda somos Avery, e isso significa algo.
Enquanto Claire hesitava, um som distante ecoou pela casa, algo que parecia uma batida leve, mas constante.
Wanda ergueu a cabeça, os olhos brilhando.
— Tarde demais. Ele já está aqui...
A luz âmbar do sol penetrava pelas janelas com vidros de chumbo, lançando reflexos fantasmagóricos pelas paredes decoradas com molduras douradas e retratos ancestrais. No ar, um silêncio preenchido por murmúrios de um passado que nunca se afastava completamente.
Claire Avery subia as escadas do porão com uma caixinha de madeira trancada, os amuletos da avó chacoalhando lá dentro. Seu coração batia forte, uma mistura de descrença e preocupação com as palavras de Wanda. Apesar de cética quanto às crenças místicas da avó, Claire não podia negar que algo naqueles últimos dias parecia... diferente.
Ela estava prestes a devolver os amuletos ao lugar indicado por Wanda quando a campainha ecoou pela casa. O som cortou o silêncio, reverberando pelas paredes como um sinal de alerta.
— Vovó, alguém está na porta! — Claire anunciou, inclinando-se para a entrada do porão.
— Não abra se não for necessário! Cuidado com quem você deixa entrar, minha menina. — A voz de Wanda veio carregada de uma seriedade que arrepiou Claire.
Claire hesitou por um momento, mas o som da campainha insistente a fez avançar pelo corredor. Suas mãos passaram levemente pelos móveis antigos enquanto caminhava, uma tentativa inconsciente de se ancorar à realidade. Ela abriu a porta devagar, e o que viu fez seu coração disparar.

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